Phedra de Córdoba por ela mesma!

Tempo de Leitura: 13 minutos

Ao querer conhecer as trajetórias de vida de travestis acima de 60 anos, muitas delas me alertaram que seria difícil encontrar travestis idosas, ou por estarem ocultas, preferindo uma vida mais reclusa e discreta ou porque já haviam falecido devido ao seu contexto existencial violento. Disseram que a palavra velhice era considerada um palavrão dentro do seu grupo.

Pedro Paulo Sammarco Antunes *

PhedraMesmo assim insisti até que soube que na Praça Roosevelt, localizada no centro de São Paulo, havia uma travesti idosa, que era atriz e trabalhava para uma companhia de teatro situada no local. Comecei a frequentar os teatros e bares da região e tive acesso à transexual Phedra de Córdoba, 72 anos. Realizamos a entrevista em um café que fica ao lado do teatro onde ela estava com uma peça em cartaz.

Phedra começa falando em seu “portunhol” que nasceu prematuramente como Rodolfo, em Havana (Cuba), e de sua complicada relação com a mãe e uma irmã (eram 10, mas morreram dois) que não a aceitavam da forma como era. Começou cedo no teatro e passou a fazer várias turnês pela América do Sul até chegar ao Brasil, em 1958, no governo de Juscelino Kubitschek, trazida pelo antológico Walter Pinto, do Teatro de Revistas.

Na década de 1950 e 1960, o baile dos enxutos, que ocorria no carnaval do Rio de Janeiro, era famoso e contava com a presença de muitos travestis. Havia concursos de fantasias que ocorriam nos teatros ao redor da Praça Tiradentes na cidade do Rio de Janeiro. Os bailes migram da região central para a Zona Sul. Muitos transformistas surgem no universo do entretenimento e do show business em cabarés e boates, ligados ao teatro de revista e filmes de chanchada. Apareciam como belas e elegantes. Porém, nas décadas de 1960 e 1970, com o advento do feminismo e a revolução sexual, há um aumento significativo do número de travestis que não eram ligadas aos musicais. Elas começam a se prostituir nos bairros cariocas da Lapa, Centro e Copacabana. Não é o caso de Phedra de Córdoba.

Mas você nesta época ainda não tinha feito a sua transformação? Como foi e quando? Foi em 1958. Eu fiz. Havia uma cúmplice da minha mãe no Brasil, então, ela sempre me ameaçava porque eu sempre vestia no carnaval no Rio, eu morei oito anos no Rio. Então, mesmo que eu viajava, vinha para São Paulo, fazia televisão em São Paulo, fiz Recife, Bahia, enfim, ela não me deixava em paz, ela sabia que eu gostava de me vestir de mulher e eu sempre me vestia no carnaval. Aí eu conheci a famosa Coccinelle. Francesa! Essa Coccinelle era amiga de um transformista e trabalhou comigo e com o Walter Pinto e se chamava Ivanah…foi famosa em São Paulo… Coccinelle me conheceu por intermédio de Ivanah e Ivanah falou assim para Coccinelle, “olha Córdoba é super transexual, tem cabeça de mulher e a fisionomia também”, e Coccinelle pegou abriu a bolsa dela, a pochete e me deu hormônio. Foram os franceses que descobriram os hormônios. As transex francesas sempre foram as mais perfeitas do mundo. Era uma coisa! Olha! Coccinelle… Jean Bella… La Bambi que era amante daquele ator francês, como se chama? Aquele que fez muito filme? Ai como é o nome dele? Me esqueço de vez em quando o nome… Ela foi amante dele e era transex.

Alain Delon?
PHEDRAAlain Delon. Foi amante dele. Ela fez um filme com ele. Bambi! Ela era linda! É que Coccinelle se sobressaiu porque sempre tem uma que fica mais estrela que a outra.
Eram todas lindas, a Jean Bella era perfecta. Como se chamava? E a Rogéria trabalhou ali também. Não me lembro qual o nome da boate; uma boate pequenininha… Le Carrousel de Paris! E então, yo comecei a tomar hormônio. Como era de menor ainda, a amiga da minha mãe apareceu no país, queria me levar para Cuba porque ficou sabendo que eu tinha um romance com um homem… e ligou para a minha mãe e disse: “Ai… Seu filho está com um homem!!!” E a minha mãe ficou louca!!! “Não, não! O meu filho viado, não!” Então, ela foi atrás de mim para encher o meu saco! Como eu briguei com a minha mãe e eu tinha medo do que a minha mãe ia fazer comigo, entende? Me ameaça muito!

