Perguntas e respostas sobre o atendimento odontológico para idosos

Qual é a situação bucal dos idosos brasileiros?

Segundo pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP, cerca de 68 % dos idosos são desdentados no estado de São Paulo, um dos mais ricos do Brasil (daí pode-se imaginar como seria nos estados mais pobres…..) E mais da metade podem ter próteses e formam um enorme contingente entre os idosos, mas o bom é ver que uma parte cada vez maior destes idosos –

Fernando Luiz Brunetti  Montenegro *

os que puderam ter acesso a um tratamento odontológico preventivo básico, ao menos, estão chegando à 3a idade com diversos elementos dentários presentes, inclusive próximo da recomendação da Organização Mundial de Saúde, de terem pelo menos 20 dentes naturais remanescentes em sua cavidade bucal. Mas esta fatia de dentados “ideais” ainda precisa crescer muito para se tornar estatisticamente preponderante….

Mas manter os dentes naturais é tão importante assim?

Devemos procurar manter os dentes naturais o máximo possível, usando de todos os recursos da odontologia atual – que é bem mais conservadora que na metade do século passado – e só avulsionar/extrair um dente quando todas as opções de tratamento foram esgotadas. Há uma tendência na população mais desinformada de querer extrair os dentes hoje, visando a evitar problemas no futuro. Isto é a mais profunda INVERDADE, pois nada artificial é melhor que o seu similar NATURAL. O que existe é uma grande fala de informação de como cuidar da boca, da importância dos dentes no bem mastigar(e de ingerir bons nutrientes que serão a garantia de melhor saúde geral na 3a idade) e na sobrevida das pessoas(pesquisas de Sheiham (Inglaterra) e de Shimazaki (Japão) mostraram claramente que quem tem dentes naturais(ou próteses funcionando bem) vivem MAIS anos e em MELHOR condição física para enfrentar os problemas decorrentes do envelhecimento(estas pesquisas foram feitas com centenas de idosos nestes países,inclusive com exame de sangue,de dieta,de condições sociais de vida e muitos pacientes sendo seguidos por diversos anos).

Existem riscos de serem mantidos os dentes naturais? Quais critérios usa o profissional?

Não existem “riscos” de se manter os dentes naturais, desde que estejam saudáveis (sem abcessos (“canal”) ou problemas de gengivas (Periodontais). Não existe uma linha definida de quando um dente deve ser salvo e quando deva ser extraído. Os Dentistas são formados para buscar SALVAR os dentes até o máximo possível de seus recursos técnicos e não extraí-los por critérios de análise duvidosos. Apesar do aparecimento dos implantes, eles NÃO SÃO e JAMAIS SERÃO melhores que dentes naturais bem implantados e saudáveis. Além disto implantes são caros, nos dias atuais, e não podem servir nem 5 (cinco)% da população brasileira, tão depauperada por desemprego, globalização, reengenharia e planos econômicos diversos. Implantes, porém, podem ser uma ótima opção quando os dentes ou próteses presentes estejam tão críticos para suportar dentaduras(Próteses Totais) ou “Pontes móveis” (Próteses Removíveis), mas este julgamento só pode ser feito com a tomada de radiografias detalhadas e uma explicação bem consistente por parte do cirurgião dentista que está lhe atendendo.

Quais os problemas mais sérios que a perda dos dentes naturais traz para a arcada dentária?

Uma extração, quanto mais moço se é, causa desarmonias na mordida dos dentes (os vizinhos se “mexem”- inclinam, e também “descem” -se forem superiores) e toda a região tem problemas de “encaixe” entre os dentes superiores e inferiores (de mordida, de oclusão -como chamam os dentistas-) que vão acabar por causar maiores conseqüências em idades mais avançadas, exatamente no idoso, o foco desta matéria.Também, pelo fato dos dentes ficarem mais inclinados, isto dificultará sua limpeza adequada-teria de ser feita com muito mais detalhes (e ninguém explicou isto antes….) – que vai gerar cáries e problemas de gengiva (inicialmente) e periodontais (do osso de suporte dos dentes) que vão criar grande desconforto aos pacientes. Percebam que isto tudo só ocorreu por conta daquela única extração dentária feita “desatinadamente” no passado…

Vale a pena sofrer com tratamentos complexos e gastar uma fábula para conservar dentes problemáticos ?

