O poder intergeracional de Elza Soares

A Virada Cultural é um evento anual promovido desde 2005 pela prefeitura de São Paulo com o intuito de promover na cidade, 24 horas ininterruptas de eventos culturais dos mais diversos tipos, como espetáculos musicais, peças de teatro, exposições de arte e história, entre outros. A Virada tem levado atrações de primeira linha a cidadãos de todas as classes sociais e em diversas regiões da cidade. Em 2016, destaca-se Criolo, Valesca Popozuda e Maria Rita.

Yuri Pomeranz *

 

o-poder-intergeracional-de-elza-soaresEntre os jovens Criolo, Valesca Popozuda e Maria Rita, eis que na Virada Cultural de 2016 surge Elza Soares, veterana da música brasileira e inspiração para tantos novos músicos que ainda engatinham em suas carreiras artísticas. Seu legado é gigantesco: desde o início dos anos 60 ela apaixona e influencia cantoras e cantores das mais variadas gerações, tornando-se uma espécie de madrinha da MPB. Na madrugada de 21 para 22 de maio, noite da sua apresentação na Virada, não foi diferente: Elza lotou o palco da Avenida São João e comoveu o público com sua voz.

Não é à toa: aos 85 anos, a cantora possui fãs da sua época jazz de “Bossa Negra” (1960), do samba-funk de “Samba, Suor e Raça” (1972), dos embalos de “Língua” junto com Caetano Veloso (1984), ou dos sambas de raiz que sempre cantou ao longo de sua carreira. Seu legado, por si só, já garantiria uma Avenida São João lotada. Mas ao longo do show ficava fácil perceber que não era só isso.

Claro, Elza flertou com o samba clássico cantando “O Malandro”, arrancando o coro de “La-laia” da plateia; mas a grande atração da noite foram as canções de seu novo disco, “A Mulher do Fim do Mundo”, lançado no ano passado. Nele, sem abandonar suas raízes no samba, na bossa-negra ou no funk, a cantora traz uma nova banda, novos arranjos e, acima de tudo, novas letras. No álbum, Elza canta sobre o que é o Brasil nos dias atuais: a corrupção, a violência contra o povo negro, a violência contra a mulher, a inquietação nas ruas. “A Mulher do Fim do Mundo” é um retrato visceral do presente. E, assim como o disco, o show na Virada foi intenso. “Vamo fazer barulho para acordar o pessoal!”, gritava Elza.

Sua voz está tão potente como antes, porém mais rouca e grave, o que conferia a ela certa autoridade. Tanto a sua banda como o público eram formados por pessoas mais jovens que ela, pertencendo desde a adolescência até a terceira idade. A cantora, então, assumia um papel de líder intergeracional, como se aglutinasse representantes de diferentes idades em um só coro. Se aos seus 85 anos ela teve a ousadia de tocar nas feridas que ainda estão abertas na sociedade, na noite de sábado ela colheu seus frutos: uma multidão de jovens e idosos que vê nela uma figura inspiradora.

Eu, no meio daquela multidão, mal conseguia ver o palco – de tão lotado, mal conseguia olhar o telão. Porém, conseguia ouvir a música e os gritos de Elza que parecia tanto uma figura pertencente à história da música quanto aos tempos atuais do Brasil. Ao meu redor reuniam-se sambistas e punks, velhos e jovens, que compartilhavam a admiração pela artista e cantavam de cor as músicas de “A Mulher do Fim do Mundo”.

Se mal pude enxergar o que acontecia no palco, em compensação vi muito bem o tamanho do público que encheu a Avenida São João para ver a artista, cantando suas novas músicas. Senti que, mais importante do que eu chegar lá na frente, o melhor acontecia: Elza Soares continuava a comover multidões com suas performances, mostrando o poder que uma pessoa aos seus 85 anos tem de juntar diferentes gerações com um olhar único.

* Yuri Pomeranz é publictário e entusiasta da musicologia, e escreve no blog. Acesse Aqui

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