O que um imóvel deve contemplar para abrigar uma residência sênior?

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Imóveis grandes podem ser adaptados para residências sêniores, desde que ofereçam funcionalidade, conforto, segurança e beleza, tornando este novo ciclo muito mais aceitável e feliz.


Com o aumento da população idosa no Brasil, ficou mais evidente a necessidade de empreendimentos destinados a oferecer serviços de moradia e cuidados, em especial quando há quadros de maior dependência e fragilidade. No entanto, muitos deles têm sido implantados em imóveis que originalmente eram destinados a uma única família e, portanto, não apresentam um programa arquitetônico adequado. Muitas vezes as adaptações são feitas sem orientação técnica, o que resulta em soluções em desacordo com a norma ou sem harmonia com a estética de uma residência, tornando-se mais parecido com uma clínica médica ou um pequeno hospital.

A ideia de que a velhice representa perda de saúde pode trazer, para muitos, a imagem de que a residência deva ser neutra em cores, destacando a assepsia necessária em estabelecimentos médicos. Assim, o uso de camas de ferro tubular pintadas de branco, evitando cortinas de tecido e a exposição de objetos para que não haja acúmulo de poeira, remetem a ambientes hospitalares. Igualmente os pisos são frios e as paredes apresentam poucos elementos, tal como nos banheiros, sem atrativos que tornem os ambientes estimulantes.

Por outro lado, há os que procuram caracterizar a casa como sendo “dos avós”, com complementos florais até exagerados, revestimentos estampados e quadros com imagens clássicas, sugerindo que todos estejam vivendo um passado restaurado numa nova localização. Outra situação recorrente é encontrar muitos brinquedos nos dormitórios, especialmente bonecas nas camas das idosas. Se algumas delas as têm como objetos de coleção, ou quando a demência torna o passado confuso e essas lembranças são importantes, a manutenção desses acessórios se justifica. Portanto, é preciso avaliar a pertinência de determinadas composições, incluindo a escolha de padronagens marcantes ou cores muito fortes, que podem comprometer o bem-estar dos conviventes.

As características de um imóvel para ser reformado e adaptado para abrigar uma residência sênior devem contemplar soluções contemporâneas sem exageros ou caricaturas, mesmo quando é preciso adaptações em aberturas de portas, escadas e pisos. Dividir um desnível original de dois ou três degraus e criar uma rampa vai exigir corrimãos que podem evidenciar que os usuários são frágeis, provocando a sensação de perda ao invés de focar na segurança. O estudo da planta original pode caracterizar mudanças de uso e trazer soluções diferentes das mais óbvias, tais como alterar o trajeto da entrada e tornar o caminho mais acessível. Cozinhas devem ser funcionais considerando a produção de alimentos para um grupo numeroso, mas os ruídos devem ser amenizados por materiais de isolamento adequados. 

Enfim, imóveis grandes podem ser adaptados para residências sêniores, desde que se entenda que os moradores estarão vivendo uma nova experiência e, portanto, oferecer funcionalidade, conforto, segurança e beleza pode tornar este novo ciclo muito mais aceitável e feliz.

Foto destaque de Tima Miroshnichenko/Pexels


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Maria Luisa Trindade Bestetti

Arquiteta e professora na graduação e no mestrado da Gerontologia da USP, tem mestrado e doutorado pela FAU USP, com pós-doutorado pela Universidade de Lisboa. Pesquisa sobre alternativas de moradia na velhice e acredita que novos modelos surgirão pelas mãos de profissionais que estudam a fundo as questões da Gerontologia Ambiental. https://sermodular.com.br/. E-mal: [email protected]

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