Paulo José: “Lula é uma mistura de Macunaíma e Policarpo Quaresma”

O ator Paulo José, que ganha mostra retrospectiva dos seus 40 anos de carreira no cinema Divulgação
Hoje com 68 anos, ele foi o ator-chave das obras fundamentais do Cinema Novo de Joaquim Pedro de Andrade (“O Padre e a Moça”, “Macunaíma”), das misturas de história de amor e comédia inteligente de Domingos de Oliveira (“Todas as Mulheres do Mundo”, “Edu, Coração de Ouro”, “A Culpa”), e de um drama intimista de Walter Hugo Khouri (“As Amorosas”), conhecido como o Antonioni brasileiro e considerado um “inimigo estético” pelos cinema-novistas.

Thiago Stivaletti

 

Em entrevista pouco antes da abertura da mostra em sua homenagem no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, o ator se mostra disposto, apesar dos leves tremores na mão direita, sintomas do mal de Parkinson.

Paulo José fala dos personagens como se fossem pessoas independentes, que não tivessem nada a ver com ele. Discorre até sobre a atual crise política e compara Lula a Macunaíma e Policarpo Quaresma, os dois personagens definidores da identidade brasileira que interpretou no cinema.

E não pára de trabalhar: atualmente, dirige o Grupo Galpão na peça “O Homem é o Homem”, de Bertolt Brecht, em Belo Horizonte, e volta aos palcos em 2006 com “A Ceia dos Cardeais”, ao lado de Domingos de Oliveira e Aderbal Freire-Filho. Na TV, fará uma pequena participação como o avô de Juscelino Kubitschek na infância na minissérie “JK”, de Maria Adelaide Amaral, que estréia em janeiro.

Você estreou no cinema com “O Padre e a Moça”, de Joaquim Pedro de Andrade, em 1965. Qual era sua noção do cinema na época?

Paulo José – Eu era cinéfilo em Porto Alegre, e na infância em Bagé minha casa dava para os fundos de um cinema. Eu e meus irmãos conseguíamos ver a imagem na tela, com legenda ao contrário. Pulávamos o muro do cinema e pegávamos fotogramas que ficavam caídos no chão. Com o Joaquim Pedro, que trabalhava muito com as idéias do diretor francês Robert Bresson, aprendi que o ator é um significante na tela, e não um significado. Quem deve achar significações é o público. É o que eu chamo de transparência: o espectador tem que ver além do ator. Um rosto sem nenhum franzido, como se fosse uma folha aberta pronta a ser desenhada pelo espectador. Mas para isso o ator depende de uma fotogenia cinematográfica, que não tem a ver com beleza física, mas com empatia. O Rubem Biáfora, um crítico aqui de São Paulo, dizia que eu parecia o jovem Henry Fonda em “Vinhas da Ira”.

O ator como a faceta branca do herói de “Macunaíma” (1969)

Em análise sobre sua obra na Folha de São Paulo, o crítico Inácio Araujo afirma que os espectadores vão ao cinema para ver Paulo José, e não seus personagens. Você concorda?

Paulo José – Eu procuro me anular o máximo possível, não tenho características próprias de interpretação. E também nunca fiz questão de fazer tipo. Quando eu fiz “Edu, Coração de Ouro” (67), tinha a impressão de participar de uma versão requentada de “Todas as Mulheres do Mundo” (66). Mas revendo o filme hoje, vejo que o Edu é mais interessante, denso e contraditório. A fotografia dos dois é muito parecida, em ambos eu contraceno com a Leila Diniz, tenho o mesmo visual. Mas o Edu é um angustiado, um simulador da alegria, um triste alegre. E também é um bailarino, tem uma agilidade que eu mesmo não tinha na época! (risos)

Depois de fazer Macunaíma e Policarpo Quaresma, existe algum personagem da literatura nacional que você gostaria de interpretar para discutir a identidade nacional?

Paulo José – Eu penso no Serafim Ponte Grande, do Oswald de Andrade, mas ele não tem essa pretensão. O Macunaíma tem aquela coisa do brasileiro à procura do seu próprio caráter. O Policarpo Quaresma é de uma inflexibilidade que não serve para nada, não se adapta. É bom comparar com o Lula, que tem um lado Macunaíma – o tempo todo achando que vai se dar bem, que é mais esperto que os americanos, mas no fundo é o contrário, faz a capitulação total. A gente não sabia que o PT, para ganhar as eleições, tinha vendido a alma ao diabo. Do Policarpo, ele têm essa inflexibilidade que dá com os burros n’água, como o Jânio Quadros. Tem essa moralidade do partido que brada que não rouba nem deixa roubar. São dois extremos.
Em o “Padre e a Moça” (1965), sua estréia no cinema Divulgação

Você gosta dos grandes filmes comerciais brasileiros, como “Cidade de Deus” e “Dois Filhos de Francisco”?

Paulo José – Não vi “Cidade de Deus”. O “Dois Filhos” eu também não vi, mas sei que vou gostar, porque é muito popular, tocante, piegas. Eu gosto quando o público gosta do filme. Fui ver “O Quatrilho” em um cinema de Caxias do Sul e estava achando muito ruim. Conheço o livro do qual ele foi adaptado, fala do sofrimento dos imigrantes que começavam uma vida no Sul contra uma natureza hostil. E o filme é o oposto disso, todo bonitinho, com rendas e tal. Mas quando acabou o filme a platéia aplaudiu. E eu mudei de opinião na hora, comecei a achar o filme muito bom! (risos)
O ministro Gilberto Gil falou na necessidade de um “choque de mercado” ao pedir que os cineastas tenham mais preocupação com o possível lucro de seus filmes. O que você acha disso? 