Sim, é claro que vale a pena. Ter seus dentes naturais, além de tudo que já foi dito até agora, também mantém a auto-estima dos pacientes em alta, imaginando que um dos sinais da velhice- a perda dos dentes- não o atingiu ainda. Neste ponto, esta matéria pode ajudar a quebrar um errado dogma social que diz “perder dentes é sinal da velhice”. Isto NÃO é VERDADE. Nós, dentistas, não aprendemos isto como uma coisa científica. Os dentes e ossos de suporte dos dentes NÃO FICAM velhos (a ponto de se perderem fatalmente). O que existe é DESINFORMAÇÃO de como cuidá-los corretamente durante a vida e aí, ao chegar na 3a idade, a evolução deste processo durante décadas leva à perda dos dentes dos idosos. Os crânios de idosos pré-históricos tinham dentes e em muitos casos, MUITO MAIS elementos dentários remanescentes que os dos homens civilizados (e a maioria com bom osso de suporte). Isto pode ser verificado em qualquer Museu de Antropologia ou de História Natural.

Quando a gente fala em saúde bucal, hoje, todo mundo acredita na importância dos dentes, a começar pela Odontopediatria, que educa pais e filhos para que estes cresçam com sorriso saudável e bonito para sempre. Só que a dura realidade é que as pessoas mais idosas de hoje viveram uma época em que obturações eram feitas “a torto e a direito” e as extrações eram um recurso fácil. Ou seja, vivemos uma transição: crianças com sorriso do futuro e idosos com boca do passado…

Aqui precisa ser colocado o importantíssimo papel da PREVENÇÃO (desenvolvida na década de 50, nos países escandinavos) e o USO DE FLÚOR na água encanada somado à ajuda da Mídia em disseminar informações não só sobre Odontologia, bem como dieta e cuidados de saúde, nas últimas décadas do século passado no Brasil. Os idosos de hoje (os desdentados ou com bocas em péssimo estado de conservação) são o resultado destas gerações desinformadas que tivemos, mas nos países mais desenvolvidos, o índice de pacientes desdentados vem caindo sistematicamente a cada década, o quê levou ao fechamento de algumas Escolas tradicionais de Odontologia européias, por não haver mais a necessidade de tantos dentistas se formarem anualmente já que a população estava sob controle, mas esta é a realidade de um serviço odontológico governamental socializado, como ocorre em diversos países da Europa. No Brasil, onde não há este suporte efetivo do Estado, são necessários existirem programas preventivos constantes estatais, com suporte das indústrias e dentistas, mantidos por DIVERSOS governos, paras termos uma condição bucal melhor e aproximada dos países mais avançados. Os programas preventivos existentes são localizados e pouco abrangentes, ainda que existam inúmeros projetos curativos nacionais. É preciso que se saia da retórica política e se passe à REAIS ações práticas de ensino preventivo EFICIENTE e CONSTANTE para a maior parte da população. Escolas, Universidades, PSF, Postos de Saúde, Televisão, Rádio, Internet, Outdoors, Revistas, Jornais, TUDO deve ser usado e POR MUITOS ANOS e décadas para se conseguir resultados de uma melhora real no nível bucal com nossa população.

Os tratamentos radicais do passado acabam trazendo reflexos hoje,quando os pacientes estão idosos e mais precisariam de seus dentes na condição mais adequada possível?

