O que os residenciais poderiam oferecer como diferenciais para idosos com Alzheimer?

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Urgem modelos de residenciais baseados em novas tecnologias, com diferenciais que permitam a convivência espontânea e de acordo com os desejos individuais.


Nesta vila, as pessoas com demência levarão uma vida ativa. Elas encontrarão uma forma de integridade, social, humana. Elas vão às compras, ao cabeleireiro, ao bistrô, ao restaurante, ao teatro. Elas vão se divertir. O que constitui uma forma extraordinária de terapia.” (Jean-François Dartigues, Professor do Hospital Universitário de Bordéus)


Temos encontrado cada vez mais pesquisadores interessados em buscar soluções para moradia de idosos, especialmente por considerar a heterogeneidade da velhice e a falta de opções adequadas às diferentes necessidades. Neste período de pandemia esse tema foi ainda mais discutido, visto que o aprendizado relativo à prevenção demonstrou que os idosos poderiam ser as maiores vítimas, determinando estratégias para que as moradias institucionais mantivessem a melhor condição de bem-estar.

Ao considerarmos pessoas com doença de Alzheimer, as iniciativas para a manutenção de uma boa condição de vida já vêm sendo implementadas há algum tempo, embora na maioria das vezes envolva a contenção para proteger de incidentes inesperados. O artigo publicado no Portal do Envelhecimento “Uma vila francesa faz com que pessoas com Alzheimer se sintam em casa” descreve uma experiência recente de residenciais na França, baseada no modelo holandês que tem inspirado muitas iniciativas ao redor do mundo.

Este estabelecimento para idosos dependentes, que na França a sigla é EHPAD (Établissement d’Hébergement pour Personnes Agées Dépendantes), é único no país e desafiou a epidemia de Covid-19 abrindo suas portas na última primavera para acolher 120 pessoas, além de tantos cuidadores e voluntários e equipe de enfermagem sem avental branco. Inspirado na Holanda, esse modelo de ILPI (Instituição de Longa Permanências para Idosos) funciona como um laboratório e é acompanhado de perto por equipes do Japão e da Itália, dois países que querem adotar esse tipo de centro experimental em seus respectivos países.

A ideia baseia-se na criação de uma comunidade com a menor restrição possível, estimulando a autonomia em um sistema que mantém a proteção, mas oferece liberdade para percorrer diferentes espaços e manter vínculos com pessoas e lugares. O modelo holandês oferece a possibilidade de fazer compras na própria comunidade, mantendo uma rotina ativa.

Na Holanda, o “De Hogeweyk” foi a primeira vila, inaugurada em 2009, perto de Amsterdam. A visão de Hogeweyk sobre o cuidado é baseada na vida cotidiana da sociedade, em que viver significa ter seu próprio espaço para morar e administrar sua própria casa. As pessoas com Alzheimer convivem com outras pessoas compartilhando as mesmas ideias e valores de vida. Isso torna o lugar onde se vive um lar.

No Brasil ainda temos poucas opções, sendo que as ILPIs recebem pessoas em situações diversas de dependência, o que pode significar um atendimento semelhante a todas, mesmo que suas necessidades sejam diferentes.

residencial

Urgem modelos baseados em novas tecnologias, com diferenciais que permitam a convivência espontânea e de acordo com os desejos individuais. Poder contar com moradores voluntários, que participem das atividades e sintam-se úteis, independe se ele vai lembrar ou não: o que importa é ser feliz.

Fotos: divulgação


Maria Luisa Trindade Bestetti

Arquiteta e professora na graduação e no mestrado da Gerontologia da USP, tem mestrado e doutorado pela FAU USP, com pós-doutorado pela Universidade de Lisboa. Pesquisa sobre alternativas de moradia na velhice e acredita que novos modelos surgirão pelas mãos de profissionais que estudam a fundo as questões da Gerontologia Ambiental. https://sermodular.com.br/. E-mal: [email protected]

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