O que você considera uma aposentadoria feliz?

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Como se planeja ou se planejou para viver esse período? Quais suas expectativas? Uma feliz aposentadoria seria ajudar os filhos a cuidar dos netos? Viajar com a família? Encontrar os amigos? Aproveitar o tempo livre para ler, estudar, ir ao cinema, passear…


Rir. Rir muito, se divertir, ser solidário, amar, compartilhar experiências, doar. São tantas as perguntas, tantos questionamentos, tantos planos, não? Infinitas possibilidades se abrem com a chegada da aposentadoria. Mas quem é esse aposentado que se vê diante de tantos questionamentos, planos e possibilidades? Uma parcela pequena da população formada por privilegiados que ao longo da vida, em troca de muito trabalho, angariou alguns bens, fez uma poupança, pagou impostos pesados e chega aos 60 anos com direitos adquiridos para usufruir de um bom salário para bancar seus sonhos. Mesmo assim, privilegiados.

Por quê? Porque a maioria aposenta com um mísero salário-mínimo e sem poupança alguma. E mesmo assim não está livre dos urubus, recebe mil ligações de bancos oferecendo empréstimo consignado, pré-aprovado, taxas e juros especiais… Quando vê, até esse parco salário foi garfado e a aposentadoria vira fumaça. Aposentadoria virtual, somente no papel, pois se parar de trabalhar não come.  

O filme A fuga dos avós  (Joyeuse Retraite), de 2019, foca um casal privilegiado (Marilou e Philippe Blanchot – respectivamente Michèle Laroque e Thierry Lhermitte) que não vê a hora de se aposentar para aproveitar essa fase da vida com independência, autonomia e liberdade. A ideia é dar adeus a tudo: adeus ao consultório, família, amigos, cidade, Paris. Vender a casa na França e comprar outra em Portugal. Viver de sombra, água fresca e sem fado, sem compromisso com nada, apenas com a alegria do viver, com eles mesmos.

Um casal bem estruturado, cheio de saúde e com uma boa poupança para usufruir tudo o que desejar. Ela, uma profissional liberal, dentista; ele, executivo. Tudo planejado, agente imobiliário previamente selecionado, plano em ação. Agora é contar aos filhos. Decisão está tomada, sem volta. Não tem carinha bonita, choro de neto, chantagem de filho ou filha que possa deter essa feliz aposentaria há anos planejada.

Planos, convenhamos, não costumam estar muito de acordo com a realidade, por isso são planos. Vamos aos filhos do casal aposentado: Cécile (Nicole Ferroni) vive estressada, não dá conta de cuidar dos filhos e do marido (sim, ela é cuidadora), precisa dos avós porque trabalha em uma ILPI que toma todo o tempo do mundo. Mas encontra tempo para encontrar com o amante; Martin (Gèrèmy Crèdeville) vai ser papai, vem aí mais um netinho.

O casal não está completamente livre para sair pelo mundo porque a mãe de Philippe, Mamilini (Judith Magre) não está tão bem quanto o filho imagina, na real está mal, bem mal, com os dias contados.

Uma filha enrolada, uma nora grávida, uma mãe para morrer. Este é o quadro com o qual o casal aposentado se depara, mas nada irá contê-los. Para isso conta com a assessoria de um casal mais velho que soube se livrar de tudo isso para viver a vida. Sim, bons conselhos de um casal experiente que não se deixou escravizar na velhice, que soube se reinventar, se livrar da ditadura dos netos, e que vive uma verdadeira lua de mel contínua.

O filme é hilariante. O título em português não faz muito sentido (A Fuga dos Avós), mas paciência. O primeiro grande problema enfrentado pelo casal é como e quando dar a notícia aos filhos, netos e agregados. Este dilema percorrerá o filme inteiro. O casal está vendendo a casa, está indo embora, mas nunca encontra o momento certo para passar a informação porque todos têm notícias mais importantes e urgentes para dar.

O casal tem 62 anos. Com essa idade, convenhamos, ninguém se acha velho. Mas tem uma personagem sem noção que faz questão de jogar luz nas sombras: meu tio aposentou com 61 anos, cheio de planos, seis meses depois teve um ataque cardíaco e morreu sem aproveitar a aposentadoria; mas vocês já viveram bastante, aproveitaram a vida, não é verdade?

A ideia que a partir dos 60 anos podemos ser descartados porque já vivemos o suficiente está muito presente na vida dos nossos administradores, inclusive nos que têm mais de 60, mas que não se acham velhos (porque velho é sempre o outro). 

O discurso do filho vai em outra linha, nega a velhice: vocês não envelhecem, são jovens há mais tempo do que nós… Mas presenteia à mãe com um colar inteligente que detecta alterações corporais e está ligado a uma central de emergência. Se a mãe passa mal, profissionais da saúde são automaticamente acionados para socorrê-la.

O filme é cheio de surpresas que renderão boas gargalhadas, mas o final não surpreende. Podem apostar suas fichas sem medo em quem vence essa queda de braço: avós, filhos ou netos? Quem vai se submeter? Nesse sentido o filme não ousa nadinha, mas é diversão garantida do início ao fim com direito a algumas lágrimas.

Fotos: divulgação


Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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