Os filhos do milagre – parte 1

O milagre em epígrafe nada tem a ver com os milagres da fé. Tem a ver com o fenômeno ocorrido no Brasil na década de setenta, sob a batuta de Delfim Neto, durante a ditadura.

Waldir Bíscaro *

 

Em 1973, trabalhava eu no Banco Halles que despontava como o mais exemplar fenômeno do “milagre brasileiro” do início dos anos setenta. De todos os bancos surgidos naquela temporada – cerca de vinte – o Halles havia se mostrado o mais desenvolto e audacioso ao se expandir, absorvendo pequenas e médias empresas do ramo financeiro.

O presidente do banco era um homem que poderíamos chamar de idealista e preocupado com o futuro da jovem instituição. Por conta de seu idealismo, ele pensou em atrair para o banco alguns alunos de engenharia da USP e com eles formar um núcleo de elite para assumir postos a serem criados na expansão do banco. Eu havia sido contratado exatamente para cuidar desse projeto.

Em sua busca de expansão, o Halles começou absorvendo duas pequenas seguradoras e logo em seguida um pequeno banco carioca, o Lowndes, com cerca de seis agências. Em todas essas aquisições cabia a mim o trabalho de integração das equipes.

A última aquisição do Halles tinha sido um banco de médio porte que me dera muito trabalho no processo de sua integração. O mercado comentava maldosamente que a absorção do Banco Andrade Arnaud – um banco de porte médio – pelo Halles havia sido algo como o sapo-que-engoliu-o-boi.

Nos meios bancários da época, abundavam dúvidas sobre a competência dos nouveaux banqueiros, vistos quase sempre como arrivistas. Acontece que os banqueiros tradicionais não podiam ver com bons olhos aqueles novos companheiros, sem raízes e sem tradições familiares, que entravam no mercado com apetite voraz. Muitos deles tinham sido ótimos corretores na venda de papeis disponíveis no mercado, como as famosas letras de cambio ou os fundos de ações.

A marca da agressividade na abordagem do mercado pelos novos banqueiros era semelhante às técnicas de venda que eles haviam usado quando corretores vitoriosos, em sua competição pelo recorde de vendas.

O caso do Halles encaixava-se nesse figurino. Em pouco mais de dez anos, o Halles passou de simples financeira a banco de investimentos e logo mais a banco comercial de porte médio, posicionando-se entre os primeiros no ranking bancário.

É provável que os banqueiros emergentes estivessem bem conscientes da imagem que deles se formava no restrito mercado da banca nacional. Seria preciso realizar façanhas para anular o preconceito, antes de ingressar no seleto círculo dos banqueiros tradicionais.

Teriam de mostrar outros argumentos que os fariam respeitáveis perante os banqueiros veteranos, como Setúbal e Vilella do Itaú, Silva Gordo e Quartim Barbosa do Comind, Walter Moreira Salles do Unibanco, Gastão Vidigal do Mercantil, os Magalhães Pinto do Nacional, Pedro Conde do BCN ou Aloísio Faria do Real e outros. (Não cito Amador Aguiar do Bradesco, pois ele não pertencia à aristocracia bancária).

Foi por conta desse esforço para obter reconhecimento que, em 1973, o Halles patrocinou a vinda de uma consultoria americana, para apresentar um grande seminário sobre gerenciamento, tendo convidado executivos de grandes empresas e alguns professores universitários. É o que veremos depois.

São Paulo – Abril de 2013

* Waldir Bíscaro – Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br

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