Os idosos em seu lugar de fala: o que nos dizem…

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Na tentativa de escutar o que a população idosa em seu lugar de fala tem a dizer, elaborou-se algumas questões que foram respondidas por sete idosos.

Fatima Oliveira de Souza (*)


O envelhecimento populacional é uma realidade no mundo e no Brasil. Por conta desse fato, torna-se necessário mais ajustes, especialmente sociais, a fim de se oferecer serviços que atendam as necessidades e desejos inerentes a essa parcela populacional. Neste sentido, observa-se a relevância de discutir as relações entre os idosos e os demais membros da sociedade que muitas vezes não compreendem as limitações, vulnerabilidades e/ou fragilidades impostas às pessoas idosas com o avançar dos anos.

Na tentativa de escutar o que essa população, em seu lugar de fala, tem a dizer, elaborou-se algumas questões as quais foram respondidas por sete idosos. São elas: 1)  Mora com outras pessoas? Gosta?; 2) Faz alguma atividade física? Se acha uma pessoa saudável?; 3)  Como você vê a velhice nos dias de hoje?; 4)  Você gosta de ser chamada de velho (a)? Sim ou Não? Explique; 5) Você vê alguma dificuldade de ter a idade que tem? Explique.
6)  Você acredita que a velhice possa trazer algum benefício? Qual?; 7)  Como você se vê daqui a 10 anos?; 8)  O que vc espera da vida?; 9) Como você encara a finitude?; e 10) Já conversou sobre isto, com seus familiares? Finalmente, perguntou-se se desejariam deixar algum comentário sobre as perguntas realizadas.

As respostas obtidas nos indicam como buscar melhorias, estreitar laços e orientar políticas públicas, mas também nos mostram o quanto representações sociais de velhices de outrora ainda povoam o imaginário social a respeito dessa etapa da vida para aqueles que a vivenciam.

Mora com outras pessoas? Gosta?

Dos sete entrevistados, apenas dois moram sozinhos. Os demais residem com outras pessoas. A entrevistada 1, mulher, aposentada, 64 anos, respondeu que mora com seu marido e os filhos, e que todos gostam de estar juntos. O mesmo respondeu o entrevistado 2, homen, aposentado, 68 anos. Já o entrevistado 3, homen, médico, 72 anos, disse morar só, que está bem adaptado e que gosta de viver sozinho, mas lhe agrada quando outras pessoas estão com ele, e que não tem dificuldades junto da sua família. A entrevistada 4, mulher, auxiliar de apoio e aposentada, 66 anos, comentou também que mora sozinha e que gosta de viver só. Não é o caso da entrevistada 5, mulher, aposentada, 74 anos, que disse morar com outras pessoas mas que gostaria de residir sozinha. O entrevistado 6, homen, aposentado, 66 anos, disse morar com outras pessoas e que gosta de estar com elas. Por fim, o entrevistado 7,mulher, inspetora escolar e aposentada, 67 anos, disse morar com o cônjuge e que gosta da sua companhia.

Faz alguma atividade física? Se acha uma pessoa saudável?

As respostas a esta questão foram muito diversas, desde o reconhecimento que não é uma pessoa saudável por não fazer nenhuma atividade, apenas dormir, até aqueles que confessam não praticar nenhuma atividade física mesmo antes do confinamento devido a pandemia pelo novo coronavírus, mas que mesmo assim se consideram saudáveis, como é o caso do entrevistado 3. Alguns entrevistados assumem que fazem atividade física, como G.M.F., caminhada, e que por isso se acham saudáveis. Outros falam que fazem um pouco a cada dia e que se consideram um pouco saudáveis. Observa-se que os entrevistados homens se percebem mais saudáveis que as mulheres mesmo não praticando atividades físicas.

Como você vê a velhice nos dias de hoje?

Ante essa pergunta alguns responderam que a velhice nos dias de hoje é difícil, e outros que é tranquila; que  reconhecem que por tudo que têm levam uma vida saudável. Outros comentam que as dificuldades mais questionadas pela sociedade relativas a velhice estão diretamente relacionadas à falta de educação e o desrespeito às regras, decretos e leis. Há ainda quem respondeu que não sabe explicar porque tem apenas 66 anos e ainda não chegou lá. E outros que comentam que sua velhice não a abalou em nada, pois leva sua vida normal, faz suas coisas sozinha, sem precisar de ajuda de ninguém. Um dos entrevistados respondeu que atualmente ainda existe preconceito, que já foi vítima algumas vezes de motoristas de transporte público que não param o ônibus ao perceberem que não pagam.

Você gosta de ser chamada de velho (a)?

“Não gosto de ser chamada de velha, acho que não é um termo adequado”, “Eu não gosto não, não queria ficar velho não”, “Não lembro de já ter sido chamado de velho e se assim o for chamado reajo com indiferença”; “Não, não gosto, ainda não estou velha, e normalmente quem chama as pessoas assim é em um momento de ira e chamam assim para ofender e assim ninguém gosta”, “Nunca me preocupei”, “Não, nunca me chamaram assim. Acho que estariam fazendo pouco caso”, “Não gosto de ser chamado de velho e nem de idoso”, e “Acho que ninguém gosta de ser chamado de velho…todos envelhecem…mas ficamos um pouco chateados. Acho uma falta de respeito!”. Estas foram as respostas literais que os entrevistados disseram. Esclarecemos, no entanto, que velho (a) é quem está vivenciando a etapa da velhice que no Brasil começa aos 60 anos, como é reconhecido pelo Estatuto do Idoso.

Você vê alguma dificuldade de ter a idade que tem?

