O Tantra como possibilidade qualitativa de vivência da sexualidade na Terceira Idade

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Sentir-se amado é uma necessidade essencial aos seres humanos em toda e qualquer idade pela necessidade básica que todos temos de ter alguém que nos admire e nos dedique atenção. Neste sentido, amor e sexualidade são umbilicais.

Cláudia Bonfim *


O Tantra é uma das formas mais amorosas de vivermos nossa sexualidade de maneira qualitativa e significativa, em qualquer fase da vida, seja na juventude, na fase adulta ou na terceira idade.

No Tantra há, inclusive, o que as mulheres geralmente reivindicam (e que poderíamos chamar de uma preliminar e tanto). A massagem tântrica caracteriza-se como o conhecimento corporal de si e do outro. No Tantra, o foco da relação sexual deixa de ser a penetração; o aspecto central é o carinho, o encanto e a magia do toque: seja com as mãos, seja com os olhos, seja com a boca.

Segundo o Tantra não devemos fazer amor quando estamos excitados, parece loucura dizer isso, não? Por quê?

Porque se acredita que, se fizermos amor quando estamos excitados (e é quando geralmente fazemos), o sexo torna-se uma luta do corpo para aliviar uma necessidade instintiva básica, o que resulta, muitas vezes, em: mulheres insatisfeitas que não conseguiram atingir o orgasmo e homens aliviados porque colocaram a tensão para fora, mas, também insatisfeitos com o próprio desempenho, pois, na maioria das vezes, essa excitação culmina numa ejaculação precoce.

Por isso, no Tantra o ideal é fazer amor quando o corpo estiver calmo, relaxado, tranquilo, meditativo para que a relação sexual não seja apenas uma luta para aliviar as ansiedades da necessidade biológica primária. Seguindo essa lógica, quando a tensão não se faz presente, o prazer pode ser prolongado por horas e horas, ou seja, a ejaculação pode ser adiada.

O sexo tântrico pode dessa forma se configurar como uma possibilidade qualitativa e prazerosa de vivência da sexualidade, em todas as idades, inclusiva na terceira idade. Na verdade, ele se configura como uma forma de prazer sem necessidade de penetração, e esta pode acontecer após o momento da massagem tântrica ou não. E é também uma maneira de superarmos o reducionismo do ato sexual focado nas genitálias, pois o Tantra nos oferece possibilidades supremas de prazer através do corpo em sua totalidade. A sexualidade no Tantra é uma relação intensa e profunda, de fusão do corpo e da alma (um dissolvendo-se no outro, completando-se, uma ligação profunda de sentimentos), e a relação sexual não significa apenas alívio, mas revigoramento.

Quando se faz amor sem pressa, sem agressividade, sem luta, mas em completude, o prazer torna-se duradouro e intenso, mais profundo, provocando reações químicas indescritíveis e surpreendentes, descobertas, através da troca de energias físicas e espirituais que fluem nesse momento de plenitude.

Assim, o que para muitos, configura-se tão somente em um prazer homérico momentâneo, apenas antes e durante a relação, no Sexo Tântrico, passa a ser um prazer que se estende e se transforma em bem-estar, depois da relação sexual.

Se o sexo profano configura-se como uma luta, no Tantra o sexo configura-se como uma entrega plena e receptiva, que exige uma relação de profunda admiração e confiança mútua. Neste sentido, chega-se ao ápice de um prazer interminável quando você consegue sentir que o desejo, o encantamento e a admiração que o outro sente por você, não são restritos ao seu corpo, mas pela inteireza do seu ser.

Dessa forma, considerando a sexualidade como corpo e alma, o Tantra acaba por consolidar a visão que defendemos: a sexualidade pode e deve ser vivida intensa e plenamente inclusive na terceira idade.

O Tantra, que é algo que temos estudado apaixonadamente, por considerar que a sexualidade passa a ter um significado profundamente maior e sublime, nos momentos que conseguimos atingir essa completude dialética de corpo e alma: voracidade e calma: equilíbrio que tanto procuramos entre o sagrado e o profano. Entre a necessidade animal e humana do prazer e do amor.

