Perdas e ganhos na velhice – Carnaval 2016

A velhice traz muitas perdas e limitações, manifestadas em nossos cabelos brancos, em nossas rugas, em nossa fragilidade, no uso da bengala ou da cadeira de rodas. Posso estar enganada, mas quando o jovem se depara com esses sinais e percebe que ainda assim somos capazes de rir e compartilhar alegrias, isso o surpreende e desperta o que há de melhor nele, um sentimento de solidariedade e afeto. O benefício é recíproco.

Celina Monteiro *

 

perdas-e-ganhos-na-velhice-carnaval-2016Segunda feira de Carnaval… Rua Augusta…

Minha filha, meu marido em sua cadeira de rodas e sua acompanhante e eu estávamos conversando na sala de nosso apartamento no sétimo andar do prédio, aproveitando a folga da segunda feira de carnaval.

De repente começamos a ouvir um ruído vindo de longe, mistura de vozes e música. Vozerio e música foram se aproximando, se avolumando, cada vez mais fortes, até se tornarem quase ensurdecedores. Não dava mais para conversar… É Carnaval! E o Carnaval de rua está de volta a São Paulo!

Fomos à janela. Uma multidão de gente, como um rio, descia a Rua Augusta e, no meio do rio, como um barco, flutuava um carro de som. A música e as vozes foram se tornando contagiantes, pessoas que apareceram nas janelas dos prédios em frente começaram a dançar. Nós também começamos a requebrar e cantar modinhas antigas de carnavais passados. ALA LA Ô Ô Ô Ô ô o…MAS QUE CALOR ÔÔÔ ÔÔÔ ÔÔÔ…

A atração exercida por aquele rio de gente diante de nosso prédio ameaçando transbordar para as margens (as fachadas dos prédios) se tornou irresistível. Descemos e, da margem, agora acompanhávamos de perto a alegria daquela gente, jovens na maioria, fantasiados ou não, mas todos compartilhando o entusiasmo pela festa.

As pessoas passavam rápido diante de nós, mas quando nos viam diminuíam a marcha, manifestando uma expressão de surpresa alegre, acenavam, atiravam beijos. Uma jovem passou sem que eu a visse, mas ela nos viu e voltou, parou diante de nós e abrindo os braços num grande abraço, gritou: FELIZ CARNAVAL! Desaparecendo logo em seguida no turbilhão.

perdas-e-ganhos-na-velhice-carnaval-2016Foi então que me perguntei: De onde vem toda essa empatia entre nós, velhos na casa dos 90, e esses jovens tão distantes pela idade, pelas condições de vida, que nada sabem de nós como não sabemos deles?

A velhice traz muitas perdas e limitações, manifestadas em nossos cabelos brancos, em nossas rugas, em nossa fragilidade, no uso da bengala ou da cadeira de rodas. Posso estar enganada, mas quando o jovem se depara com esses sinais e percebe que ainda assim somos capazes de rir e compartilhar alegrias, isso o surpreende e desperta o que há de melhor nele, um sentimento de solidariedade e afeto. O benefício é recíproco.

Sim, envelhecer não é fácil, perdas são inevitáveis, algumas muito dolorosas. Mas, se conseguirmos assimilá-las sem perder o sorriso e encantamento pelo que é belo na vida, a velhice traz também muitos ganhos!

O carro de som já estava longe, não se ouvia mais sua música… Mas a corrente humana ainda descia a rua parecendo não ter fim. Nós já havíamos voltado a nosso apartamento e o barulho daquelas múltiplas vozes continuava noite adentro, abafando qualquer outro som. Mas aquilo que normalmente traria irritação e mau humor, desta vez soava alegre e confortador.

Nota

O bloco que desfilou pela Augusta, um dos mais concorridos da cidade de São Paulo, foi o Desmanche, Funk e Axé dos anos 90…

* Celina Maria Bacellar Monteiro (89a) é professora aposentada de história, atualmente interessada em refletir sobre o envelhecimento. E-mail: celinabacellarmonteiro@gmail.com

Portal do Envelhecimento

Portal do Envelhecimento

Redação Portal do Envelhecimento

portal-do-envelhecimento escreveu 2331 postsVeja todos os posts de portal-do-envelhecimento