No Brasil (e países em desenvolvimento/pobres) a opção para as pessoas de baixa renda -no julgamento deles e de seus “dentistas” -muitos eram práticos- foi sempre o imediatismo, o baixíssimo custo e a falta de visão no futuro. Por isto é que há 40/50 anos optaram (ou foram levados à…) extraíram todos seus dentes e puseram um belo par de próteses totais, pensando ter resolvido “para sempre” seus problemas odontológicos. Mas sabemos que isto não é verdade, nem foi a opção correta. Só foi a mais fácil, rápida e barata. E sabemos o que significa “fácil, rápido e barato” quando vamos comprar algo numa loja… E agora na 3a idade, quando os rebordos (osso de suporte) onde as próteses se apoiavam foram reabsorvidos, agora FINALMENTE (depois de 20/30 anos sem terem ido ao dentista -achando que tudo estava bem- mas QUALQUER prótese ou mesmo implante PRECISA de controles constantes por um dentista) nos procuram e pedem que resolvamos seu drama que não conseguem se alimentar, porque as próteses machucam….. Mas há 40/50 anos atrás tinham soluções melhores que só hoje conseguem mensurar o erro que fizeram naquela época da vida. Então, no passado, os tratamentos não radicais já existiam, apenas não os realizaram. A Odontologia não mudou tanto nestas décadas. Restaurações com amálgama (um excelente material para a terceira idade), existem desde o fim do século 19 e servem até hoje. Restaurações com materiais da cor do dente existem desde a década de 20 (chamava-se silicato, naquela época) e por volta de 1960 apareceram as resinas compostas, com maior diversidade de aplicação, e que perduram até hoje. Anestesia segura desde a década de 30. Próteses parciais desde o fim do século 19 (vulcanite, naquela época) e depois chamadas de Próteses removíveis na década de 40 (com Cromo-cobalto e Resina). Incrustações, coroas com ouro existem desde o início do século 20 e perduram com excelência até hoje. Hoje as coisas não são MENOS radicais que no passado: os dentistas práticos (e “muito práticos” também) e pacientes desinformados e sem condições (zona rural -país era eminentemente agrícola) de outras opções é que partiam para a “mutilação total da boca“. Mas já havia uma Odontologia de outras técnicas naquela ocasião. Não foi a Odontologia que mudou e sim a possibilidade da população ter acesso à ela. Em postos de saúde de São Paulo se fazem ensino de escovação, restaurações (“obturações”) há muitas décadas. Faculdades de Odontologia também tratam das pessoas há mais de 40/50 anos. Mas isto é muito pouco em nível nacional, por isto nossas estatísticas são tão ruins. Convênios odontológicos também buscam aproximar a população da Odontologia (com mais opções de tratamento). Cursos em Entidades Odontológicas também atendem a população a preços de custo ou gratuitamente.

Mas, então, não seriam os materiais que estragavam os dentes naturais, por serem de baixa qualidade?

Não são materiais usados no passado que ficaram obsoletos, como já foi comentado acima, se forem bem usados (pelos dentistas) e conservados (pelos pacientes), não fazem mal aos dentes. Os “novos” (se é que existem tantos assim…) materiais não são melhores que os antigos. Talvez mais bonitos (em certas situações clínicas), mas não fantasticamente melhores. O que danificou os dentes foi a falta de informação preventiva (dieta, flúor, escovação, fio dental) ao longo dos anos e não os materiais. O amalgama (aquele prateado) dura 20/30 anos na boca se bem feito (e conservado). Incrustações, coroas de ouro duram de 40 a 50 anos, se bem conservados. Próteses removíveis (se revistas a cada ano, podem durar décadas) e o mesmo se aplica às próteses totais. A falta de cuidados preventivos, a chamada PREVENÇÃO -explicada, entendida, corretamente realizada e periodicamente controlada pelos pacientes é que estraga os dentes e não os materiais. Um conceito errado é que os grampos (“ganchos, ferrinhos”) das próteses removíveis (“pontes móveis, Roachs”) causam cárie aos dentes: o material com que são feitos (uma liga de Cromo-Cobalto) é totalmente liso e não tem esta capacidade de causar cáries de forma alguma: é só quando a comida fica presa neles e o paciente NÃO a remove – a CADA refeição (tanto nos dentes naturais, como dentro dos grampos e bases) – é que servem com um “depósito de bactérias cuja excreção vai ser um ácido que desmineraliza o dente. Mas perceba bem que causa a cárie e o problema de gengiva/periodontal (com o tempo) são os restos alimentares e não os materiais dentários.

Ainda que seja um único dente natural em bom estado, vale a pena mantê-lo na boca?

No Consultório e nas Faculdades onde atuamos temos diversos casos clínicos de um, dois dentes remanescentes (com controles constantes de limpeza e manutenção) que seguraram próteses totais e removíveis por MUITOS anos. E mesmo com UM dente (até no aspecto psicológico – e como os idosos LUTAM para não perder mais nenhum dente!!! – pois é a velhice chegando …) temos próteses melhores do que uma prótese total. SALVAR SEMPRE. ESTE É O MOTE DA MINHA PROFISSÃO (para quem a leva realmente a sério).

