Os desafios de envelhecer no Brasil

Quais são os desafios de ser velho no Brasil? E quais são as dificuldades enfrentadas por essa crescente população? É indispensável a necessidade de se criar novas políticas públicas para os idosos e tornar eficientes as já garantidas por lei.

Dilma Maria de Carvalho (*)

 

No Brasil parece que ser velho é deselegante” (Junia de Vilhena), psicóloga e coordenadora do LIPIS (Laboratório Interdisciplinaridade Pesquisa e Intervenção Social, PUC- Rio de Janeiro).

Envelhecer no Brasil significa enfrentar muitos desafios, principalmente para as pessoas com baixo poder aquisitivo que não conseguem suprir suas necessidades básicas, pois o país não está preparado para essa nova realidade que está posta, trabalhando com uma política pública que não consegue atender essa população com qualidade e atenção.

Nos países asiáticos a velhice é sinônimo de experiência e sabedoria em que as pessoas idosas são tratadas com atenção e respeito. No Brasil a velhice é sinal de decadência e incapacidade e as pessoas com mais idade sofrem preconceitos e são desrespeitadas cotidianamente, como já assinalava Úrsula Karsch, em entrevista a Elisa Marconi e Francisco Bicudo no texto Arte e Ofício de ser Velho no Brasil publicado na Revista GIZ:

Para ser velho no Brasil é preciso enfrentar muitas situações. O idoso aqui é um sobrevivente, sob vários pontos de vista. Essas pessoas têm que enfrentar atendimento à saúde precário, uma educação que não prepara para o mundo, um mercado de trabalho que paga mal e não permite acumular para a velhice. A pessoa enfrenta a violência dos serviços públicos, a violência urbana e até a violência familiar”.

A população brasileira está envelhecendo muito depressa e isso tem um custo pelo fato dos país não estar preparado, não ter políticas públicas adequadas para essa  população específica. Portanto, envelhecer no Brasil torna-se um desafio, pois o país não está planejado para lidar com as diversas situações que acometem essa população de velhos que cresceu consideravelmente com o aumento da expectativa de vida nos últimos anos.

“Vamos envelhecer de forma rápida, mas na contramão do que os países desenvolvidos fizeram”, já dizia Alexandre Kalache, uma das maiores autoridade sobre o envelhecimento no Brasil. Ele foi diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) na Suíça, e hoje é copresidente do International Longevity Centre no Brasil. E por que na contramão? Ele mesmo responde: “Os países desenvolvidos enriqueceram para depois envelhecer. Nós estamos envelhecendo na pobreza. A França demorou 45 anos para dobrar sua proporção de idosos de 10% para 20%. O Brasil vai fazer isso em 19 anos” (Revista Veja São Paulo, 14/11/2018).

Os desafios vão crescendo à medida que a população de velhos vai aumentando. O país tem por obrigação promover a valorização das pessoas mais velhas e garantir políticas para que a população envelheça com qualidade e de forma ativa. É necessário que a mente, o corpo e as relações sociais dessas pessoas estejam em atividades.

De acordo com os institutos de pesquisa que fazem análises periódicas sobre o crescimento dessa mesma população, de 9,8% em 2005 passou para 14,3% em 2015. A tendência é que o número de idosos aumente, exigindo um investimento adequado nas políticas públicas com foco principalmente nessa acentuada população de velhos, pois o envelhecimento é inegável e desafia as políticas de saúde, as sociais, as culturais, enfim, as políticas, sejam públicas e privadas, no Brasil.

É natural que com o aumento da idade vá acontecendo as mudanças em geral, físicas, psicológicas, neurológicas, fisiológicas e sociais que causam uma alteração no jeito de relacionar que o idoso tem com as outras pessoas, consigo mesmo e com o ambiente em que vive. Mas também se sabe hoje que esse mesmo ambiente impacta em 70% no organismo. Como estamos olhando para ele? O que o país está fazendo?

Dificuldades

A grande dificuldade da pessoa que passa a ser considerada velha é ficar incapacitada dos seus afazeres diários, de passar da independência para a dependência e essa relação vem com o surgimento de doenças mais sérias principalmente. Com o crescimento da população mais velha acompanhou também o aumento das doenças crônico-degenerativas, mudando o panorama das condições de saúde da população brasileira.

Estima-se que aproximadamente 70% dos idosos possuem alguma doença degenerativa-crônica e 25% têm limitações em suas atividades diárias, diminuindo as chances de manter uma vida saudável”. (Lebrão e Duarte, 2003).

Se por um lado é possível viver bem mais do que no século passado, por outro é preciso oferecer a essa população condições para que a longevidade seja acompanhada por bem-estar e qualidade de vida.