E a Rogéria participou?
E eu também! Aí, ela falou assim pra mim: “Olha, Córdoba! Você não está mais assim para entrar em cena. Você parece uma mulher macho! … Uma mulher vestido de homem?” Tava muito feminina para entrar. Eu apenas cantava. Para entrar cantando você tem a voz muito feminina quando você fala e cantando é pior. Por que você não se veste de mulher?”Porque eu tenho contrato com Américo Leal, dono do Rival. Eu te faço a roupa, você compra um aplique… Você usa um aplique, eu te penteio, você se maquia muito bem; entra em cena e faça o mesmo que você faz de homem faz de mulher, normal, vestida de mulher fica melhor! E foi o que eu fiz. De repente, ele me fez a roupa em uma sexta-feira e eu não disse para ninguém, ninguém do teatro, nem mesmo o nosso querido que já morreu que é o pai da Ângela. A Ângela Leal é filha dele. Ele deixou o Teatro Rival para ela e para a filha dela, a neta dele, a Leandra Leal. O Leal estava sentado na primeira fila com um empresário que tinha casino em Manaus. Eu entrei e o Leal fez assim (assustado) e se encolheu na poltrona. E o homem: “Ai! Que mulher é esta! Que sensualidade! Que bonita!”Imagine… Eu era mais jovem e com vinte um anos era um escândalo! Se ainda com a idade que eu tenho todo mundo fala que eu sou bonita, imagine naquela época. Ele: “Ai! Que mulher grande!”E não se atrevia dizer que eu não era mulher… Aí, aconteceu que o cara queria me levar para Manaus, aí o Leal tinha que falar, ele: “Olha! Não é mulher…” O cara: “Como?” …Eu tinha um camarim sozinha. “Bicha, você é atrevida!” Eu respondi, Eu queria ser mulher Leal há muito tempo! “Que nome você vai usar? Porque eu não posso de anunciar como Felipe D. Córdoba. Tem que mudar o nome para mulher. Maria?” Eu, não! Eu te trago. Tira o cartaz o nome masculino, segunda-feira eu venho a cá e te trago o nome que vou usar de mulher. Ai, ai, ai. Eu não esqueço nunca mais da Aline, já falecida. “Ai, ai, ai. Essas bichas são todas loucas; essa louca vai fazer o que? Você vai usar que nome?” Eu disse, calma! Eu morava com uma bicha que era amigo meu de muitos anos que era costureiro, era uruguaio e eu sempre gostei de estudar teatro. Eu lia muito e eu tinha a mitologia grega que me roubaram inclusive. Aí eu falei para José, que é falecido também. Bicha, eu vou começar a fazer teatro de mulher. “Como?” Ele me viu chegando de mulher e no prédio o porteiro ficou assim (assustado); ele sabia que eu era bicha, mas, de repente, de salto alto e de mulher entrando no prédio, todo mundo ficou assim né? Eu entrei linda, aí o José: “Você veio pela rua assim de mulher?” Eu falei sim! “Tu é atrevida, só no carnaval que as bichas se vestem de mulher!” Eu vou andar de mulher! “Ai! Felipe!” Tira que eu vou tirar este nome! Yo vou usar outro! Abri e comecei a ler a filosofia e disse: olha tem Electra, bailarina; é lindo Electra. Posso usar Córdoba ainda? “Claro!” Porque eu tenho um nominho em teatro por causa de Felipe D. Córdoba porque Córdoba tem que ficar! Electra? Não gostei… Fui vendo as deusas do Olimpo. Mas aí, uma das páginas vi incesto, Phedra. Eu olhei e aquilo (explosão). A minha espiritualidade, já que me deram para Yemanjá e é ela que me domina, e eu falei assim: Phedra! “Tu tá louca?” Tô! Olha como é forte: Phedra D. Córdoba! “É Forte! É seu nome que irá abrir meu caminho de novo ainda para o teatro! E nasceu Phedra D. Córdoba em 1958 no Rio de Janeiro. E, depois viajei para Manaus, fiquei dois meses em Manaus abalando Paris! … E a Phedra que está lá está aqui agora! Essa é a minha história!

E de 1958 para cá?
PhedraPorra!!! Fiz muito show, cinema! Só parei um pouco na época da repressão querido!

Ah, então isso que eu ia te perguntar. Como que era?
Repressão eu tive…

Você tava falando que no teatro…
No teatro eu tava fazendo com Jofre Soares… Marcos Granado que era da TV Tupi, eu fiz a Corcunda de Notre Dame do famoso francês né? Sabe quem é né? Fiz a Cigana Esmeralda do Corcunda no Teatro das Nações. Aí, cismaram com peça, diziam que era comunista e acabou! Militar era tudo metido a santo, só que na verdade eram tudo putanheiro!