É verdade que um único dente e seus problemas podem levar até a morte das pessoas?

Isto pode ser verdade, mas é muito raro, mas não impossível de ocorrer. Siga estes raciocínios: quando cortamos um dedo, células de defesa são levadas à este local para debelar a inflamação, combater a infecção e iniciar o processo de reparação do corte. O dente, per si, tem todos estes elementos de defesa, dentro dele, conforme a gravidade do ataque. Quando a cárie ataca em profundidade o dente, alcança a polpa (ou“nervo” -que fica no centro do dente) gerando uma contaminação, depois um processo infeccioso, que por fazer parte do corpo humano, acaba chamando outras células de defesa. Se a pessoa não procura um dentista para fazer o tratamento deste canal (onde a polpa estava dentro) esta infecção vai se disseminar pelo ápice (a “ponta da raiz”) do dente, criando o que se chama de abcesso (que pode ou não inchar o rosto). Continuando a não procurar um profissional, a infecção vai se disseminando pela corrente sanguínea e vai atacando outros órgãos do organismo. Febre e mal estar são presentes e antibióticos apenas não resolvem SUPERFICIAL E MOMENTANEAMENTE o caso. Só um Dentista, com seus procedimentos, é que pode dar início ao tratamento CORRETO! Na literatura existem casos relatados de morte por infecção disseminada, cuja origem, na necropsia, foi de um dente ou região da boca mal cuidada ou não tratada. Imagine isto num idoso que tem menos defesas naturais que um adulto ou jovem. Atualmente se estuda muito a relação entre problemas gengivais/periodontais com a diabete e problemas cardíacos. Afinal os dentes fazem parte do organismo todo da pessoa e se uma parte está afetada, todo o conjunto sofre danos. Dentes e gengivas saudáveis, cada dia mais se prova isto, ajudam complementarmente no controle do diabetes e diabetes não compensadas aumentam os problemas periodontais nos dentes. Isto sem contar a ajuda das bactérias bucais na progressão da pneumonia por aspiração – que muito afeta os idosos acamados – e a presença de bactérias bucais que se encontram nas artérias, quando fazem remoção de parte delas em cirurgias cardíacas. Mas tudo isto só ocorre se a boca não é cuidada adequada e constantemente por um profissional atento e aí o número de bactérias nocivas cresce muito e acaba se espalhando por nosso organismo. Mais um vez se volta ao raciocínio que os dentes são parte de nosso corpo e não um departamento separado e que tudo que ocorre nela tem reflexos no organismo todo. A Prevenção começa sempre pelo bem cuidar da boca. SEMPRE!

Existem profissionais voltados ao tratamento de pessoas mais idosas no Brasil?

Sim, começam a existir, mas somos poucos, para as reais necessidades NACIONAIS. A Odontogeriatria e seus benefícios só vão alcançar a maioria dos idosos se for ensinada nas Escolas de Odontologia OFICIALMENTE. Mas esta área não faz parte do currículo mínimo do MEC. Só 2 ou 3 Escolas a ensinam na Graduação. Para atender os quase 16,5 milhões de idosos de hoje, só dotando os dentistas clínico-gerais de conhecimentos básicos de Odontogeriatria é que poderemos bem atender esta faixa etária. Não mais de 30 pessoas praticam a Odontogeriatria com a SERIEDADE que ela exige no Brasil de hoje. É preciso estudar – E MUITO- as particularidades do tratamento do idoso. Estudamos temas pertinentes ao envelhecimento há 9/10 anos- todos os dias- e temos a consciência do “pouco que sabemos “, mesmo tendo publicado um livro sobre o tema, pioneiro entre autores nacionais em 2002.

Qual o perfil de um Odontogeriatra?

São cirurgiões dentistas e/ou professores universitários, com formação no Exterior ou no Brasil, mas o mais importante é que transcendam do puramente técnico-odontológico para um nível gerontológico, ou seja, buscar entender o processo do envelhecimento como um todo, em aspectos psicológicos, sociais, econômicos, da área de saúde e até educacionais. Este tipo de formação, por exemplo, um dentista só consegue freqüentando cursos de Gerontologia (que existem há muitos anos no Brasil) e/ou sendo parte de Equipes interdisciplinares de atendimento do idoso (em hospitais, casas de repouso, instituições públicas), pois entender o idoso é muito mais complexo do que aparenta.

