Para Clélia Baptista, a fralda é um bem necessário

Logo da porta do apartamento duas imagens, além da própria dona Clélia, é claro, são bem marcantes: a mesa cheia de jornais e uma foto de seus avós, cercado pelos 13 filhos, inclusive o pai de dona Clélia, Pedro Horácio, na foto aos 19 anos. Sua vida é recheada de atividades, dentro e fora de casa. Em casa, lê diariamente os jornais, adora palavras cruzadas, cuida de duas netas, opina sobre o mundo que a cerca. E é muito bem-humorada. Da porta do seu prédio (Vila Madalena) para a rua, às segundas e quintas, semanalmente, há compromissos. E uma vez ao mês ainda participa do São Paulo Garden Club. O único contratempo de todo esse processo de vida foi perceber que, em decorrência de uma incontinência urinária que estava surgindo, e aumentando, foi obrigada a recorrer às fraldas geriátricas. Reclama do preço, elogia a qualidade, mas admite que sem elas nada do seu dia a dia poderia ser feito. “Eu uso a fralda o dia inteiro, pois não tenho a mínima percepção do momento em que a bexiga vai entrar em ação”.

Guilherme Salgado Rocha / Fotos: Alessandra Anselmi

 

para-clelia-baptista-fralda-e-um-bem-necessarioPortal – Antes de tudo, é importante registrar o que a sra. disse: é prima dos Mutantes?

Clélia – É verdade. Sou prima dos irmãos Arnaldo, Cláudio e Sérgio. Depois de entradas e saídas, os dois irmãos – Arnaldo e Sérgio – e a Rita Lee compuseram a formação oficial dos Mutantes. Isso aconteceu em 1966, quando houve, inclusive, a escolha do nome definitivo – Os Mutantes.

Portal – Bem, mas vamos aos dados essenciais. Nome, local de nascimento…

Clélia – Sou Clélia Maria Dias Baptista, nasci no dia 8 de maio de 1928. Tenho 84 anos. Sou filha de Pedro Horácio e Maria da Conceição, que tiveram mais dois filhos: Cleïs Maria e Cleômanes. Todos já falecidos, inclusive os pais, evidentemente. Nasci em casa, aqui mesmo em São Paulo, na rua Arruda Alvim, perto da doutor Arnaldo.

Portal – Quando a sra. se casou?

Clélia – Casei-me em 1947, aos 18 anos, com João Maria Marcondes Monteiro, que era de Pindamonhangaba. Éramos amigos das mesmas pessoas, e a família dele, de fazendeiros de café, estava arruinada economicamente. Tivemos quatro filhos: João Antônio, Paulo Augusto, Maria Sílvia e Maria Cecília. Na foto estão meus avós paternos, Horácio Dias Baptista e Francisca Querubina Alves de Oliveira Dias Baptista. Meu avô tinha cartório em Botucatu, onde essa foto foi feita, mas entrou em crise e teve de vender tudo. Aí eles vieram para São Paulo. Meu pai era farmacêutico, e meu marido era funcionário do Banco do Brasil. Moro aqui neste apartamento com duas netas, Maria e Joana, filhas da minha filha Maria Cecília.

para-clelia-baptista-fralda-e-um-bem-necessarioPortal – E a sra., em relação a trabalho?

Clélia – Minha vida foi sempre ligada à língua inglesa. Estudei muitos e muitos anos na Cultura Inglesa, e recebi o diploma da Universidade de Cambridge. Sou apaixonada pela literatura de língua inglesa, especialmente Shakespeare e George Bernard Shaw, que era irlandês. Dei aulas no Colégio Batista Brasileiro, em Perdizes, mas a minha mais intensa e extensa atividade foram as aulas particulares. Eu tinha alunos o dia inteiro, das sete da manhã às sete da noite, com uma hora de almoço apenas. E tome aula. Adorava!

Portal – Como é a sua semana?

Clélia – Movimentada, é verdade. Às segundas-feiras vou ao Clube Alto de Pinheiros participar do grupo que chamamos de costura dos pobres. Fazemos enxovais para famílias pobres. Somos mais de 50 senhoras que se dedicam a essa tarefa há 40 anos. E lá mesmo no clube, nas quintas-feiras, participo de um grupo que tem como objetivo não deixar a cabeça esfriar, acabar, adormecer. Somos 18 pessoas, que desejam se atualizar culturalmente. Temos uma coordenadora, a Regina Arantes, que coordena as conversas. Assistimos a filmes, dialogamos sobre assuntos atuais, opinamos.

para-clelia-baptista-fralda-e-um-bem-necessarioPortal – E ainda há a reunião da jardinagem?

Clélia – É uma reunião mensal, sempre na primeira terça-feira do mês. Essa iniciativa começou em 1939, criada por senhoras da colônia inglesa, que queriam não pensar todos os dias nos horrores da guerra. Nossas reuniões acontecem na Igreja Anglicana de Santo Amaro. Fazemos nossos arranjos, trocamos ideias, vemos o que as demais produziram. E anualmente há uma exposição desses trabalhos, no British Council, em Pinheiros.

Portal – Agora sobre as fraldas. Quando a sra. percebeu a incontinência?

Clélia – Não me lembro com precisão, mas faz alguns anos. E sinto que está piorando. Não tenho nenhum problema em falar sobre esse assunto, que deve ser tratado de frente. Meu único erro foi ter me sujeitado à aplicação de botox na bexiga, a fim de tentar estancar o problema.

Portal – Nada adiantou?

Clélia – Não apenas nada adiantou, como houve efeitos paralelos, colaterais. Não gostei.

Portal – O uso das fraldas é constante?

Clélia – Sim, o dia inteiro, dia e noite. É preciso um forro especial para o colchão. E a fralda não é um produto barato, mas tem que ser usada. A bexiga não obedece, é como se eu fosse um bebê. Sou uma viúva, e vivo da aposentadoria do meu marido.

para-clelia-baptista-fralda-e-um-bem-necessarioPortal – Obrigado, dona Clélia. Excelente a nossa conversa, agradecemos muito.

Clélia – Acrescente aí apenas que não me venham falar de melhor idade, excelente idade, maravilhosa idade. Pode ser melhor idade para os médicos, que ganham em cima de nós. Mas para quem está nessa idade em que estou, não tem nada de melhor idade…

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