O mundo muda, mas a formação de profissionais de saúde não o acompanha!

Devemos redesenhar a prestação de cuidados de saúde para atender a realidade das necessidades das pessoas agora e nos próximos 20 anos. Isto implica em trabalho coordenado, interprofissional e interdisciplinar. Devemos repensar a distinção histórica entre saúde e assistência social e nos milhões de cuidadores não remunerados que apoiam todas estas pessoas que deles necessitam, o que implica em recursos direcionados para os lugares certos e em profissionais adequadamente formados.

 

De acordo com publicação feita por David Oliver, na conceituada revista British Medical Journal, um estudo escocês, realizado com mais de três milhões de pessoas mostrou, em 2012, que viver com três ou mais condições médicas de longo prazo ou doenças crônicas era comum para pessoas com mais de 65 anos. Em 2016, outro estudo, realizado com dados de mais de 200.000 pessoas moradoras da Inglaterra e com mais de 75 anos de idade, demonstrou que 7% destas apresentavam forte fragilidade e 21% fragilidade moderada. Já em 2017, pesquisadores previram que a proporção de pessoas no Reino Unido com quatro ou mais condições de longo prazo se duplicará entre 2015 e 2035, de 9,8% para 17%, sendo que dois terços destas pessoas também seria acometida por demência, depressão ou comprometimento cognitivo.

No Brasil, as estimativas feitas com base na Pesquisa Nacional de Amostras por Domicilio (PNAD), traz que em torno de 85% das pessoas acima de 60 anos padecem com uma ou mais afecções crônicas.

Qual a importância destes números?

A importância é que uma grande parte destes doenças podem cursar sem fragilidade excessiva, sem complicações por longo tempo, sem mortalidade precoce ou, simplesmente, sequer acontecerem. Para tanto é fundamental que haja foco maior na prevenção, o que muita gente já sabe, mas porquê isto não se concretiza?

Um ponto que toda a literatura técnica salienta é a própria formação dos profissionais de saúde, principalmente dos médicos.

No Brasil, no Reino Unido e no mundo, estes profissionais ainda são formados em um modelo cuja lógica é o tratamento de uma única doença e não de múltiplas delas. Há pouco investimento, durante a graduação destes profissionais, em estudar e enfatizar cuidados coordenados e planejados a partir de prioridades dos “pacientes” e no equilíbrio entre riscos e benefícios dos tratamentos. Este é um diagnóstico confirmado por estudos efetuados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em quase todos os países do mundo e publicado na também conceituada revista The Lancet.

Esta formação deveria incluir cuidados primários e comunitários, geriatria, saúde mental e cuidados no final da vida, todos pertinentes com o envelhecer da população. Mas a formação ainda se volta para os jovens, com uma doença única, não individualizada e de rápido controle.

Em segundo lugar, as prioridades de pesquisa e financiamento precisam refletir essa nova realidade populacional. Segundo David Oliver, a pesquisa tendeu e tende a se concentrar em indivíduos jovens ou de meia idade e em intervenções de alta tecnologia, ou tecnologia de ponta, em vez de priorizar as pessoas com necessidades de saúde complexas, excluindo-se, em grande parte dos estudos, indivíduos com mais de uma afecção, com fragilidade ou demência. Portanto, quando se aplicam os tratamentos ou as diretrizes destas pesquisas, elas não dão conta exatamente das pessoas que deveriam tratar.

Estes dois fatos são amplamente discutidos no Brasil, juntamente com o terceiro ponto pontuado pelo autor: devemos formar médicos generalistas e geriatras, caso contrário, estaremos formando profissionais para atender cada vez menor parcela da população.

Todos estes fatores levaram a uma mudança importante nas diretrizes curriculares dos cursos de saúde brasileiros, que vêm sendo implantadas desde 2010, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Esta também foi a conclusão do estudo da OMS, que citei anteriormente, e que destaca que hoje no mundo há mais especialistas do que doentes que deles necessitam.

Finalmente, devemos redesenhar a prestação de cuidados de saúde para atender a realidade das necessidades das pessoas agora e nos próximos 20 anos. Isto implica, segundo os dois estudos citados e segundo as diretrizes mencionadas, em trabalho coordenado, interprofissional e interdisciplinar. Devemos repensar a distinção histórica entre saúde e assistência social e nos milhões de cuidadores não remunerados que apoiam todas estas pessoas que deles necessitam, o que implica em recursos direcionados para os lugares certos e em profissionais adequadamente formados.

Referências

www.bmj.com/about-bmj/freelance-contributors/david-oliver e The Lancet Commissions: http://www.thelancet.com

Imagem:Prefeitura Caninde (CE), divulgação

Maria Elisa Gonzalez Manso

Maria Elisa Gonzalez Manso

Médica e bacharel em Direito, pós-graduada em Gestão de Negócios e Serviços de Saúde e em Docência em Saúde, Mestre em Gerontologia Social e Doutora em Ciências Sociais pela PUC SP. Orientadora docente da LEPE- Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento e professora titular do Centro Universitários São Camilo. Pesquisadora do grupo CNPq-PUC SP Saúde, Cultura e Envelhecimento. Gestora de serviços de saúde, atua como consultora nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e prevenção de doenças, com várias publicações nestas áreas.

maria-elisa-gonzalez-manso escreveu 11 postsVeja todos os posts de maria-elisa-gonzalez-manso