Padre Julio Lancellotti: solidariedade em movimento

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Uma conversa com Padre Julio Lancellotti, 73 anos de idade, 35 de sacerdócio, sobre saúde, solidariedade, pandemia e comunicação.

Adriano De Lavor (*)


Dia quente de primavera, aproveito o sinal de trânsito vermelho e atravesso a rua Taquari em direção ao boteco que fica na esquina com a Sapucaia. São oito e meia da manhã da última quinta-feira de setembro no bairro da Mooca, Zona Leste de São Paulo. Cheguei cedo para a entrevista marcada com o padre Julio Lancellotti, talvez reflexo da ansiedade que antecede o encontro, há muito planejado. Aproveito o tempo de espera para tomar um café. Enquanto aguardo esfriar o copo que me é servido no balcão, observo a fachada simples da Igreja de São Miguel Arcanjo, onde vou encontrá-lo, daqui a pouco. Nas poucas mesas ocupadas, dois rapazes assistem desinteressados à televisão, enquanto três senhores conversam, entre uma mordida e outra no salgado, sobre o resultado de algum jogo de futebol.

Raios de sol incidem sobre o vitral redondo da igreja, pintada de amarelo. No dia anterior estava cheia, ouço os três comentarem, referindo-se à comemoração em homenagem ao padroeiro da paróquia. Segundo a tradição católica, anglicana e luterana, dia 29 de setembro é dia do Arcanjo Miguel, padroeiro da paróquia onde o padre recebe parte dos fiéis que o acompanham. Durante a pandemia, ele não parou de celebrar missas, algumas transmitidas no site oficial da paróquia.

O tradicional café da manhã que lá era oferecido teve que ser transferido para um lugar maior, dado o aumento do número de pessoas que procuravam a garantia de pelo menos uma refeição no seu dia. A atuação do padre no período de distanciamento social o fez ficar mais conhecido para além das fronteiras da cidade e ganhar seguidores nas redes sociais. Somente no Instagram sua conta já é seguida por quase 900 mil pessoas.

Naquele dia, a calma que cercava a igreja e o entorno, no entanto, não deixava entrever que ali atuava um dos religiosos que mobiliza milhares de pessoas a partir do discurso da solidariedade. Penso na conexão entre o sacerdote e o santo Miguel, considerado um guerreiro espiritual e protetor dos doentes e dos aflitos em meio ao silêncio respeitoso, apenas entrecortado pelo som das folhas movimentadas pelo vento — ou pela campainha de metal que anunciava mais um pedido a caminho do cliente, naquele pouco movimentado bar.

Do outro lado da rua, descansavam sob o sol, nas paredes externas da igreja, grafites que retratam padre Julio em ação. Ao seu lado, o coração rodeado de espinhos — que representa Jesus Cristo, na imagética católica — lembra as dificuldades enfrentadas por quem faz a opção pelos pobres. Retorno à igreja e encontro apenas uma moça rezando, que delicadamente me pede indicações de como chegar ao metrô. Bancos ainda interditados e dispensadores de álcool em gel lembram que ainda estamos numa pandemia.

No altar, chamam a atenção duas placas: “Aqui se entra para amar a Deus; daqui se sai para amar o próximo”. Penso na homilia transmitida pelo padre no domingo anterior, e vejo a coerência dos dizeres com aquilo que dizia: Devemos cuidar dos “microscópicos” e dos “descartáveis”. As flores frescas em homenagem ao santo perfumam o ambiente enquanto dona Roseli organiza a sacristia. “Ele já deve estar chegando, meu filho”, me diz. No portão, duas outras pessoas também aguardam o sacerdote: uma delas acaricia a cabeça de um cachorro.

São nove horas da manhã, horário combinado para a entrevista, quando o padre dobra a esquina e entra no pequeno pátio que une a sacristia à entrada lateral da igreja. A imagem é a mesma compartilhada nas redes sociais. Ele empurra um carrinho de compras vazio, usa calça jeans, sandálias de couro, avental amarelo sobreposto por um jaleco branco, máscara rosa com filtros de respiração.

Ele chega seguido de mais de uma dezena de pessoas, gente de todo o tipo. Uma mulher jovem, com criança no colo, pede a bênção; um rapaz insiste que precisa de uma camisa; um grupo maior oferece ao padre um livro recém-escrito; o rapaz com cachorro pergunta sobre doações; um outro grupo onde estão frades pede para fazer uma foto, enquanto uma senhora indaga onde pode descarregar as cestas básicas que trouxe em seu carro.

Padre Julio atende a cada um com cuidado, mas é enérgico nas respostas aos apelos. Explica que não tem mais a tal camisa — na verdade um moletom que havia sido distribuído nos dias frios do fim de inverno —, que ali ele não tem alimentos para doar ou ainda que não sabe quando vai ter novamente sacolas. “Para te dar o que você me pede, eu preciso ter o que você me pede. E eu não sei quando eu vou ter”, repete, com altivez e carinho.