Entre as respostas dadas a esta pergunta, segue algumas literalmente: “Eu acho. Não queria ter essa idade não, queria estar mais nova”, “Eu não gosto não, não queria ficar velho não”, “Não. Acredito que por ter boa saúde e continuar no desempenho de minhas atividades profissionais e procurar viver dentro do meu sistema de valores e meus objetivos”, “Ainda não sinto nenhuma dificuldade em ter sessenta e seis anos, pois tenho saúde, sou independente, trabalho, sou aposentada, lavo, passo, faço compras, dirijo, então, para mim normal, sou jovem”, “Nenhuma, acho tudo ótimo”, “Não. Dizem que estou bem e sinto-me assim! Tenho um espírito jovem!”. Nas falas, destaca-se o negacionismo dessa etapa da existência humana.

Você acredita que a velhice possa trazer algum benefício?

“Eu acho que não traz benefício nenhum não. Acho tão triste”, “Sim. Desapego no campo material, emocional. Não é sobre não ter nada mas ter o que é importante”, “Os benefícios que a idade traz ou o amadurecimento traz, são as experiências que temos”, “Aposentadoria, ter tempo para tudo sem se preocupar com afazeres”, “Sim…a velhice traz uma carga de sabedoria, maturidade…claro que muitos não sabem aceitá-la …sem autoestima ….inúteis”. O foco nas perdas e na negação da velhice não faz com que olhemos para os benefícios da velhice.

Como você se vê daqui a 10 anos?

Essa questão ligada ao futuro trouxe as seguintes respostas: “Poder ter mais qualidade de vida”, “Se eu durar mais dez anos vai ser bom demais”, “Difícil, o futuro não nos pertence. Mas acredito continuando em novos tempos a buscar meus objetivos com emprego de novas atitudes”, “Daqui a 10 anos acredito que estarei dez anos mais velha, porém, tenho convicção que com exercícios físicos estarei da mesma maneira que hoje”, “Se eu chegar lá, com força e espírito, ficarei muito contente de viver mais dez anos”, “Levando a mesma vida de agora sem muitas perspectivas”, “Melhor não ficar sofrendo tentando saber como estaremos daqui a 10 anos…vivamos o hoje!”. Interessante observar que ante esta questão a velhice vivenciada por eles é cheia de benefícios, mas que não são reconhecidos quando perguntados a respeito da velhice e não deles mesmos.

O que você espera da vida?

“Eu, melhorando um pouquinho minha saúde, já está bom”, “Seguir em frente colhendo o que for possível do resultado alcançado de meus objetivos”, “Espero da vida, viver com saúde, alegria, passeios”, “Tudo de bom, com saúde. Não quero ficar parada, sentada. Sempre em movimento”, “Não adoecer e dar trabalho para os outros”, e “Espero da vida,  que eu  continue sendo assim, forte na fé para enfrentar os desafios!”, foram as respostas dadas, mostrando a preocupação com o “estar parada” e “adoecer”.

Como você encara a finitude?

Essa questão é muito complexa e não se costuma falar sobre essa etapa da vida. As respostas foram: “Fico chateada de ficar sabendo que é o fim”, “Tem que durar mais, tem que chegar pelo menos aos 110 anos, eu tenho fé né?”, “Naturalmente, todos morremos, aceitar é uma questão de consciência e de pensar desde cedo que temos esse final”, “Encaro como uma situação normal para todos, que é igual, todos viemos da mesma maneira e todos voltamos também da mesma maneira, final igual para todo círculo normal da vida, o final faz parte”, “Eu não! Para mim, a morte é um descanso, mas não penso nisso não”, “Continuar a felicidade, ser feliz basta”, e “Prefiro não pensar muito….todos chegaremos, única certeza!”. Apesar de se saber de nossa condição finita, há um “acordo” social em não se falar sobre.

Já conversou sobre isto (a finitude), com seus familiares?

Se na pergunta anterior observou-se o desassossego das pessoas, nesta ele é igual ou maior. Eis as respostas: “Nós nunca conversamos”, “Nós nunca conversamos porque eu nem penso nisso, se eu pensar nós estamos fritos!”, “Sim. Para ter a garantia de que a minha vontade será respeitada após a minha partida e de que meus beneficiários poderão controlar o que for deixado por mim”, “Sim, sempre conversamos sobre”, “Não tenho o hábito de falar sobre isto”, “Não chegou o momento, aceito tudo na vida como normal” e, “Não muito…prefiro viver o presente com alegria!”.

Ao final da entrevista perguntamos a cada se desejariam deixar algum comentário sobre as perguntas realizadas. A maior parte respondeu que não, mas teve quem respondeu que “queria ter 100 anos com a disposição de 40”. Outo entrevistado lembrou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o envelhecimento em quatro estágios: Meia-idade (45 a 59 anos), Idoso(a) (60 a 74 anos), Ancião (75 a 90 anos), e Velhice extrema (90 anos em diante). Outro ainda comentou que foram perguntas interessantes, que valeu a pena para que possam refletir algumas coisas.

Considerações

Ante as respostas, observamos que muitas vezes temos uma visão distorcida de alguns idosos. Uma visão de ser extremamente frágil, dócil, amável. Até mesmo, próximos da finitude. Mas verificamos pelas respostas, que alguns nem pensam em tal momento, ou seja, na sua finitude. Cada vez mais estão dispostos, saudáveis e com vitalidade. Sempre prontos a nos ensinar, com suas experiências e expectativas de vida.

(*)Fatima Oliveira de Souza – Este texto foi escrito para o curso de extensão de Fragilidades da Velhice e Gerontologia Social e Atendimento pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) no primeiro semestre de 2020. E-mail: fatisgo@gmail.com

Foto destaque de Andrea Piacquadio de Pexels


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