O perfume da Dona Helena

O cheiro nos arremata ao nosso íntimo e aflora forças e sensações que mal sabíamos que existiam. O perfume de Dona Helena é suave, rosa e amoroso e tem o poder de me conectar à Helena que vive além do Alzheimer.

 

Entro na loja de cosméticos naturais e peço ajuda à atendente para encontrar o perfume que procuro. Dona Helena participa dos encontros de Arteterapia para idosos com Alzheimer e outras demências toda segunda e terça da semana e ela sempre chega ao atelier do museu que trabalho arrumada e muito perfumada.

Com o olhar perdido e já envolto em uma névoa que insiste em isolar seu viver, vou ao seu encontro sempre com um sorriso que pretende acolher sua insegurança.

-Dona Helena! Que alegria vê-la aqui comigo! Que bom que a senhora veio pintar aqui ao meu lado!

É com um abraço que selamos nosso afeto e iniciamos as atividades artísticas do dia, mas confesso que seu perfume parece colaborar para despertar em mim um desejo de ultrapassar os limites que separam nossa realidade, do mundo percebido por ela.

Perfume suave e amoroso, mesmo sabendo que este não parece ser um adjetivo possível de ser vinculado ao cheiro.

Na loja a vendedora tenta me ajudar a descobrir o tal perfume. Sabia que era daquela marca e que sua cor era rosa.

– Temos o rosa claro, o rosa escuro… Você deve gostar muito da Dona Helena, não é?

No meu pensamento respondia a indagação: Sim! Gosto muito dela. Ouvia a vendedora com meu nariz já coçando pelo empenho em desvendar tal essência até que o tal cheiro amoroso invadiu minhas narinas:

– Achei! É este o cheiro que procuro!

Comprei o perfume e cheirosamente fui a espera das idosas que logo mais estariam chegando ao atelier.

Ao receber Dona Helena fui logo contando a novidade:

– Dona Helena! Sinta! Estou usando o mesmo perfume que a senhora! Temos o mesmo cheiro!

Talvez o cheiro que ela sentiu em mim tenha despertado nela, algo que subitamente parecia tê-la tirado daquela névoa tão sua companheira. Ela parecia ter me percebido, de fato naquela realidade do momento vivido por nós duas.

Era o cheiro amoroso que nos envolvia e que a trouxe até mim, mesmo que por poucos instantes.

Começamos a trabalhar no atelier e a arte fez o seu papel oferecendo à ela a oportunidade de existir socialmente e de ser transportada para um lugar sutil, mas capaz de conversar com ela mesma. O outro mundo, tão peculiar a quem vive e convive com o Alzheimer, continua a insistir em transtornar toda e qualquer realidade. A Arte surge como um refúgio.

Dona Helena participa dos encontros de Arteterapia e faz das atividades um meio de ocupar a mente enquanto trabalha a atenção, as funções motoras e executivas além dos afetos e da interação social fundamentais a quem a patologia insiste em driblar o sujeito.

O cheiro do seu perfume tem fortalecido meus passos em busca dos desejos de amenizar tantas velhices perdidas na doença. Tenho estado cheirosa e o perfume da Dona Helena, ao ser borrifado, parece alimentar meus sonhos. Seu efeito, tem sido notório.

Nas artes plásticas, a artista Lygia Clark já nos falou disso e nos mostrou a eficácia dos estímulos sensoriais nos objetos de arte. Nascida em Belo Horizonte em 1920, Lygia viveu no Rio de Janeiro até seus 68 anos. Em seus trabalhos, a artista amplia as percepções e integra o corpo à arte. Para Lygia, tocar, sentir, cheirar, apertar e interagir era uma maneira de deixar um pouco de si no objeto e levar consigo um pouco da intenção do artista.

Suas máscaras sensoriais eram um convite a um mergulho interno, já que ao vesti-las, a visão era deturpada por diversos materiais enquanto sacos com ervas e cheiros invadiam quem as usassem.

Sim! O cheiro nos arremata ao nosso íntimo e aflora forças e sensações que mal sabíamos que existiam. O perfume de Dona Helena é um perfume suave, rosa e amoroso e tem o poder de me conectar à Helena que vive além do Alzheimer ao mesmo tempo que me transporta aos meus desejos mais íntimos de libertá-la do que a aprisiona. Que neste setembro, mês da conscientização da doença de Alzheimer, o perfume de Dona Helena possa fortalecer nossos desejos de desprender as tantas borboletas aprisionadas nessas velhices esquecidas e renegadas. A nós cabe apenas permitir a sensação. Cheirar, experimentar, sonhar, realizar e viver a Arte, afinal, o Alzheimer é grande, mas a vida e o viver é ainda maior.

Texto escrito inicialmente para o site da Vovó Nilva

 

 

Smiling cook preparing appetizer

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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