Pensamentos de um idoso em risco em tempos de COVID-19

Tempo de Leitura: 6 minutos

O mundo se transformou em um grande hospital e sem saber como se salvar transformam os idosos em pessoas a serem evitadas, gritando com eles na rua, como se fossem o vírus. Somos os mensageiros da nossa finitude. Do risco que todos corremos.


Foi este o título do depoimento que me foi enviado no início de abril de 2020. Ele veio em resposta a um convite que fiz a meus amigos de 60+ anos para responder algumas perguntas sobre o momento atual, de isolamento físico, colaborando na divulgação das reflexões sobre um tempo nunca vivido! Gostaria de poder manifestar, neste  espaço do Portal do Envelhecimento que desde 2004 tem como objetivo construir uma rede de solidariedade e divulgação criteriosa e ética sobre os temas que envolvem o processo de viver e longeviver humano – os relatos informais ou as respostas que recebi às perguntas que formulei.

Busco igualmente desvelar os ‘depoimentos de primeira mão’ – a voz dos idosos! Normalmente se fala sobre o envelhecimento, mas poucos escutam o que nós pensamos e sentimos sobre as muitas e diferentes situações que enfrentamos, em especial sobre este ‘confinamento’, e em relação ao nosso futuro.

Para quem não me conhece – tenho 71 anos, sou pedagoga e antropóloga e atuo como docente e pesquisadora pelo Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE/PUC-SP) desde 1994. A partir de 2004 integro o grupo de colaboradores do Portal do Envelhecimento e, a partir de 2010, assumi a coeditoria da sua Revista, chamada Revista Longeviver.

Esta ‘pesquisa’ não segue uma metodologia convencional, pois como a maioria deste grupo etário está na ‘quarentena’, como eu, e na impossibilidade de pesquisa presencial, ousei convidar meus amigos para um diálogo virtual – partilhando reflexões entre nós. A partir desta reflexão, inicio o compartilhamento com nossos leitores.

Espero que no conjunto de depoimentos, colhidos informalmente, possamos encontrar novas possibilidades de reflexão e, como companheiros de jornada, respaldo para seguirmos juntos e unidos no enfrentamento deste desafio – ficarmos vivos e bem!!!

As reflexões de Odette Godoy, psicóloga e docente aposentada, foram guiadas pelas perguntas, mas não obedecem, necessariamente, toda a sequência proposta, pois deixamos a liberdade de responder a todas, só o que interessasse ou não responder. Agora, damos a palavra à Odette.

Sobre os riscos

Tenho pensado no risco. Quem está correndo risco? Desculpe o realismo, mas, conforme o ditado, para morrer basta estar vivo, logo desde que nasci corro o risco de morrer. Com certeza depois dos 80 o risco é maior, pois não somos eternos. Quanto mais progride a medicina e a ciência mais sobrevivemos e por isso a população em risco aumenta.

Alguém me disse que as epidemias procuram um equilíbrio natural aniquilando os mais fracos preservando a espécie. Quem deve ser salvo? Penso seriamente quem sou e qual o meu valor. Será maior do que os milhares de brasileiros que vão adoecer e não podem se isolar e nem lavar as mãos por não ter água, nem sabão e que se não tinham trabalho agora muito menos. Se não morrerem da doença vão morrer de fome. Voltando a pergunta qual o meu valor?

A resposta não é fácil em se tratando de gente. Em situações limites pessoas resolvem se vão morrer no lugar de outros, uma decisão que tomam movidos por suas paixões, seus afetos, suas ideias. Ninguém deveria determinar isso embora a história esteja cheia de acontecimentos que mostram como um povo inteiro se convenceu que era melhor assassinar milhares de pessoas para garantir a vida de uns poucos. Sou muito velha, estou em risco, mas tenho tempo suficiente para pensar sozinha ou com outros, rever minha vida e afirmar que estamos todos em risco.

Vamos nos isolar, mas não demais…

Sobre os cuidados

Recebo recados carinhosos de amigos: CUIDE-SE.  Respondo para vocês que cuidar de mim mesma é uma tarefa árdua, pois tenho que perceber com clareza o que quero fazer, o que preciso fazer, o que consigo fazer, o que me agrada fazer….

Acho que há dias que não dá para saber. Sinto falta das intermináveis listas de obrigações que já estavam menores e agora desapareceram. Ontem na falta de uma lista, e sem ter nenhuma clareza sobre qual o risco que corro, sobre os cuidados que mereço, estourei pipocas e me senti ótima. Meus filhos cuidadores e meus netos adoraram essa atividade que seria bem melhor se estivéssemos todos juntos, perto de uma fogueira na casa de Boissucanga. Ainda bem que nossa memória traz de volta momentos de puro prazer.