Quais devem ser suas preocupações e cuidados?

Como dito acima, deve ter preocupação de sair de suas “4 paredes” e buscar se integrar com todos que dão suporte ao idoso como médicos, enfermeiras, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, etc…, para poder penetrar no todo de seu paciente e daí buscar soluções conjuntas visando ao bem estar do idoso. Cuidados com medicamentos e suas repercussões na cavidade bucal e com fatores particulares das doenças que possa apresentar (são mais de 150 possíveis patologias de saúde geral) e de como alterar seus procedimentos clínicos para poder atender sem percalços estes indivíduos.

Desde quando existe esta área no Brasil?

Oficialmente, desde 2001, no Brasil, quando a Odontogeriatria foi reconhecida como uma especialidade odontológica pelo Conselho Federal de Odontologia. Mas todos que sempre fomos afeitos à Prótese Dentária estamos já acostumados com esta faixa etária, pois é na qual incide o maior número de casos clínicos de próteses. E grande maioria dos pacientes com DENTES naturais presentes!

Qual sua missão com estes pacientes que você demonstra ter tanto apreço e respeito, quais seus objetivos?

As muitas missões seriam: disseminar a informação preventiva, de forma clara e objetiva e com os apetrechos necessários à esta faixa etária, para que possam recuperar sua saúde bucal, voltar a bem mastigar e daí ingerir os melhores nutrientes dos alimentos, que irão garantir uma vida com maior qualidade e longevidade. Mas também buscar a integração entre os profissionais da área de saúde, mostrando como, de fato, os dentistas podem ajudar numa parte do controle da diabete e da hipertensão, pneumonia e doenças cardiovasculares e no auxílio ao retorno de melhores condições físicas, por poderem se alimentar melhor, sem dores na boca (dentes e/ou próteses) e sem mudar sua dieta para as terríveis papinhas, que pouco alimentam e só ajudam a atrofiar seu Sistema Estomatognático (dentes, ossos e músculos da região da boca). E no aspecto social, pois ter dentes ajuda na fala e na integração comunitária, tornando possível conseguir empregos, para manter sua dignidade pessoal e social, afastando o fantasma da depressão, tão comum nesta faixa etária, infelizmente.

O que pode ser feito para melhorar a qualidade da saúde bucal e da mastigação na terceira idade? Falo em mastigação porque a musculatura já não é a mesma…

Não é a mesma, modo de dizer…Se ele tem bons dentes ou próteses com boa adaptação/ funcionamento, consegue manter sua musculatura facial em perfeito estado, sem aquela condição de boca murcha que tanto o depaupera funcional e pessoalmente. Na 3a idade ele tem que dar MAIOR atenção à saúde bucal, pois é maior a chance de problemas periodontais (“de gengivas”) e de cáries, especialmente porque os fármacos que ingere ajudam a diminuir seu fluxo salivar e aí estes 2 grandes problemas bucais florescem. Após cada refeição, retirar as próteses (se tiver), escovar bem os dentes remanescentes pelo lado de fora e de dentro. Com a mesma escova, ou uma adequada à este fim, limpar as faces internas e externas das próteses (sempre enchendo uma pia com água – para não quebrar ou empenarem se cair da mão) e também limpar os rebordos onde as próteses se apoiam. Evitar comer entre as refeições (ou se tiver que fazê-lo porque é diabético ou tem problemas estomacais) que repita os mesmos procedimentos acima. Nenhum alimento (fora um copo de água e frutas naturais) deve ser mantido na boca entre as refeições, pois vão se depositar nos dentes/próteses formando os cálculos (“tártaros, pedras”) que vão causar problemas de gengiva e de cárie, além de incrementar o mau hálito. Depois da escovação usar fio dental (com um suporte especial) e se os espaços entre os dentes permitirem, usar as escovas interdentais ,que são muito eficientes (se usadas corretamente) e podem ser encontradas nas grandes drogarias e supermercados). pois a limpeza entre os dentes é fundamental para previnir cáries e problemas gengivais nos dentes naturais. Todos os dias deve limpar sua língua (existem mais de 12 marcas diferentes de limpadores plásticos à venda no mercado) com limpador de língua plástico, pois estes permitem ir mais “atrás” (que as escovas de dente comuns) e assim evitar a formação da perigosa saburra sobre a língua, que além de ajudar o mau hálito, pode ser auxiliar na pneumonia aspirativa de pacientes acamados. Uma vez por semana, colocar sua prótese imersa num copo com pastilhas efervescentes, para fazer uma limpeza ainda mais eficiente de seus aparelhos, sejam parciais (“pontes móveis”) ou totais (“dentaduras”). E OLHO VIVO SEMPRE: Escovar os dentes NÃO é um hábito como tomar banho ou escovar o cabelo: EXIGE ATENÇÃO E DETALHAMENTO em TODAS as vezes que você ingere qualquer alimento.