Há muitas interpretações equivocadas sobre o Tantra. Alguns o consideram uma religião, outros o remetem ao sexo livre, outros o entendem como uma terapia sexual. Nós entendemos o Tantra como uma forma amorosa de atingir a consciência corporal.

O toque demonstra carinho, estimula, excita, gera e desperta sensações maravilhosas. Temos que deixar livre a alma e as mãos para demonstrar toda nossa sensualidade e a sensibilidade; e estas independem do fator idade, pois como já disse no artigo anterior: toda fase da vida tem formas específicas de encanto.

E quem não gosta de receber carinho? E gostar de carinho tem idade?

Não. Como já abordamos no artigo intitulado “Que história é essa que sexualidade tem idade?”, todos os seres humanos têm necessidade de se sentirem amados, e para nos sentirmos amados, as palavras não são suficientes; em alguns momentos elas até se fazem desnecessárias.

Há inclusive estudos sobre recém-nascidos, que mostram que os bebês que são acariciados pelos pais quase não choram, são mais sorridentes, quase não adoecem. Já, o contrário ocorre com aqueles que não foram estimulados pelo toque. Assim também ocorre com os adultos e com as pessoas que estão vivendo a melhor idade, as pessoas que sorriem mais, que se sentem amadas, que tem brilho no olhar, que vivem apaixonadas pela vida, por si mesmas, por outras pessoas, exalam vitalidade pelos poros. Lembro que certa vez fui com minha vovó ao médico. Ela estava com 80 anos e ele me disse: – “Sabe o que fez a vovó viver até agora? Esse sorriso estampado no rosto dela! Em cada sorriso que ela dá a vida dela se estende.” Eu, que já acreditava nisso, não tive qualquer dúvida. Então, permitam-se: amar-se, amar e serem amados em qualquer idade, afinal “o que qualifica uma vida é a quantidade de amor que se dá e se recebe”.

Pense no quanto é bom ser tocado por quem amamos: seja um afago no rosto, seja um toque de carinho nas mãos, seja um cafuné na cabeça, seja um toque mais sensual no corpo; é uma sensação inigualável que experimentamos quando tocamos ou somos tocados por aqueles que amamos. Tocar e ser tocado significa trocar sentimentos, energia, alegria, vida. O toque é um laço, que se enlaça, e entrelaça a vida. E expressão plena de amor e sexualidade em todos os sentidos.

No Tantra, a sexualidade torna-se uma prática sagrada, e é vivida com profunda consciência. De forma que, o ato de fazer amor rompe julgamentos, preconceitos, supera limitações, liberta os pensamentos, sentimentos e os desejos mais intensos e profundos.

Durante o Tantra, permita-se usar todos os seus sentidos. Use e abuse do tato: tocar de maneira carinhosa, sensual, sedutora e sensível; do olfato: o cheiro da pele, do sexo (feromônios); da visão: enamorar com olhar, venerar, endeusar, seduzir, encantar-se e se permitir ser encantado; o paladar: saborear o outro com o corpo e com alma.

No Tantra, os toques são de uma sutileza, sensualidade e suavidade que conseguem ultrapassar os limites da pele. A massagem tântrica alimenta o erotismo, tão essencial para uma vida sexual plena. Nesse momento de comunhão e entrega, aprendemos a estimular e ser estimulado, a seduzir e se deixar ser seduzido. Através do toque, do olhar, do cheiro, do paladar conseguimos atingir o orgasmo, não como êxtase momentâneo e passageiro, mas profundo, o orgasmo não apenas como expressão máxima do prazer corporal, mas como expressão e experimentação máxima do amor, quando a alma entra em estado de êxtase.

A massagem tântrica nos mostra possibilidades de experimentar temperos e sabores nunca antes permitidos ou imaginados. Nos proporciona novas formas de sentir, olhar, tocar, amar. Por isso, consideramos o Tantra a maneira mais sensual, sedutora, prazerosa e erótica de fazer amor e de viver a inteireza da nossa sexualidade de forma consciente e amorosa.

