O que seria um bom final de vida?

Pensar na morte é assustador, mas planejar com antecedência é prático e deixa mais espaço para a paz de espírito em nossos últimos dias. Em uma conversa solene e cuidadosa, Judy MacDonald Johnston compartilha 5 práticas para planejar um bom final de vida. Esta palestra foi apresentada em uma conferência oficial do TED 2013.

Judy MacDonald Johnston (*)


Todos nós pensamos muito em como viver bem. Eu gostaria de falar sobre aumentar nossas chances de morrer bem. Não sou uma geriatra. Crio programas de leitura para a pré-escola. O que sei sobre este assunto vem de um estudo qualitativo com uma amostragem de dois. Nos últimos anos, ajudei dois amigos a ter o fim de vida que queriam. Jim e Shirley Modini passaram os 68 anos de seu casamento vivendo serenamente em seu rancho de 1.700 acres, nas montanhas do Condado de Sonoma. Eles mantinham apenas o gado necessário para pagar as contas, a fim de que a maior parte do rancho permanecesse como um refúgio para os ursos, leões e tantas outras coisas que viviam lá. Esse era o sonho deles.

Conheci Jim e Shirley quando tinham uns 80 anos. Ambos eram filhos únicos e escolheram não ter filhos. Quando ficamos amigos, tornei-me a administradora deles e a defensora nos assuntos médicos, mas, principalmente, tornei-me a pessoa que administrou suas experiências de fim de vida. E aprendemos algumas coisas sobre como ter um bom final.

Nos últimos anos, Jim e Shirley encararam cânceres, fraturas, infecções, doenças neurológicas. É verdade. Ao final, nossas funções corporais e independência caem para zero. O que descobrimos é que, com planejamento e com as pessoas certas, a qualidade de vida pode permanecer alta. O começo do fim é desencadeado por uma consciência de mortalidade, e durante esse tempo, Jim e Shirley escolheram a  ACR preservação da natureza para assumir o rancho quando tivessem partido. Isso deu-lhes tranquilidade para prosseguir. Pode ser um diagnóstico. Pode ser sua intuição. Mas um dia, você vai dizer: “Essa coisa vai me pegar”. Jim e Shirley passaram esse tempo avisando aos amigos que seu fim estava próximo e que estavam bem com isso.

Morrer de câncer e morrer de uma doença neurológica são coisas diferentes. Em ambos os casos, os últimos dias são uma reafirmação silenciosa. Jim morreu primeiro. Ele estava consciente até o fim, mas no último dia ele não conseguia falar. Pelos seus olhos, sabíamos que ele precisava ouvir novamente: “Está tudo arrumado, Jim. Vamos cuidar de Shirley bem aqui, no rancho, e a ACR vai cuidar da vida selvagem para sempre”.

Dessa experiência, vou compartilhar cinco práticas. Coloquei planilhas online, então, se quiser, você pode planejar seu próprio final.

1 – Começa com um plano. A maioria das pessoas diz: “Eu gostaria de morrer em casa”. 80% dos americanos morrem em um hospital ou em uma casa de repouso. Dizer que gostaríamos de morrer em casa não é um plano. Muitas pessoas dizem: “Se eu ficar assim, me dê um tiro”. Isso também não é um plano; isso é ilegal. Um plano compreende responder honestamente questões sobre o fim que você quer. Onde você quer estar quando não for mais independente? O que você quer em termos de intervenção médica? E quem vai se certificar de que seu plano seja seguido?

2 – Você precisa de defensores. Ter mais de um aumenta suas chances de ter o fim que você quer. Não presuma que a escolha natural é o cônjuge ou os filhos. Você quer alguém que tenha tempo e disponibilidade para fazer esse trabalho bem, e você quer alguém que possa trabalhar com as pessoas sob a pressão de uma situação que está sempre mudando.

3 – A prontidão do hospital é crucial. É provável que você seja encaminhado ao pronto-socorro, e você quer isso certo. Prepare um resumo de uma página com seu histórico médico, medicamentos e informações do médico. Ponha isso em um envelope vistoso com cópias de seus cartões de seguro, sua procuração e sua ordem de não ressuscitação. Faça com que seus defensores tenham uma cópia no carro deles. Cole esse conjunto em sua geladeira. Quando você aparece no pronto-socorro com esse envelope, sua admissão é simplificada na prática.

4 – Você vai precisar de cuidadores. Você precisará avaliar sua personalidade e situação financeira para determinar se uma comunidade de assistência a idosos ou ficar em casa é sua melhor opção. Em ambos os casos, não se acomode. Passamos por uma série de cuidadores não tão bons antes de encontrarmos a equipe perfeita, comandada por Marsha, que não deixará você ganhar no bingo só porque você está morrendo, mas irá fazer vídeos de seu rancho para você quando você não puder ir lá, e Caitlin, que não deixará você perder os exercícios matinais, mas sabe quando você precisa ouvir que sua esposa está em boas mãos.

5 – isso? Em minha experiência, você vai querer ouvir que, seja qual for a sua preocupação, vai ficar tudo bem. Quando você acreditar que está bem para ir, você irá.

Então, este é um assunto que normalmente desperta medo e negação. O que aprendi é que, se gastamos algum tempo planejando o fim da vida, temos mais chance de manter nossa qualidade de vida. Aqui estão Jim e Shirley algumas semanas antes de morrer, comemorando um aniversário que ele não esperava ver.

Jim e Shirley tiveram um bom fim de vida, e, ao compartilhar a história deles com vocês, espero aumentar nossas chances de fazer o mesmo.

Obrigada.

(*)Judy MacDonald Johnston é editora e co-fundadora da Publicação Infantil Blue Lake, que desenvolve ferramentas de leitura educacional para pré-escolares. O credo de Johnston, “ama as palavras cedo”, e seu foco nos primeiros anos de vida, é um lampejo interessante para sua outra paixão: planejar o fim da vida. O projeto paralelo de Johnston, Good [End of] Life], não lida com símbolos de decodificação de bebês felizes, mas com um tema muito mais mórbido: a morte. Good [Fim de] Vida é um conjunto de planilhas e práticas online que visam ajudar a lidar com questões difíceis – como quem deve falar por você, se você não pode falar. Fala realizada no TED2013. Tradução de Isabel Villan e revisão de Leonardo Silva.


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