A escovação é igual ou diferente para os idosos?

A escovação deve seguir os critérios acima descritos e muita atenção deve ser dada. muita atenção na limpeza ENTRE os dentes (peça orientação ao seu dentista) com fio dental e/ou usar as ESCOVAS INTERDENTAIS. Escovas elétricas podem ajudar àqueles com dificuldade motora (por “derrame”, artrite na mão/ombro, quedas, acidentes). Suportes de fio dental são encontrados nas casas de artigos dentários. Pastas dentárias com Flúor (deve estar escrito 1.500 ppm na caixa) e Bochechos fluoretados ajudam na manutenção de boas condições bucais. Escovas especiais para limpar próteses são encontradas nas dentais e são muito válidas para remover os restos mais escondidos dos alimentos, que depositados, à cada refeição um pouquinho, vão acabar formando os “tártaros”.

Vale alertar para os cuidados com próteses dentárias, não é?

Sim e como! É muito comum os pacientes colocarem novas próteses totais ou parciais ou implantes e não voltarem mais aos dentistas. Isto é MUITO errado, pois um profissional capacitado deve ver sua prótese todos os anos para ver como está sua adaptação à base (ao rebordo ósseo de suporte) e indicar ou não os necessários REEMBASAMENTOS. Fazendo estes reajustes, se consegue o melhor funcionamento das mesmas, evitando que causem dano aos dentes suportes (nas parciais) ou induzam à reabsorção do rebordo) onde as próteses se apóiam, e que também deixem de usá-las, mudando sua alimentação e prejudicando sua saúde geral por decorrência. Também estas visitas servem para ver as condições gerais da boca e o dentista ver se não existem sinais precoces de lesões na boca, muito freqüentes nesta faixa etária e que devem ser tratadas/diagnosticadas com rapidez. NENHUMA PRÓTESE É ETERNA. Todas precisam ser verificadas REGULARMENTE.

O acompanhamento médico é necessário sempre com os pacientes idosos?

Ele é necessário em alguns casos, mas não na maioria deles e também não no sentido do médico estar ao lado do dentista e do paciente (ou num hospital) mas sim de DIÁLOGO entre TODOS que cuidam do idoso. Tratar dos idosos SEM incrementar/instituir esta profíqua conversa é algo muito temerário. E muitas vezes, conversando com o médico, descobrimos que um paciente que diz ter sua diabete/hipertensão “sobre controle”, falando com o médico constata-se que não vai nele há mais de 2 ou 3 anos, o quê caracteriza um descontrole (e não um controle) destas importantes doenças que incidem nos idosos, em especial para a diabetes que atinge mais de 25 % dos idosos e da hipertensão que chega a 60% dos que possuem mais de 80 anos de idade.

Pessoas que têm problemas de hipertensão inclusive? E na anestesia?

Sim. Uma boca não corretamente limpa leva o paciente a não sentir o gosto dos alimentos e pode por mais sal (ou açúcar) que o necessário e interferir no controle da hipertensão (sal) e da diabetes (açúcar), por isto é que é MUITO importante limpar a língua até a região mais posterior possível (todos os dias),salvo para pacientes anêmicos ou com Síndrome de Sjogren, onde a reparação dos tecidos da língua é mais lenta e deve ser feita a higienização com intervalos de uma semana. Pessoas que tomam anti-coagulantes (por exemplo depois de um infarte e/ou derrame), exigem um diálogo entre médico e dentista para buscar um modo de intervir em condições que envolvam sangramento. A anestesia mais recomendada aos idosos é SEM VASOCONSTRICTOR, para não interferir nos comuns problemas cardíacos nesta faixa etária.Isto parece ser um consenso entre os autores internacionais e nacionais.

