A partida de Rubem Alves

Como ele tem amigas, amigos, conhecidas e conhecidos, leitoras e leitores por toda a parte e com as mais diversas visões da vida e da morte, acredito que o que acaba de acontecer com ele deverá ser dito e repetido das mais diversas maneiras.

Carlos Brandão *

 

a-partida-de-rubem-alves“Rubem Alves morreu”. “Rubem partiu”. “Ele fez a sua passagem”. “Ele nos deixou”. “Ele viajou”. “Foi chamado à presença de Deus”. “Voltou à casa do Senhor”. “Ele desencarnou”. “Rubem libertou-se da matéria”. “Ele se acabou”. “Finou-se”. “Ele foi para uma dimensão de luz e paz”… e assim por diante.

Mas se ele mesmo pudesse anunciar o que lhe aconteceu, tenho certeza de que recordaria uma fala de um homem que ele leu e amou – João Guimarães Rosa – e nos diria: “minha gente, eu me encantei!”.
Lembro que a frase de Guimarães Rosa, pouco antes de sua morte é: “as pessoas não morrem, ficam encantadas”.

Rubem Alves não está mais aqui. Ou está?

Eu quero lembrar agora de algo que se passou entre nós dois faz alguns anos.
Um dia estávamos só nos dois, creio que em algum canto de Pocinhos do Rio Verde. Estávamos sentados em um banco rústico de madeira e tínhamos um chão de terra sob nossos pés.

De repente, no meio de uma fala solta e mineira, lembro-me de haver perguntado de uma vez a ele:
“Rubem, eu não quero se você crê ainda ou não em Deus. Quero saber de uma coisa, e quero uma resposta sem rodeios. Rubem, pra onde é que você vai quando morrer?”.

Ele me olhou e fez daqueles silêncios tão dele, quando o que ia dizer em seguida era algo grave, solene ou muito importante. E ele desenhou no ar com a mão uma curva e apontou com o dedo indicador para a terra aos nossos pés. E respondeu:

“Eu vou para o mesmo lugar de onde eu vim a milhões de anos!”.
E nós dois calamos por um longo momento. E quando retomamos a conversa ele me explicou que “aquele lugar” não era bem o chão material da terra. Era o Todo de Tudo. Era o Universo e tudo o mais. Era o lugar da origem de todas as origens. E eu me lembro de haver dito: “eu acho que eu também vou pra lá”. E não falamos nem da glória eterna de um deus e nem de um interminável coral de anjos vestidos de branco cantando por toda a eternidade.

Depois, numa carta que ele escreveu a Raquel, Sérgio e Marcos, por volta de 2005, encontrei uma passagem que tem muito a ver com a nossa conversa em Caldas. E que Raquel me autorizou tornar conhecida:
Não tenho medo da morte, embora tenha medo de morrer. O morrer pode ser doloroso e humilhante. Mas, a morte? Voltarei para o lugar onde estive sempre, antes de nascer; antes do big-bang. Durante esses bilhões de anos não sofri e não fiquei aflito para que o tempo passasse. Voltarei para até nascer de novo.
E esta confidência inesperada (ou esperada) do Rubem me fez lembrar uma passagem dele no O Velho que acordou Menino. Ele escreveu isto:

Vi uma pedra no chão, pedra comum sem nada de especial, e pensei que ela estava lá há milhões de anos, contemplando o vale. Peguei os milhões de anos nas mãos e o vale que ela tinha dentro.

A carta tem dez páginas. Mas imaginem que quase nove delas são transcrições de poemas que ele amou e que deseja que sejam lidos (pelo menos em parte, pois alguns são enormes), no ritual de suas cinzas. Transcrevo de sua carta algumas poucas passagens que merecem ser conhecidas de todos. Ele faz nela algumas recomendações sobre como se deverá proceder após sua morte. E depois listar a série de poetas e poemas que ele gostaria que fossem lidos por pessoas amigas enquanto suas cinzas fossem depositadas na terra de um “Ipê Amarelo”, ele escreve:

A vida humana, diferente da vida dos bichos e das plantas, que se mede por sinais biológicos e elétricos, se mede pela possibilidade de alegria que ela contém. Quando essa possibilidade não mais existe, têm os homens o direito de exigir que a sua vida biológica não seja mantida por meios heroicos, porque cada homem é senhor de sua vida. Há uma hora em que o corpo e a alma desejam partir. Não se deve impedi-los na sua decisão, por meio da força. Fazer isso seria uma crueldade que não se pode admitir. (de uma crônica de 24 de outubro de 1995, reescrita, nesta breve passagem, na carta aos filhos).

Sou grato pela minha vida. Não terei últimas palavras a dizer. As que tinha para dizer, disse durante a minha vida. Recebi muito. Fui muito amado. Tive muitos amigos. Plantei árvores, fiz jardins, construí fontes, escrevi livros, tive filhos, viajei, experimentei a beleza, lutei pelos meus sonhos: o que mais pode um homem desejar.
Felicidade é coisa rara. Como diz o Guimarães Rosa, ela só acontece em raros momentos de distração. Mas, por esses curtos momentos, tudo o mais vale a pena. A consciência da morte – que sempre me acompanhou desde que eu era menino – nos diz que a absoluta maioria das coisas que nos agitam e perturbam não passam de uma besteira. Dentro de pouquíssimo tempo delas não haverá mais memória. Por isso é preciso encará-las com um senso de humor.

Quando Rubem Alves for cremado, vamos atender ao pedido que ele fez a Raquel e aos dois filhos.
Suas cinzas serão espalhadas na terra, ao redor do um pé de Ipê Amarelo, a árvore que ele mais amou (junto com os pés de Caqui). No entanto, acredito que não será naquelas cinzas que o que nos restou do Rubem estará. Penso que um homem como ele não se acaba em cinzas. E creio mesmo que bem mais do que nas cinzas, Rubem estaria na luz do fogo que transformou o seu corpo nelas.

E de algum modo ele mesmo antecipou esta imagem. Pois na carta aos filhos, ao dizer que queria ser cremado, as palavras que mais uma vez vieram a ele foram as da poesia.

Neruda disse que os poetas, entre outras coisas, têm a propriedade de serem feitos de fogo e de cinza. Nada melhor que o fogo para simbolizar essa vocação do poeta. Minhas cinzas, quero que sejam colocadas ao pé de um ipê amarelo.

E ele se despede assim.

Tenho um profundo amor pela mãe de vocês. Por causa dela vocês existem. Tivemos muitos momentos felizes. Ela foi uma companheira muito fiel nas horas de aflição.
A vida está cheia de possibilidades de beleza. É preciso bebê-las até o fim sem nelas misturar o nosso fel. Esforcem-se por serem felizes.
Fica a minha alegria por ter tido vocês.

PAI.

* Carlos Brandão é professor livre-docente pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e grande amigo de Rubem Alves. Desde 1963 trabalha como educador popular. É autor de vários livros nas áreas de antropologia social, educação, questões ambientais e literatura. Carta escrita em Campinas, 20 de julho de 2014, e enviada aos amigos.

FOTO: Normandes Matos da Silva. Disponível Aqui

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