Mas o fato de você ser trans, eles não implicavam contigo?
Não podiam implicar porque eu sempre tive pessoas que me defendiam. Eu soube me defender muito bem. Yo era uma puta fina! Sabe como é? Eu sabia vender o meu corpo e queria que me pagassem muito bem e me pagassem bem até na política! E foi o que eu fiz!

Na época a operação era uma castração e por isto você nunca fez?
Sabe o que acontece Pedro? Eu estive com algumas operadas e eu cheguei a um cálculo que nós podemos ser e nos sentirmos mulher e que a gente nunca vai ser mulher. Podemos nos sentir mulher, ser muito feminina, não ser uma bichinha. Você tem que saber sobreviver e levar a sua vida e ter personalidade para encarar isto. Eu encarei muito fortemente isto! Eu me defendi com a minha própria defesa. Veja bem, uma coisa que eu vou dizer pode até se dizer que é loucura minha. Tem muita travesti que vai atrás de mim que elas me imitam e querem ser mulher por minha causa. Teve várias aqui. Cláudia Wonder não! Cláudia e eu éramos amigas. Eu digo das novas. A Maria Clara, essa que se operou há pouco tempo. Ela é mulher por minha causa! Ela disse: “Quando eu vi você e vi sua reportagem”. Ela aí, você pode ser como ela! Você nunca vai ser igual a ninguém amor… Eu sempre falo isto para a Maria Clara até hoje! Não imites a ninguém, seja você mesma! Tenha a sua própria personalidade. Não vá no caminho das outras, porque eu não sou igual a você, eu não penso igual a você, eu ajo diferente de você. Eu trabalhei diferente a você. Eu tive que enfrentar muita coisa que você não enfrentou e não vai enfrentar! A não ser que você vá para a Europa e seja puta como muitas fazem. Que você vai ter que jambrar! Mas assim ela é funcionária pública, ganha um ordenado e foi operar porque tinha dinheiro.

Você não se considera um ícone?
Yo no! Eu me considero uma lutadora que lutou por si para viver a vida que eu queria ter. Yo sou feliz bicho, muito feliz! Não tenho dinheiro, mas eu me visto bem! Como bem, me mantenho bem e tenho muita gente que gosta de mim como eu sou! Tenho amigos, entende? Por que? Porque os amigos os que eu tenho são verdadeiros porque vêem o meu modo de ser e que não sou hipócrita que eu tenho um caráter reservado, mas que quando sou amiga, sou amiga. Isso faz que o ser humano que tem uma visão um pouco mais aberta e espiritual vê que eu sou sincera e que sou autêntica. Eu sou autêntica, entende? Eu nunca quis ser miss de nada! Nunca! E no Rio quando eu comecei de mulher e já andava há três anos. “Ai! Vamos! Desfila! Desfila!” E eu: não! Não é a minha coisa. Você vê, sou amiga íntima da Roberta Close…

Phedra7E falando em teatro que você gosta tanto, nessa peça você fez o papel de idosa que está em uma cadeira de rodas, catatônica por causa da morte do marido e do abandono de um filho. O que essa idosa faz você pensar sobre a sua vida? Ele mexe com você em alguma coisa?
Ah… Não pode mexer não! Psicologicamente não mexe tanto quanto a outra que eu fiz; aquele era uma esotérica. Essa sou eu, uma esotérica que vê as coisas que vão acontecer, e eu olho para a pessoa e detalho a alma que a pessoa tem. Eu tenho coisas assim que eu vejo e falo coisas que vão assim acontecer não sei por que cargas d’água. E porque eu não trabalho esta espiritualidade minha? Aí, eu teria de ser escrava da vida, uma igreja… No candomblé é uma igreja, não é exatamente uma profissão, como se diria é você ser devota daquilo. Eu não quero ser presa a nada. Olha como eu sou! . Meu pai me contou uma coisa quando eu estava em Havana antes de eu começar a viajar. Ele não acreditava em espiritualidade. O cubano é muito de candomblé, a santeria que eles chamam.

Tem muita influencia africana lá?
Sim! Demais, demais; muita força! E meu pai não acredita, e depois de um belo dia, ele me contou a morte de um outro tio meu, irmão dele, que morreu tuberculoso, era nos anos 40, 50, tuberculoso naquela época já ia embora. Hoje em dia se cura, naquela época todos esses tipos de doenças eram fatais! E ele disse que tava com irmão dele e conversando e disse que o irmão dele pediu, Horácio, nome do meu pai, me levanta um pouco. Meu pai botou o travesseiro e ele praticamente sentado; meu pai era muito bom irmão e muito bom pai. Era completamente… Eu não posso julgar a minha mãe porque eu tenho um caráter meio parecido com o dela, mas acho que meu pai tinha uma alma muito limpa… Nós temos que ter tido alguma outra coisa em outra vida porque é um amor tão grande que às vezes, eu penso assim, agora com idade que tenho agora Yo incestar com meu pai e meu pai era incesto comigo porque era um amor que se tornava quase sexual.