Muito se fala dos implantes hoje em dia,mas eles já existem há muito tempo?

Implantes já existem desde a década de 20 do século passado, porém com materiais e técnicas onde a habilidade cirúrgica era o grande diferencial, ou seja, só profissionais com enorme capacidade técnica é que conseguiam ser bem sucedidos e também os materiais ajudavam muito nos insucessos, pois pouco se integravam ao osso do paciente. Somente com pesquisas realizadas na Suécia e Suíça na década de 70, e padronizadas a partir de fins da década de 80 (no Brasil) é que se conseguiu chegar a implantes com materiais que se integravam ao osso do paciente, bem como a técnica era mais “fácil” de ser realizada por um número maior de cirurgiões dentistas e assim se difundiu por todo o mundo e também no Brasil.

Quais as indicações dos implantes?

Implantes são MAIS UMA opção que existe no tratamento das pessoas parcialmente dentadas ou totalmente edentadas (sinônimo de desdentadas). O implante, somado às próteses totais (“dentaduras”) próteses removíveis (“pontes móveis”), próteses fixas (“pontes fixas, coroas”) e às sobredentaduras (casos onde a raiz TRATADA de alguns dentes fica por baixo das totais para manter íntegro o osso na região) são os meios que temos hoje para recuperar a dentição de pessoas com perda um dente, vários dentes ou todos os dentes. No começo da década de 80 os implantes eram usados só para casos de perda de todos os dentes, mas hoje já são usados para repor apenas 1 dente perdido.

O que é um implante, afinal?

O implante consiste, basicamente, de um “parafuso e uma rosca“, ambos feitos de titânio puro -que é um material que comprovadamente se integra ao osso das pessoas. A “rosca”, por meio de uma cirurgia, é inserida dentro do osso e lá deixada, idealmente, por 6 meses, para que ocorra esta união, chamada de ósseointegração, que é o fundamento do sucesso dos implantes atuais. Daqui a 6 meses o tecido é aberto e se coloca um “parafuso”, também de titânio, que um irá unir esta base osseointegrada ao meio externo da boca, para que sobre ela se coloque os dentes ou próteses. Como se viu acima, são então 2 cirurgias (uma mais demorada (a primeira) e uma mais simples (a segunda, que faz a conexão da base com o meio da boca). O idoso, por problemas médicos como diabete e hipertensão DESCONTROLADAS, de coagulação sanguínea, de alterações sanguíneas (as discrasias sanguíneas), por problema mental (é preciso que o paciente colabore na mastigação e especialmente na LIMPEZA EFETIVA dos implantes para ser bem sucedida a técnica) e se tem início de Alzheimer ou Parkinson, ou depressão profunda, JAMAIS será um bom colaborador – ou por problemas de habilidade motora (a artrite, por exemplo -muito incidente nos idosos-, dificulta o uso correto dos dedos, que deveriam fazer esta limpeza MAIS DETALHADA AINDA que os implantes exigem frente aos dentes naturais da pessoa), tornam o uso de implantes um ponto bastante importante de ser analisado antes de indicá-los aos idosos. Atualmente se fala da inserção imediata das próteses sobre os implantes no mesmo dia colocados (sem ter de esperar 6 meses) mas esta técnica tem uma série de restrições para ser aplicada à maioria dos pacientes.

Tem idade limite? Ou depende exclusivamente da saúde geral do paciente?

É evidente que o implante permite uma eficiência mastigatória muito melhor que as próteses totais ou as sobredentaduras, mas além destes fatores médicos citados acima é preciso analisar a questão benefício-sacrifício: uma pessoa de 85 anos deverá ter pela frente na melhor das hipóteses uns 10 anos de vida, nas melhores condições de saúde possíveis. Nesta idade os problemas visuais se agravam (dificuldade para higienizar, ver os detalhes de uma boa limpeza) e o dentista deve ponderar se deve expor o paciente a todo este sacrifício por tão poucos anos de vida (o benefício). O custo também é muito alto, frente aos anos que desfrutará do implante (relação custo-benefício). Mas para pessoas de 60/65/70 anos, sem qualquer sinal das doenças citadas acima, com os exames necessários feitos, receber implantes pode ser uma opção de tratamento melhor que as próteses até então existentes. Mas SEMPRE levando em conta a máxima: OS DENTES NATURAIS SÃO MELHORES QUE QUALQUER ARTEFATO FEITO PELO HOMEM. PRESERVÁ-LOS INTEGROS E SADIOS É MUITO MELHOR QUE COLOCAR PRÓTESES NA BOCA.-mesmo que fossem implantes….

