Pés de Lótus

Quais os cuidados básicos que devemos ter com os pés na velhice, como atuar na contenção e prevenção dos desvios, como dar-lhes maior conforto nesta fase da vida?

Bem-vindos ao Compasso da Vida!

Inauguro este blog contando uma história. Adoro recolher e contar histórias e é certo que tenho alma viajante desde a infância.


Dona Elza, minha mãe, gostava muito de ler. Lia romances, novelas, biografias, jornais e bulas de remédios, que guardava na gaveta da mesa de cabeceira junto dos próprios. Entre seus livros eu sentia especial prazer em ler os de autoria da escritora americana Pearl Buck que mudou para a China quando criança, levada pelos pais missionários, e lá viveu muitos anos.

Pearl Buck me conduzia para um mundo misterioso, distante e me fascinava contando sobre o país que ela amou e cujas cultura e tradições conhecia tão bem. Deveria estar por volta dos meus 13 anos e não tinha ideia do quanto conhecida era a autora, me bastando as suas histórias mais do que a sua biografia. Foi através de suas obras que tomei conhecimento sobre a tradição chinesa de quebrar os dedos dos pés das meninas e dobrá-los em direção a sola para depois mantê-los amarrados pelo resto da vida com a  intenção de ajustá-los ao tamanho de 7,6cm chamados lótus dourado que eram os mais cobiçados e 10cm chamados lótus de prata. Essa prática dava aos pés uma forma semelhante ao do botão da flor de lotus – daí o nome pés de lótus.  O processo era iniciado aos 6 anos de idade.

A modificação da forma do pé resultava em uma drástica diminuição no tamanho das passadas produzindo um tipo particular de marcha que dependia dos músculos da coxa e das nádegas para apoio, fazendo com que os quadris balançassem ao caminhar, provocando fantasia nos homens, que viam sensualidade no movimento. Os pés de lótus eram fator de status para as mulheres das classes mais abastadas e se constituíam em um diferencial para conquistar bons casamentos. As mulheres cujos pés excediam 10cm, os denominados lótus de ferro, eram mais propensas a ficar solteiras porque seus pés não eram considerados suficientemente adequados. Existem outras teorias a respeito, como a da lógica econômica – os pés eram amarrados como uma maneira de garantir que as mulheres permanecessem sentadas e trabalhassem em uma tarefa chata e sedentária por muitas horas, mesmo que essa não fosse a razão apresentada a elas!

Acredita-se que a tradição dos pés de lótus foi inspirada por uma dançarina da côrte do século X, chamada Yao Niang, que amarrou seus pés na forma de uma lua nova. Ela fascinou o Imperador Li Yu dançando na ponta dos pés sobre um pequeno palco em formato de lótus.

Encontrei novamente menção aos pés de lótus na autobiografia da escritora chinesa Jung Chang, no livro Cisnes Selvagens, ao contar que sua avó, Yu-Fang, tinha os chamados pés de lótus. O costume sobreviveu até meados do século XX quando se tornou ilegal.

Essa história nos conduz a diversos pensares e vou aproveitá-la para o foco deste blog – pés de idosos, sob o olhar da Podologia.

Quantas histórias trazem os pés: por quais caminhos pisaram, correram por pistas de atletismo, trabalharam com botas de segurança, encantaram nos palcos com sapatilha de ballet …

Nossos dois pés concentram ¼ dos ossos do corpo humano e são moldados por questões culturais, por vaidade, por desconhecimento, por problemas de saúde, posturais e outros mais.

Quais os cuidados básicos que devemos ter com os pés na velhice, como atuar na contenção e prevenção dos desvios, como dar-lhes maior conforto nesta fase da vida?

Falarei sobre estes temas de forma acessível, intercalando com algumas curiosidades sobre os pés e também compartilhando minha experiência na prática da Podologia Gerontogeriátrica.

Um abraço e boa caminhada para nós no Compasso da Vida!


Para saber mais sobre os pés de lótus:


Inscrições para o curso Síndromes Geriátricas do Espaço Longeviver: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/curso-sindromes-geriatricas/

Maria Eliza Henriques Silva

Maria Eliza Henriques Silva

Bacharel em Direito, pela Faculdade de Direito de Curitiba. Técnica em Podologia pelo SENAC. Bacharel em Podologia pela International University of the Health Sciences – School of Medicine de St. Christopher and Nevis, em associação com NASP - North American School of Podology. Certificada como Master Pedicure pelo NASP – North American School of Podology (USA). Certificada para atendimento de pés em risco (At Risk podology) pelo NASP – North American School of Podology (Canadá). Curso de educação continuada Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e atendimento, PUC SP . Voluntária de atendimento Podológico na ILPI Recanto das Vovós em Cotia, SP e na ILPI Pró Vida S. Sebastião em São Paulo, SP. E-mail: lilaeulila@gmail.com

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