O que fazer para investir em um futuro confortável na velhice?

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Pensar onde e como morar na velhice deveria estar entre os planos futuros de todos, mas em geral são tardios e terceirizados, o que pode criar impactos ruins.


A mídia tem veiculado uma propaganda onde diversas questões que justificam nossos investimentos, sejam financeiros ou de cuidados, estão depositadas nesse tempo que chamamos de futuro. Ao elucubrar sobre isso, fica evidente que o início deste ensaio já é passado, e que o ponto final, neste momento, ainda é futuro. Se a velhice for considerada futuro para os jovens, ela parece distante e não os preocupa, mesmo quando convivem com pais, avós, vizinhos, colegas de trabalho, pessoas que já demonstram intenção de alterar suas rotinas pela aposentadoria e que desejam percorrer novos caminhos com seu tempo livre. Esses têm a impressão de que podem “descansar” depois de tantos anos no mundo do trabalho e que, evidentemente, estão deixando espaço para os novos profissionais entrantes nesse mercado tão competitivo.

Futuro é um conceito curioso, e é por ele que fazemos tudo, desde percorrermos um longo caminho de formação profissional até consultar profissionais de saúde. É em nome dele que se economiza para as crises e contratempos, conhecimentos são prospectados para diferenciar carreiras, que se vota nos representantes para que o país alcance progresso e o ideal de justiça social, novas famílias são formadas e filhos são incentivados a continuarem histórias inacabadas. É em nome do futuro que se constrói patrimônio, antes como meio de garantir estabilidade aos descendentes e, hoje, como forma de sobrevivência com dignidade.

Imóveis são adquiridos como garantia de ter onde morar, o que ao invés de oferecer abrigo, muitas vezes engessa e impede o proprietário de alçar novos voos. Ter onde morar parece o fim da história, uma grande conquista, a meta atingida. Mas esse lugar pode ser chamado de lar? O que representa estar num imóvel que não atende necessidades e desejos de moradores idosos, tanto pelo desgaste que naturalmente terá pelo próprio uso quanto pelas mudanças da dinâmica familiar, que impõem espaços e móveis que, com o tempo, passam a ser desnecessários?

Passado, presente e futuro são referências abstratas que demarcam a passagem do tempo, ao longo do qual a história de cada pessoa é escrita. O passado traz momentos memoráveis e outros que seriam melhores se esquecidos e, apesar de muitos desses momentos estarem projetados em cenários variados, a moradia é aquele onde geralmente há as referências mais importantes da intimidade e do apego ao lugar.

O presente é transição permanente, mas é nele que os planos para o futuro são construídos. A manutenção do lugar tal qual tem servido por muito tempo, apesar das mudanças sociais e econômicas, pode estabelecer um vínculo com o lugar que impede a flexibilização e a busca para modos de morar mais adequados.

Pensar onde e como morar na velhice deveria estar entre os planos futuros de todos, mas em geral são tardios e terceirizados, o que pode criar impactos ruins. Ser modular ao pensar na moradia garante que desejos e necessidades mantenham o bem-estar, a saúde e, principalmente, a felicidade.

Foto destaque de Alex CA/Pexels


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Maria Luisa Trindade Bestetti

Arquiteta e professora na graduação e no mestrado da Gerontologia da USP, tem mestrado e doutorado pela FAU USP, com pós-doutorado pela Universidade de Lisboa. Pesquisa sobre alternativas de moradia na velhice e acredita que novos modelos surgirão pelas mãos de profissionais que estudam a fundo as questões da Gerontologia Ambiental. https://sermodular.com.br/. E-mal: [email protected]

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