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Santos, na pracinha em estilo anos 50 feita para estimular a memória dos freqüentadores: “Estou aqui passando por manutenção”.

Edison Veiga *

 

Tarde de quinta-feira. Em uma pracinha com decoração anos 50, um grupo lentamente joga vôlei. Ou quase, já que todos ficam sentados e a bola não passa de uma bexiga. O mais animado deles é o publicitário aposentado Jorge Silva dos Santos, de 80 anos. Ele se gaba de sua performance, ri quando um dos colegas não consegue rebater a bexiga e reclama na hora que a terapeuta decreta o fim da atividade. Após sofrer hidrocefalia, um distúrbio neurológico, Santos ficou com seqüelas motoras e problemas de memória. “Sinto falta de poder tocar piano, mas meus dedos não conseguem mais”, afirma. Ele é um dos cinco idosos que freqüentam três vezes por semana o Centro de Vivência Hiléa, no Morumbi – e, para tanto, desembolsam 2 000 reais mensais. Santos participa das mesmas atividades que os onze moradores do local, cujas famílias pagam de 6 000 a 12 000 reais por mês, dependendo do tratamento. “Estou aqui passando por manutenção”, brinca. “É uma assistência técnica.”

Aula de desenho: uma das sete atividades diárias

Com 118 quartos classudos, piscina, academia, jardim, um restaurante aconchegante e uma pracinha retrô que reúne cinema, livraria e barbearia, o Hiléa foi inaugurado em dezembro, próximo ao Shopping Jardim Sul. Um grupo de investidores bancou o projeto de 45 milhões de reais da administradora Cristiane D’Andrea, diretora-presidente da instituição. Ex-diretora do Hospital Nossa Senhora de Lourdes e uma das fundadoras do Hospital da Criança, ambos no Jabaquara, ela largou tudo para, desde 2001, dedicar-se ao projeto de um lar classe A para idosos. “Nestes sete anos, conheci dezesseis residenciais desse gênero em países como Estados Unidos, França, Holanda e Canadá”, conta. “Procurei reproduzir aqui o que vi de melhor em cada um deles.” A arquitetura mereceu atenção especial. Os corredores, por exemplo, têm o conceito de “osso de cachorro”: nas duas pontas sempre há uma área social, como sala de TV e refeitório, servindo de incentivo à caminhada de um ponto ao outro. Para evitar que pacientes com Alzheimer sintam desconforto com o entardecer, sintoma comum na maioria dos que sofrem com a doença, a iluminação é homogênea durante o dia todo.

O maior desafio de Cristiane é quebrar o preconceito contra a idéia de internação num lar para idosos, ainda que vip. “Acredito que seja uma forma de garantir qualidade de vida”, afirma. “É preciso desmistificar a impressão de que o idoso fica largado, longe da família.” Os quartos têm um telefone equipado com tela, possibilitando que o morador veja e seja visto por seus parentes – que, para interagir, precisam de um aparelho similar. Visitas podem ser feitas a qualquer hora. As áreas comuns, como o restaurante, são abertas para visitantes. “Com freqüência ocorrem almoços familiares aqui”, diz Cristiane, que comanda noventa funcionários (médicos, nutricionistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e enfermeiros, entre outros). “Antes tínhamos de encontrar um médico especialista para cada probleminha que surgia”, lembra a empresária Flavia Carraro Campello, nora do engenheiro aposentado Luiz Eduardo de Adolpho Campello, de 95 anos, internado ali desde janeiro.

Jeitão de hotel com estrutura hospitalar: 118 quartos ao todo (Lalo de Almeida/divulgação)

Doutor Campello, como é conhecido, permanece sério praticamente o tempo todo. Costuma abrir um sorrisão em três ocasiões: quando recebe a visita de familiares, nas atividades com bola (jogava futebol na juventude e, até os 80 anos, praticava tênis) e ao ouvir a música New York, New York. “Ele estudou em Nova York e morou lá durante muitos anos”, explica Flavia. Às vezes a memória o trai e ele pensa que está nos Estados Unidos. Não é raro, por exemplo, que cumprimente as pessoas em inglês. Além de atividades físicas, o Hiléa procura reavivar as referências da memória. A praça, com decoração ao estilo anos 50, foi projetada com esse objetivo. Na livraria é possível manusear exemplares de revistas antigas e no cinema, assistir a sucessos de época. Casablanca é um dos favoritos dos moradores, que, ao reverem o romance de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, ao som de As Time Goes By, costumam pedir bis.
• Hiléa. Acesse Aqui. Rua Jandiatuba, 200, Morumbi, veja, acesse Aqui

Asilos cinco-estrelas

Outros endereços de residenciais de primeira
Lar Recanto Feliz. Rua Doutor Romeu Ferro, 246, Butantã. Acesse Aqui
Em um terreno de 28 000 metros quadrados, há 45 casas, noventa suítes e 72 apartamentos-enfermaria, além de um lago e uma igreja.
Mensalidade: de 2 500 a 7 600 reais
Lar Sant’Ana. Rua Bernarda Luiz, 129, Alto de Pinheiros. Acesse Aqui
Mantido pela Liga Solidária, o casarão conta com 127 quartos. Há a opção de passar o dia ali – e participar de aulas de tricô, inglês, artesanato etc. – pagando-se 70 reais.
Mensalidade: de 3 607 a 5 583 reais
Residencial Santa Catarina. Rua Leôncio de Carvalho, 98, Paraíso. Acesse Aqui 
Seu grande trunfo é a localização, pertinho da Avenida Paulista. São 125 flats distribuídos em dezesseis andares.
Mensalidade: de 6 300 a 9 400 reais
Solar Ville Garaude. Avenida Copacabana, 536, Alphaville, Barueri, SP. Acesse Aqui
Funciona desde 1998. Atualmente, apenas um de seus 54 apartamentos está vago.
Mensalidade: 4 300 reais
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Fonte: Revista Veja SP, 2 de abril de 2008. Disponível Aqui

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