Que conselhos você daria ao profissional que quer se aprofundar nesta área?

A Odontogeriatria é uma área nova, imensa e plena de responsabilidades, mas de grande compensação profissional, especialmente no plano humano da relação profissional-paciente. O Dentista clínico geral deve começar a ler livros, artigos, ver sites científicos sobre o assunto, freqüentar Cursos de Iniciação/Atualização, e depois de Especialização na área, para buscar obter os conhecimentos que NÃO TEVE nos bancos escolares, porque a Disciplina pouco existe nas Escolas de Odontologia Brasileiras.

Você falou de Sites Científicos com Odontogeriatria? Pacientes podem acessá-los, bem como profissionais?

Sim, A Odontogeriatria, ao menos na Internet Brasileira, já tem muito a oferecer para os que a consultam. Recomendamos os seguintes Sites de download gratuito e integral:

www.odontologia.com.br em Odontogeriatria. www.geriatriahc.com.br em Odontogeriatria. www.portaldoenvelhecimento.net em Odontogeriatria e Gerontologia. Em Destaques e diversos pontos dos Sites.

Você falou de Cursos de Odontogeriatria: neles são dados atendimentos aos pacientes idosos? Como funcionam e aonde os idosos devem buscar este auxílio?

Os Cursos de Iniciação/Atualização são geralmente curtos (4 meses) por isto, normalmente, não têm atendimento clínico. Os de Especialização, que são de 18 meses de duração, permitem realizar diversos procedimentos e muitas próteses são neles realizadas. Não visam o lucro, apenas o ressarcimento do custo dos Laboratórios de Prótese e de materiais de consumo usados em cada caso específico. Têm triagem de pacientes constante. Seus endereços são:

1. ABO- SP (Santana,SP)
Tel (011) 6950 33 32 www.abosp.org.br

2. APCD-Regional de São José dos Campos
tel(012) 3931 38 33 www.apcd.com.br

3. Faculdade Mozarteum(Moema,SP)
tel(011) 5096 44 57 www.mozarteum.br

4. ABO- Campinas-

Tel: (019) 3254 26 03 abocamp@abocamp.com.br

5- ABENO(Campo Belo,SP)

Tel: (011) 5531 46 45 www.napodonto.com.br

6- APCD-Central (Santana,SP)

Tel: 6223 23 00 www.apcd.org.br

Finalizando, Dr. Fernando, qual a recomendação que quer deixar aos nossos leitores idosos com todos ou quase todos os dentes na boca?

Preservar. Cuidar sempre! Todas as vezes que se alimentar. Manter. Escovar corretamente, usar fio dental e/ou escovas interdentais todos os dias, fazer bochechos com fluor, visitar profissional regularmente e buscar ter colegas realmente envolvidos com o atendimento de idosos, é a minha mensagem final.

Como falar com o Sr, caso algum consulente deseje maiores esclarecimentos:

Meu consultório fica na Rua Tabapuã, 649 no Itaim Bibi, em São Paulo. Meus Telefones são (011) 3078 48 32 e 3168 60 60. Meu e-mail é : fbrunetti@terra.com.br. Obrigado pela chance de poder falar “um pouco” sobre minha área de Atuação.

*Mestre e Doutor pela FOUSP. Consultor em Odontogeriatria em Sites Científicos. Co-Autor do livro pioneiro: “Odontogeriatria-Noções de interesse clínico”, 2002. Coordenador Cursos de Especialização/Iniciação em Odontogeriatria. Membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia-SBGG.

[1] Entrevista concedida à Jornalista Isabela Soares, Jornal São Paulo News, 21/01/2006.

Observação: Os artigos postados nesta sessão são encaminhados pelo Dr. Fernando Luiz Brunetti Montenegro

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