Vocês já reparam que dois amantes (referindo-se a duas pessoas que se amam profundamente), não precisam necessariamente de palavras para expressar-se um ao outro? E sabem por quê? Porque o amor é uma linguagem silenciosa. Os amantes olham-se, tocam-se, entregam-se de maneira tão profunda que não necessitam falar, há uma harmonia intensa do corpo e da alma que torna desnecessárias as palavras.

Interessante refletir um pouco mais sobre isso. Nunca acreditamos que a fala seria a melhor forma de expressão de um sentimento. O silêncio, o olhar, o toque, o gesto revelam e expressam o que sentimos e o que as pessoas sentem por nós da maneira mais profunda, intensa e verdadeira que podemos experimentar.

Esses momentos em que o corpo, os olhos e as mãos se expressam, falam mais do que milhares de palavras. Porque são expressões sentidas, saboreadas, digeridas, incorporadas.

Pensem no momento de êxtase gritamos, para liberar as tensões, mas no momento que experimentamos a paz, silenciamos.

Num momento de expressão profunda de amor você precisa, de fato, falar?

Penso que acariciar o rosto, segurar a mão da pessoa amada, um abraço apertado, corpos emaranhados, entrelaçados ou debruçados um sobre o outro, corpos e alma nus. Nenhuma palavra expressaria sentimento maior: uma vez que basta sentir a presença do outro, nas próprias entranhas.

Permita-se entender e viver uma sexualidade verdadeiramente humana, pautada nos sentimentos, e não na carência (sentimental ou física). Isso não tem idade, basta permitir florescer sua sensibilidade.

Aprenda a ser inteiro e não fragmento, a compreender a inteireza, a naturalidade divina e a beleza da sexualidade. A viver sua sexualidade com significado e não pela metade, a ouvir seus sentidos, sem ser meramente instintivo, mas para que a sexualidade tenha de fato sentido!

Desejamos que você consiga sentir e entender que a sexualidade humana, em plenitude, se dá na totalidade das nossas relações afetivas e prazerosas. Embora o ato sexual em si, seja um momento sublime, de uma beleza estonteante, igualmente, ou até mais belo, sagrado e prazeroso é a comunhão de amor entre mãe e filho, um momento de expressão de afeto entre dois amigos.

Uma mãe experimentando o ato de amor e a sensação única de amamentar o próprio filho, de ser alimento para o corpo e sustento para a alma é uma das expressões mais plenas da sexualidade. O Sugar do seio de uma mãe pelo filho é a mais bela, pura e natural prova da grandeza da sexualidade que é a celebração da vida na totalidade. Ou seja, amamentar, amar, saborear um olhar, deliciar-se num sorriso, sentir o calor do abraço de um amigo ou de amor, o prazer de uma deliciosa gargalhada, a sensação inexplicável de chorar de alegria, são algumas das inúmeras formas de manifestação e expressão da totalidade da sexualidade que é, essencial e inerente, parte visceral da gente! E digo isso, para mostrar que nossa sexualidade não se resume em ato sexual, nem em penetração, nem em relações de homem/mulher.

Nossa sexualidade é inerente à vida, nasce conosco e vive conosco, e é vivida em todas as relações que envolvam afeto. Isso significa que, toda forma de prazer envolve nossa sexualidade e nos mantém qualitativamente vivos! Portanto, novamente afirmo: a vivência da sexualidade não se limita pela quantidade anos de vida que você possui, ela é vivida no útero, na infância, na adolescência, na juventude, na fase adulta e na terceira idade, porque sexualidade, na totalidade, é sinônimo de amor. E amor não tem cor, nem gênero e muito menos idade! A vida é sempre uma prazerosa possibilidade.

Cláudia Bonfim é Doutora em História, Filosofia e Educação (UNICAMP); Mestre em Educação, Especialista em Metodologia e Didática do Ensino, Licenciada em Biologia (UENP-FAFICOP); Vice-Presidente da Associação Brasileira de Educação Sexual (ABRADES); Docente da Faculdade Dom Bosco de Cornélio Procópio – PR. Blog: Acesse Aqui

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