O tricô de Guiomar

Em cada ponto do seu tricô, um pensamento faz seus olhos brilharem como se a memória do que foi afetuosamente vivido pudesse acender os olhos opacos pelo tempo e pelos tantos dessabores, finalmente superados pelo viver longevo.


Entrelaça a linha assim como a vida e os afetos, afinal é o emaranhado que dá a forma e nunca o fio isolado. Guiomar sempre escolhe estar sentada ao lado da janela onde é possível admirar o Ipê amarelo que, nesta época do ano, enfeita a cidade e parece dar novos ares à ela que respira com dificuldade e só agora, que não mais adianta, se deu conta que não podia ter fugido da cirurgia de troca das válvulas cardíacas. Tricota com maestria provando que aos 90 de idade sua mente ainda é bem capaz de acompanhar os pontos desenhados, primeiramente, na sua cabeça. Quanto talento com as agulhas; quanto talento.

Quando jovem escolheu as cores que fariam parte do seu viver futuro em forma de lembranças vigorosamente construídas. Aventurou-se na participação da construção de uma nova capital para o país.
E lá foi a jovem Guiomar, com sonhos povoados na cabeça, traçar novas linhas para a vida que, mesmo desconhecida, seria longeva e que iria, nas mãos enrugadas ao segurar as agulhas de tricô, revelar as manchas do tempo em forma de sardas e na semelhança com o papel de seda que teima em imitar a pele envelhecida.

Guiomar tricota com as mãos que ajudaram a construir Brasília e que atualmente fazem belos jacquards de tricô deixando todos boquiabertos tamanha maestria em usar os diversos fios coloridos que formam os desenhos. Pura matemática que antes era ensinada em sala de aula na capital que estava sendo feita e que agora, com familiaridade, edifica lindas malhas de lã que ela dá de presente aos tantos queridos por ela.

Ao lecionar para os filhos dos trabalhadores de Brasília, o prazer de ensinar refletia na sua personalidade juvenil; assim como nos seus desejos de construção de vidas melhores para o outro; para si e para todo brasileiro necessitado da crença de que um novo Brasil estaria prestes a surgir. Ao lado da árvore florida sua fala parece arejar os pulmões fraquinhos, revigorando com fôlego e esperança sua velhice.

A nova capital, promessa de campanha do então presidente Juscelino Kubitschek, foi oficialmente inaugurada em 21 de abril de 1960 com um baile inesquecível para Guiomar que descreve ao tricotar; as cenas que viveu naquele dia.

Enquanto os pontos feitos por ela dão forma à malha tricotada para o sobrinho; lá de fora o Ipê amarelo deixa cair uma flor que o vento trouxe para dentro da janela.

Assim como Brasília que foi pensada para florir o Brasil, a vida de Guiomar se assemelha à árvore vista da vidraça que precisou de muitos anos para exibir tal exuberância; mesmo em meio ao caos do asfalto que a rodeia.

Em cada ponto, um pensamento faz seus olhos brilharem como se a memória do que foi afetuosamente vivido pudesse acender os olhos opacos pelo tempo e pelos tantos dessabores, finalmente superados pelo viver longevo.

A velha Guiomar segura as agulhas enquanto aquela garota de tempos passados parece se apoderar do corpo esguio da senhora de 90 anos; mostrando orgulho na voz trêmula e baixinha. Novelos coloridos cercam Guiomar que intercala suas lãs com o cinza do suéter.

Subitamente sua fala se encerra e as rugas de sua testa se acentuam numa reflexão inquietante já que ela percebe que, em meio a conversa, erros foram cometidos modificando o desenho planejado.

A linearidade dos pontos precisou ser desfeita e sem dó, a velha Guiomar desmancha um certo tanto do seu tricô.

Quem dera nossa história pudesse ser assim desmanchada para ser então, concertada, mas a linha da vida não se desarranja; ou aprendemos com os erros ou continuaremos a acreditar que o suéter, no final do trabalho, irá nos vestir perfeitamente.

No velho corpo de Guiomar, a roupa lhe cabe perfeita já que soube como ninguém entrelaçar afetos para compor a sua existência.

Amorosamente, ela volta a pegar as agulhas para reconstruir os erros cometidos e a vida de Guiomar que dói, que embaraça, intrinca, trança e desmancha revigora-se pela brisa.

Agulhas em mãos, os fios desmanchados voltam a compor o trabalho que com suas partes unidas e seus fios arrematados finalizam o viver da frágil senhora.

Com seu vestido de baile a jovem Guiomar a ajuda a largar as agulhas e dar adeus aos novelos coloridos e emaranhados.

É hora de partir para viver a eternidade, afetuosamente construída, já que em algum canto, agulhas continuarão a tricotar para construir, errar, afastar a solidão, refletir amores, esquecer dores, desmanchar, concertar e continuar.

A vida segue. Da janela, avista-se o Ipê florido.


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Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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