O que pode tornar as cidades mais amigáveis às gerações?

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Como criar ruas para pedestres de todas as gerações que compartilham espaços com carros e bicicletas, utilizando esses espaços ao máximo para realizar atividades diversas?


Quando se fala em cidades amigas dos idosos, geralmente se faz referência à estratégia da OMS, que definiu pelo protocolo de Vancouver as oito áreas que envolvem a vida dos cidadãos de todas as gerações: espaços abertos e prédios; transporte; moradia; participação social; respeito e inclusão social; participação cívica e emprego; comunicação e informação; e apoio comunitário e serviços de saúde. Se é bom para os idosos, será bom durante todo o processo de envelhecimento, já que manter boas condições de conforto e segurança garante um ciclo de vida bem-sucedido.

A cidade contemporânea tem sido reavaliada pela saturação de veículos automotores em detrimento do transporte de massa, o que tornou o espaço urbano segmentado e com limitações de áreas seguras para o pedestre, originalmente o elemento que deveria ser considerado prioritário no conjunto das atividades de trânsito. Afinal, seja qual for o meio de transporte, ele serve ao cidadão, em muitos casos criando condições hostis e desgastantes.

Cidades caminháveis, para pessoas de todas as gerações, tem provocado os gestores a empreenderem transformações em muitos centros urbanos. Nova Iorque recebeu uma profunda alteração na hierarquia das vias públicas no coração da ilha de Manhattan, no entorno da Time Square. Outras cidades na Europa já traziam esses conceitos, considerando a mudança de fluxos e a necessária reorganização do trânsito, mas colocando melhores soluções para garantir segurança aos seus cidadãos. Mas como criar ruas para pedestres que compartilham espaços com carros e bicicletas, utilizando esses espaços ao máximo para realizar atividades diversas?

Woonerf é um termo de origem holandesa e significa uma rua destinada ao convívio, com divisões sutis do espaço destinado aos veículos e às pessoas. De acordo com o arquiteto Eduardo de Sousa e Silva, o conceito renova antigas soluções de cidades.

Em tese as ruas antigas já funcionavam como as Woonerfs, lugares de encontro e extensão das salas de estar de suas residências, mas com o passar do tempo foram ficando cada vez menos amigáveis (às gerações)…

No Brasil, a experiência mais significativa está em Pedra Branca, um bairro de Palhoça, município de Santa Catarina vizinho a Florianópolis. O núcleo central, onde se concentram o comércio e os serviços, tem ruas que exigem baixa velocidade pois não há guias de calçadas, mas mobiliário urbano que permite a convivência em diferentes arranjos e onde a travessia de pedestres se mistura com o fluxo de veículos. É a retomada da rua pelas pessoas, para que efetivamente se apropriem da extensão das suas casas.

Se antes as ruas eram das pessoas e depois dos cavalos, agora por décadas residiriam no controle dos carros.

Soluções assim podem tornar as cidades mais amigáveis a todas as gerações, mas evidentemente as mudanças são feitas aos poucos. O importante é que se considere que a cidade é a casa do cidadão, que reconhece no seu bairro a extensão do seu espaço privado para envelhecer com saúde e bem-estar.

Imagem destaque de Brian Merrill/Pixabay


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Maria Luisa Trindade Bestetti

Arquiteta e professora na graduação e no mestrado da Gerontologia da USP, tem mestrado e doutorado pela FAU USP, com pós-doutorado pela Universidade de Lisboa. Pesquisa sobre alternativas de moradia na velhice e acredita que novos modelos surgirão pelas mãos de profissionais que estudam a fundo as questões da Gerontologia Ambiental. https://sermodular.com.br/. E-mal: [email protected]

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