Paulo José – O Gil fala como uma pessoa de fora da área. Todo cineasta se preocupa com público, todo mundo faz filmes para que os outros assistam. É preciso encarar o problema na raiz: melhorar o mercado significa aumentar a exibição de filmes. Não conseguimos melhorar a qualidade dos filmes se não aumenta a quantidade de salas que podem exibi-los. A indústria cinematográfica não pode morrer, porque é das sobras dessa indústria que o cinema autoral se aproveita para sobreviver. Nos anos 70, um pouco antes do surgimento do vídeo, o regime militar surgiu com aquela idéia de fazer filme industrial médio, em geral uma comédia urbana, para “agradar o público”. E qual é a receita para isso? Um filme nem bom nem ruim, nem artístico nem comercial, nem muito sério nem muito engraçado. Com um pouco de romance, um pouco de aventura, muito sexo, violência. Os cineastas são criticados porque não fazem mais hoje filmes assim, que “atendem o mercado”. Mas o que é o mercado? É uma entidade abstrata! Se fosse alguém concreto, seria só perguntar “o que você quer que eu faça?” e ele responderia.
Você atuou em 70 filmes, entre curtas e longas, mas nunca dirigiu um. Se o fizesse, de qual diretor o seu filme estaria mais próximo?

Paulo José – Eu me interessaria por um projeto mais intimista, pessoal, na linha dos filmes do Joaquim Pedro de Andrade (“O Padre e a Moça”, “Guerra Conjugal”). Com o Domingos de Oliveira eu me divirto muito como ator. Além da peça “A Ceia dos Cardeais” em 2006, já temos dois projetos de filme: um policial, “O Brilho da Gota de Sangue”, e uma espécie de autobiografia do Domingos, “A Primeira Valsa”, no qual eu serei o sogro dele.

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Fonte: Acesse Aqui 20/09/2005.

Paulo José expande repertório do cinema nacional

Inácio Araujo, crítico da folha

Nem sempre o jeito é sério. Em “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade, Paulo José é a face branca do herói sem nenhum caráter. Em “O Homem Nu”, de Roberto Santos, ele faz o pândego sujeito que fica preso nu fora de casa e inicia um longo caminho na tentativa de voltar para o seu lar. Em “Cassi Jones”, de Luís Sérgio Person, ele é o sedutor irresistível a que todas as mulheres acorrem.

Paulo José também pode ser dramático como o jornalista que, numa Brasília recém-construída, toma posse de alguns segredos comprometedores para os poderosos, o que acontece em “A Vida Provisória”, de Maurício Gomes Leite. Pode ser romântico como o “Benjamin” de Monique Gardenberg, herói de “Todas as Mulheres do Mundo”, de Domingos de Oliveira. Ou sorumbático como o estudante de “As Amorosas”, de Walter Hugo Khouri. A enumeração parece não ter fim, e poderia prosseguir, bastando para isso seguir a programação da mostra “Paulo José – 40 Anos de Cinema”, que começa amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo.

Prazer

Paulo José domina tantos registros na arte de interpretar que apenas sua presença em um filme já dá a impressão de expandir o repertório de nosso cinema. Mas talvez não seja essa sua principal característica, e sim o prazer que transmite ao espectador cada vez que entra em cena.
Seja atuando com um novato ou com um medalhão, sempre dá a impressão de ser menor do que o papel, de se aproximar de seu personagem com humildade, para, aos poucos, moldá-lo, submetê-lo, reduzi-lo a si mesmo.

Porque não vamos ao cinema para ver o personagem que Paulo José interpreta, e sim para ver Paulo José, como antigamente as pessoas iam ver Gary Cooper ou Barbara Stanwick.
Talvez no passado isso não fosse tão evidente. Ninguém foi ver “O Padre e a Moça”, de Joaquim Pedro de Andrade, para ver o padre angustiado, entre a lei do celibato e a beleza de Helena Ignez (aliás, quase ninguém foi ver “O Padre e a Moça”, o que é uma pena). Ninguém foi ver “Todas as Mulheres do Mundo” por sua causa. O filme era de Leila Diniz.

Mas, aos poucos, bem discretamente, ele se tornou uma referência segura de qualidade e uma garantia de diversão. Era como Marcello Mastroianni na Itália ou Alain Delon na França. A tal ponto que hoje não será absurdo falar em uma obra de ator que, nesses 40 anos, nunca perdeu entusiasmo ou vigor.

Desaparecidos

Na bela mostra organizada pelo CCBB, é preciso chamar a atenção para alguns filmes há muito desaparecidos, como “A Vida Provisória”, que abre esta retrospectiva, ou “O Padre e a Moça”, o primeiro e talvez o melhor Joaquim Pedro. Há os que não chegaram a ser devidamente conhecidos, como “Os Marginais”, de Carlos A. Prates e Moisés Kendler, ou ainda esses filmes em que retorna ao Rio Grande do Sul, como “Gaudêncio, Centauro dos Pampas”, de Fernando Amaral, ou “O Mentiroso”, de Werner Schunemann.

Mesmo nos trabalhos mais recentes, o ator demonstra disposição para transitar por registros variados, indo do histrionismo (excessivo, na verdade) de “Policarpo Quaresma, Herói do Brasil”, de Paulo Thiago, ao intimismo de “Benjamin”. Por fim, é ele também o autor de uma frase que resume sua inteligência e ficou célebre a ponto de ser estampada em camisetas: “O Brasil faz o melhor cinema brasileiro do mundo”. Primor de ambigüidade.
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Fonte: Acesse Aqui 19/09/2005.

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