Para isso acontecer é necessário que o Estado dê a importância devida às pessoas com mais de 60 anos para que essas mesmas não sejam consideradas inúteis para o trabalho como são vistas na atualidade, que sejam respeitadas e que tenham garantidos a saúde, o bem-estar psicológico e social, independência, segurança e participação em diferentes setores e contextos.

Em 2050 estima-se que a população de velhos representará ¼ da população mundial, alcançando 2 bilhões de habitantes. No Brasil o cenário é mais evidente com o crescimento acelerado do número de pessoas idosos mais longevas, com 80 anos ou mais. Esta estimativa do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica e aplicada, de 2008, está se comprovando. A população de centenários já totaliza 30 mil habitantes, com necessidades sociais e de saúde que precisam ser acompanhadas por profissionais sensibilizados com o envelhecimento (Komo e Kenso, 2011).

Com essas novas configurações sociais é importante que os idosos sejam acolhidos, pois muitos moram sozinhos ou mesmo estando junto com a família ficam muito tempo em casa sós, sem receber nenhum cuidado básico enquanto os familiares estão trabalhando ou fora de casa.

As opções ainda são restritas e estão concentradas nos grandes centros urbanos. São poucos os centros de acolhimento conhecidos pelos familiares desses idosos.

Estão sendo implantados aos poucos alguns novos centros de acolhimento para pessoas com 60 anos ou mais, porém falta uma infraestrutura adequada para um bom atendimento.

Os mais conhecidos são: ILPI (Instituição de Longa Permanência para Idosos), NCI (Núcleo de Convivência do Idoso) e o PAI (Programa Acompanhante de Idoso). Esses serviços ainda são em uma quantidade mínima para um grande número de pessoas em São Paulo, por exemplo, muitos com falta de estrutura para realizarem um trabalho profissional com qualidade. Há necessidade de serem criados novos centros de acolhimento, com profissionais engajados que trabalhem para a valorização do ser humano independente da situação vivenciada nessa fase da vida para que essa população que não tem um bom poder aquisitivo não se sinta tão desamparada.

As políticas públicas garantidas pela Constituição e pelo Estatuto do Idoso não são trabalhadas adequadamente, pois são políticas focalizadas, e fragmentadas – com atendimentos precarizados de forma que os idosos na maioria das vezes se sentem excluídos ao invés de incluídos nesses programas – quando deveria ser universalizadas.

Diante desse quadro que já está desenhado sobre o envelhecimento de pessoas no país, a pergunta que muito se faz hoje é como o Estado vai trabalhar com essa nova realidade. O que fazer com essa população envelhecida e como fazer com que sejam criadas novas políticas que contemplem esses novos atores sociais e também como tornar eficientes as políticas públicas e sociais já existentes. Esse é o grande desafio para o Estado e para os governantes que acabaram de assumir seus cargos públicos.

No Estatuto do Idoso (Lei 10.741, de primeiro de outubro de 2003), artigo terceiro, está escrito que “É obrigação da família, comunidade, da sociedade e do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária”.

Com essa população de idosos longevos e também com os que estão se aproximando da idade onde são considerados velhos é preciso que eles sejam tratados com toda importância e com urgência por essa política pública que existe no país. É preciso priorizar todos os temas relacionados ao envelhecimento, porque essa é uma realidade que se apresenta e que precisa ser enfrentada o mais rápido possível, pois não se sabe até onde esse “problema” pode chegar.

É dever da sociedade, da família, mas principalmente do setor público, olhar para os velhos com consideração, reconhecimento e respeito para terem os seus direitos garantidos, pois  são pessoas que diante da sua condição de fragilidade são invisíveis perante os órgãos públicos, pela sociedade e muitos também pela própria família. Muitos estão abandonados e negligenciados.

No contexto do envelhecimento populacional são inúmeros os fatores que fazem com que o envelhecer no Brasil seja considerado um “problema sem solução” a ser resolvido. Mas ante o que foi exposto fica claro que os velhos não são um problema. Os velhos têm problemas que precisam ser resolvidos imediatamente!

Referências

Revista Veja São Paulo: Em busca da felicidade (a revolução da longevidade) 14/11/18.

Revista Giz: Arte e Ofício de ser velho no Brasil. Disponível em: http://revistagiz.sinprosp.org.br/?p=5423

Estatuto do Idoso: Lei 10.741/2003

IPEA: Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada, 2008.

(*) Dilma Maria de Carvalho – Graduação em Serviço Social, Universidade Paulista (UNIP), São Paulo. Pós Graduação em Gestão de Políticas Públicas e Sociais, Faculdade de Serviço Social, (FAPSS) São Caetano do Sul. São Paulo. Texto escrito para o curso de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. E-mail: dmdcdida22@gmail.com

 

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