Os filhos do milagre – parte 2

O seminário contratado pelo Halles foi realizado no Guarujá, no Delfin Hotel. Eu participava do grupo de apoio.Os temas do seminário eram os de costume: O Novo Papel do Gerente, Novas Ideias de Liderança, A Decisão Gerencial, Técnicas de Planejamento e outros que tais. O seminário era todo em inglês, com tradução simultânea. Os temas desenvolvidos eram familiares para a maioria dos presentes, mas minha impressão era que, para os americanos, os ouvintes não passavam de calouros. Eles não tiveram o cuidado de verificar algo básico nesse tipo de trabalho: Quem era cada um dos participantes?

Waldir Bíscaro *

 

A equipe de expositores era formada por um coordenador e quatro especialistas. A primeira apresentação abordou o tema “Liderança”, e nela, o expositor dera ênfase ao pensamento de Kurt Lewin, de Robert Blake e de outros que colocavam como modelo a forma participativa de liderança e descartavam as formas autocráticas na tomada de decisões. Até aí, tudo bem.

Na apresentação do segundo palestrante sobre o tema “como tomar decisão”, ele se empolgou e destacou as qualidades individuais do tomador de decisões, exaltando a firmeza, a coragem e a independência do verdadeiro gerente. Pelo jeito, eles não haviam combinado entre si o teor de suas falas ou talvez pensassem que ao falar para uma plateia de pessoas com pouco conhecimento do tema, ninguém iria perceber a dissonância.

Um dos convidados para assistir ao seminário era o Professor Marcos Pontual – pai do nosso colega Pedro Pontual. O professor Pontual lecionava Psicologia Industrial para engenheiros, na USP. Nessa palestra, eu estava sentado ao seu lado. No intervalo para o café, consultei o professor se, por acaso, ele tinha entendido o mesmo que eu entendera. Ele confirmou o desencontro de posicionamento teórico entre os dois palestrantes e me estimulou a intervir. Ao voltar do café, foi aberta a palavra aos participantes. Pedi a palavra:

– Gostaria de saber qual é a orientação que deveria prevalecer uma vez que o primeiro palestrante defendeu uma posição favorável à decisão participativa e o papel do grupo nesse processo, já o segundo se posicionou a favor da tomada individual de decisões, sem a participação da equipe. Qual a orientação?

O silêncio na plateia foi terrível. O segundo palestrante se fez de desentendido e eu insisti na questão. Aí foi a vez do coordenador do seminário que quase correndo foi para frente e me pediu que repetisse a pergunta.

Foi então que me dei conta que continuar a interpelação não valeria a pena, afinal era eu um dos únicos representantes da empresa contratante naquele seminário. Aceitei algumas explicações e dei por encerrada a polêmica.

A contratação daquele seminário tinha sido iniciativa da área de marketing para quem o que importava era o auê do evento e não a coerência das apresentações. Fosse como fosse, o êxito do seminário não evitaria o que já estaria, de certa forma, definido.

Em Abril de 74, o Halles sofreu a intervenção do Banco Central.

No final da era Médici, os bancos deitavam e rolavam por conta das facilidades do dólar nas finanças internacionais e dos juros escorchantes sobre os tomadores. Em 1973, dois fatos marcantes ocorreram: A crise do petróleo e o esvaziamento do “milagre”.

Em Março de 1974, Geisel, ao assumir a presidência trouxe, para o ministério da fazenda, Mario Henrique Simonsen que vinha com a incumbência de botar ordem na área financeira. Era preciso dar uma lição pra valer nos bancos, mas, por onde ele começaria? Poderia ser pelo BUC (União Comercial) ou pelo Nacional, mas esses além de grandes, seus donos tinham ligação histórica com o poder. O Halles era um banco médio e passava por uma crise que poderia levá-lo à quebra, se não houvesse ajuda do Banco Central, como sempre ocorria.

Não haveria qualquer ajuda, decretou Simonsen e, além do mais, uma intervenção no Halles teria plena aprovação dos banqueiros tradicionais. Em Abril daquele ano, nem um mês após a posse de Geisel, o Halles foi eleito o bode expiatório perfeito e a repercussão no mercado seria mínima.

PS: Contava-se, à boca pequena, que Simonsen e Stanislaw Szaniecki – então presidente do Halles – tinham antiga inimizade. Tudo perfeito!

São Paulo – Maio 2013

* Waldir Bíscaro – Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br

 

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