Contato com a natureza

A minha varanda é o meu quintal. Tenho acompanhado os poucos movimentos do entorno e as pequenas mudanças nas árvores que sobraram após o desmatamento urbano. E comecei a sentir falta dos sanhaços, que vinham comer o mamão que eu deixava no comedouro. Consultei a internet (Santa Internet) e descobri que esse pássaro migra no inverno e vai para muito longe. E então concluí que todo ano isso deve acontecer e eu nem me dei conta, pois estava fechada em um cotidiano cheio de obrigações nem sempre urgentes. Em um documentário no canal Curta, um dos entrevistados falava sobre empatias. Mencionava a bioempatia que era essa disponibilidade para sentir a natureza. Gostei! Confinada, em risco, ficar na varanda é um prazer… Recreio…

A percepção do tempo

Percebi, há pouco, que não sabia mais em que dia da semana estava. Nas tarefas de casa – limpar, sujar, lavar, sujar – não há diferença. Tenho que inventar um calendário para esses dias de confinamento, isolamento, afastamento, ou algum outro nome que inventarem.

Acabei de ler um artigo ótimo que fazia uma análise histórica de como os homens descobriram os micróbios e como a humanidade foi reagindo a isso, como agora nos ensinam a lavar as mãos do mesmo jeito que um cirurgião.

O mundo se transformou em um grande hospital e sem saber como se salvar transformam os idosos em pessoas a serem evitadas, gritando com eles na rua, como se fossem o vírus. Somos os mensageiros da nossa finitude. Do risco que todos corremos.

Minhas reflexões….

O depoimento de Odette fez pensar neste mesmo sentimento de certo ‘desconcerto’, que observo em mim e outros da mesma faixa etária, além da questão do tempo – tanto do cotidiano, como de um fim, a nós desconhecido, que a todos amedronta. Ela destaca que “Somos os mensageiros da nossa finitude” – nós os velhos. Causamos medo e repulsa porque somos a face que ninguém quer ver?

O termo ‘bioempatia’, utilizado por ela, ainda não é muito conhecido, também trouxe reflexões importantes, mais esperançosas, pois traduz um significado/sentimento conhecido por muitos, mas pouco considerado.

O primeiro termo empatia se origina do grego “empatheia” formado pelo prefixo en, mais pathos, “emoção, sentimento”. Com significado de ‘colocar-se no lugar do outro’ ou o ‘reconhecimento do outro e suas circunstâncias’, imaginar-se sentido as mesmas dores, medos, peso da exclusão, entre outros sentimentos.

Nos momentos difíceis precisamos desta empatia, mas constatamos que na atualidade muito se fala em solidariedade, mas não vemos empatia em relação aos mais velhos, hoje o ‘grupo de risco’. Poderíamos pensar, neste sentido, que o isolamento social atual reforça um sentimento que já existia – a exclusão dos velhos – sentida agora por todos?

Quanto ao prefixo bio – também derivado do grego – se traduz por vida ou tudo o que se relaciona aos seres vivos, incluindo a natureza. Considerando esta perspectiva – o exercício de olhar o mundo a partir da visão e conexão com a natureza – podemos estabelecer empatia com a natureza – no sentido da beleza e fruição. O que nos leva a refletir que toda a vida existente no Universo poderia ser objeto de uma reverência pela sua beleza e significados, em cada uma de suas manifestações – proposta de uma ética para a vida?

É isto que Odette parece nos propor por meio de seu lindo comentário sobre as observações que faz da sua varanda/quintal e o prazer que daí extrai. Confinada ela está só de corpo, seu pensamento voa…E nos convida…

Convite ao diálogo
Se você quiser participar deste ‘diálogo’ virtual escreva para meu-e-mail que envio o questionário para participar. Se quiser pode também comentar esta e outras reflexões a serem publicadas. Venha participar desta roda de conversas virtuais. Juntos!!!


Adquira a coleção de ebooks de nossa editora aqui.

Vera Brandão

Vera Brandão

Pedagoga (USP); Mestre e Doutora em Ciências Sociais (PUCSP); com Pós.doc em Gerontologia Social pela PUCSP. Docente. Pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE-PUC/SP). Editora da Revista Longeviver (https://revistalongeviver.com.br) e Coordenadora Pedagógica do Espaço Longeviver. E-mail: veratordinobrandao@hotmail.com

verabrandao escreveu 26 postsVeja todos os posts de verabrandao