Seu dia não havia começado ali. Como em todos os outros, ele já vinha do Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, conveniado com a prefeitura, onde funciona a ONG Bompar, lugar onde o padre distribui diariamente alimentos, kits de higiene e roupas, no café da manhã. Por isso o carrinho de compras que trazia vinha vazio. São muitas demandas e ele tenta administrar todas. Ao seu lado, um grupo pequeno se desdobra para ajudá-lo. Naquele dia, estavam ali, além de Roseli, da sacristia, Paulo, Daniel, André e Gabriel.

O chileno Paulo Escobar é sociólogo e acompanha o padre Julio há mais de 20 anos. Eles se conheceram quando atuavam na assistência às pessoas usuárias de drogas que viviam no Centro de São Paulo, na região que ficou conhecida como Cracolândia (Radis 178); o fotógrafo Daniel Kfouri registra a rotina do padre — boa parte das imagens postadas nas redes sociais de padre Julio são dele, e parte das fotografias que ilustram esse relato, também — e é ativista em diferentes projetos sociais. Os rapazes André Alexandre e Gabriel Bruno são seus escudeiros. Recebem doações, carregam caixas, atendem pedidos. Sempre com sorriso no rosto.

Gabriel me conta que havia saído da casa dos pais pouco antes de a pandemia começar. Havia trabalhado como lavador de ônibus e funileiro, mas estava desempregado. Naquele momento, sem alternativas, foi viver nas ruas, onde conheceu André; ao se encontrarem com padre Julio, ambos decidiram se voluntariar para ajudá-lo, mesmo sem remuneração. Tempo depois, conseguiram, graças ao padre, um teto para morar. Sobrevivem de doações e “bicos”, quando aparecem, distribuindo panfletos, recolhendo materiais recicláveis. Agora, planejam juntar dinheiro “para comprar uns panos e vender no farol”. “Graças ao padre conseguimos um teto, e isso já é muita coisa”, me diz.

André lembra que viu o padre pela primeira vez quando ele distribuía café às pessoas em situação de rua. Ele era uma delas. Foi parar nas ruas para fugir da perseguição do namorado policial de sua antiga esposa, no litoral paulista. Chegou a São Paulo “com a cara e a coragem”. Hoje, além de teto para morar, ele se orgulha em poder ajudar a oferecer o café que um dia confortou seu estômago. Voluntário, se vira como dá, como o amigo Gabriel. “Eu não chamo nem ele de padre, chamo de pai”, revela, sem disfarçar a importância da convivência com padre Julio.

Apresento-me como repórter da Radis e padre Julio me pede para esperar. São muitas as prioridades, explica, e logo terá outro compromisso a cumprir. Sento-me em um dos bancos e aguardo, observando o grupo que acompanha o autor do livro a fazer fotos. O sacerdote logo está ao meu lado e convida um rapaz para acompanhar a conversa. José Vitor Costa Macedo, 26 anos, é estudante de Neurociências na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e saiu de Natal em uma viagem que atende a uma busca existencial e espiritual. Ele explica que veio ao encontro do padre por ele ser um líder que está em sintonia com o que acredita. “Ele dá voz às pessoas invisíveis na sociedade”.

A entrevista começa (leia na página 12) e é muitas vezes interrompida; cada resposta dada, direta, curta e objetiva, é pronunciada em voz alta, de modo que chegue aos ouvidos de quem está ao redor; ele tem um olho no relógio, outro nas pessoas que não param de chegar e sair. A conversa vai findando, momento em que ele troca de máscara e sobe ao altar para que eu faça fotos. Comenta que acompanha com interesse o trabalho realizado pela Fiocruz, durante a pandemia, e registra sua admiração pela pesquisadora Margareth Dalcolmo (Radis 221): “Ela é uma heroína, né?”.

O silêncio vai voltando a ocupar seu espaço à medida que as pessoas vão saindo, os portões vão sendo fechados e padre Julio vai se preparando para o compromisso seguinte, que me parece inusitado: a inauguração de um grande supermercado, na mesma quadra da igreja. Antes da saída, uma paroquiana chega com mais doações, prontamente guardadas na sacristia por André e Gabriel. Sem desanimar, ele convida a todos que ainda estão ali para que o acompanhem.

Logo está de novo nas ruas, lugar onde consolidou o perfil que atrai tantos seguidores no mundo laico, sem perder a conexão com o mundo espiritual. De novo me vêm à cabeça palavras suas, quando explicou que, diferente do tempo da Páscoa ou do Advento, o “tempo comum” inspira os fiéis a ter coragem para dar seguimento aos ensinamentos de Cristo — o mesmo “Jesus das ruas” que está grafado no título do livro em que estão registradas conversas entre ele e Paulo, seu companheiro de jornada.

Continue a leitura da reportagem no site da Radis.

(*) Adriano De Lavor escreve para a Revista Radis

Foto destaque extraída do vídeo da homilia do Pe. Julio no 1º Domingo do Advento – 28/11/2021.


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