E seu pai não se importava com nada? Ele te aceitava completamente?
A mim, completamente. Nunca me criticou quem me criticava era a minha mãe. Minha mãe não queria de jeito nenhum. Ela se cortava um braço para que eu fosse macho.

Você falou que hoje você se considera uma pessoa muito feliz.
Sou!

Você faz plano para o futuro, você pensa no futuro?
Não, pelo amor de Deus! Com a idade que eu tenho eu sempre penso que hora que vai ser que eu…

Vai morrer?
É a única coisa que me deixa meio encolhida, mas eu faço assim Epa! Não, não e não! Porque senão vou ficar muito down, muito… Vou mudar a minha fisionomia, não… O dia que chegar a minha hora e que eu veja os espíritos chegando e que eu saiba que estou indo embora… quando eu vou ao candomblé, já falei isto para alguns médiuns: quero ir embora tranquila! Aí o pai de santo falou assim: “Você? Você até vai saber a hora que você vai morrer…” Eu fiquei olhando assim e disse pai tomara que seja verdade porque tenho respeito. “Não tenhas medo porque você vai ter uma saída daqui, limpa.” Tomara, tomara porque eu vejo tantas pessoas sofrerem para irem embora.

E Phedra, como você vê a velhice das travestis?
Pois é! Triste…

Como?
Triste!

Triste?
Phedra6Muito triste…

Você acha que elas não se preparam, não pensam?
As que se preparam espiritualmente… É que a maioria pensa no seguinte, pensa em ir para Europa, ficar rica, a aparência… Ir para Europa, ficar rica, ter um carro, um apartamento e um bofe. Eu já não penso assim!

Você falou da morte… você não pensa sobre ela? … Ficar como essa senhora da peça que você interpreta, na cadeira de rodas e catatônica por causa do marido e do filho que a abandonou…
Bom…

Em relação ao seu final…
Péra, péra, péra! Eu vou te dizer como estou analisando a D. Soledad, o nome dela. Eu estou analisando a D. Soledad que é completamente diferente a mim. Eu nunca ficaria catatônica por causa de filho, de homem, de ninguém porque eu nunca deixei na minha vida, eu decair como ser humano, nunca! Eu nunca deixei ninguém botar um rótulo de viado… Quando ia dizer.. Repete o que você está falando! Ninguém! A pessoa não terminava a frase. Sempre! Então, eu me respeitava então me respeitam. Então, que mais eu posso querer? Então, o que eu mais posso querer se os grandes diretores do Brasil falam de mim, me cumprimentam, fazem assim pra mim e me beijam a mão? Isso para mim é normal, porque eu me acostumei, eu fiz o meu caminho, o meu caminho foi esse! E me fiz respeitar com toda minha vida e não estou dizendo idade agora. A minha vida inteira eu me fiz respeitar por homem, pelo cara que eu estava trepando…Olha bem! Você está me escolhendo você vai enfrentar tudo o que eu já enfrentei. O homem que teve caso comigo nunca foi cafetão, foram melhores do que eu. Tinham posses e trabalho. Eu era menos do que eles…

Eu queria saber se você tem alguma mensagem…
Me vem que nós temos que olhar para nós mesmos. Olhar para nós mesmos e se policiar. Qual o defeito que eu tenho? Qual a qualidade que eu tenho? E tratar de não fazer mal a ninguém. É o que eu posso dizer. A vida é muito bonita, vamos saber viver, ai que maravilha, não? … Veja bem eu saí de minha casa com dezesseis anos em 1954… até 2010!

Só de Brasil quantos anos?
Cinquenta e dois anos! Cheguei dezoito! Dezenove, vinte, vinte e um… Fiz vinte um aqui e continuei até hoje aqui. Olha que viajei pra caramba! Já fui para Europa duas vezes e me falaram: “Você ficaria aqui em Paris?” Ahhh Paris é maravilhoso, mas Brasil… Sabe o que é?

PhedraVideoclipe

Veja o videoclip do músico/compositot Luiz Pinheiro em homenagem a atriz Phedra de Córdoba: Acesse Aqui 

* Psicólogo e mesttre em Gerontologia pela PUC-SP. Este texto foi extraído da minha dissertação, defendida em 2010. E-mail: pedrosammarco@hotmail.com

Portal do Envelhecimento

Portal do Envelhecimento

Redação Portal do Envelhecimento

portal-do-envelhecimento escreveu 2695 postsVeja todos os posts de portal-do-envelhecimento