O “morar junto” na maturidade

Tempo de Leitura: 17 minutos

Renê Pacine Lise, nasceu no bairro da Bela Vista, em São Paulo, no dia 13 de Abril de 1930. Filha única do Sr. Máximo alfaiate e de Dona Teresa, costureira. Conheci Dona Renê na festa de aniversário de uma amiga. Ela me foi apresentada pela aniversariante. Nesse dia, ficamos conversando por um bom tempo. Isso foi há 5 anos. Nunca mais há vi. Lembro-me que fiquei encantada com ela. Dona René, além de muito bonita, é uma pessoa extremamente agradável e elegante.

Marisa Margarete Feriancic

 

Quando falava sobre o portal do envelhecimento com uma amiga ela sugeriu que eu a entrevistasse. Fiz contato por telefone e ela prontamente se dispôs a me receber. Eram tantas histórias para contar que um dia só foi pouco. Estive duas vezes na sua residência para poder escrever parte da sua história. Ela tem um tom de voz gostoso, uma fala calma e bem articulada. Gosta muito de conversar e “nunca perde o fio da meada”. E foi nesse clima receptivo que tive prazer de conversar longas horas com ela no seu apartamento no bairro da Vila Mariana, em São Paulo.

A origem… e as lembranças da infância

Dona Renê começou sua história…

Minha avó paterna era italiana e casou com um viúvo vindo da Itália com alguns filhos. Meu pai era o caçula, e morreu cedo, com 65 anos. Foi meu pai quem escolheu o meu nome. Ele queria muito ter uma menina. Ele me contava que sempre pediu a Deus três coisas na vida: Uma casa própria com uma árvore no quintal, um cachorro policial e uma menina. Ele dizia que ter a menina era fácil, a casa era difícil. Mas ele conseguiu comprar a casa. O cachorro policial ele não conseguiu. Só um vira lata grande. Minha mãe engravidou duas vezes. Eram meninos, e eles morreram. Meus pais sofreram muito e decidiram que não teriam mais filhos, mas depois de cinco anos eu nasci. Foi na Bela Vista, mudei-me para o Paraíso, depois para a Alameda Santos, voltei para o bairro do Paraíso e finalmente fui para a Vila Mariana. A minha vida toda se resume na V. Mariana. Meu pai comprou uma casa, com muita dificuldade, deixando-me como herança. Minha mãe Tereza não aparentava a idade, era muito vaidosa e me ensinou a ser vaidosa também. Estava sempre arrumada e com batom. A mamãe adoeceu e foi para uma cadeira de rodas. Ela tinha um tumor no final a coluna. Sofreu muito e morreu muito cedo.

Eu estudei no Grupo Escolar Rodrigues Alves, na Av. Paulista. Quando eu passo por lá vejo que está muito diferente. Quando eu penso que eu já fui pequenininha e estudei lá, sinto saudade… Quando saí do Grupo Escolar fui para o Ginásio Minerva. Essa escola ficava na Rua Cubatão. Tive professores muito bons. Naquela época era tudo diferente. Nunca imaginei falar “no meu tempo” era assim, mas era diferente mesmo. Os professores eram amigos, cuidavam da gente. Existia uma amizade e muito respeito. Não era essa coisa de “tia”, “tio”, “fulano”. Era senhor e senhora. Na terceira série escolar eu tive um problema de vista, tive que dilatar a pupila. Não pude fazer o exame final e perdi o ano. Naquela época não tinha recuperação. Papai e mamãe me diziam: Você vai repetir porque não pode fazer o exame. Não é por falta de estudar e nem por falta de conhecimento. E eu aceitei muito bem.

No ano seguinte eu fiz a mesma série com a mesma professora. Era a Dona Olga. Uma mulher gordinha, muito boa. Eu gostava muito dela. As professoras davam aula sempre nas mesmas séries. Terminou o ano e passei para a 4a série. Eu chorava muito e as minhas amigas me perguntavam se eu tinha repetido de novo. Eu dizia que não, que eu chorava porque a Dona Olga não iria mais ser minha professora. Depois do ginásio, fiz um curso de inglês e de datilografia. Meu pai não queria que eu trabalhasse, mas eu tinha muita vontade de trabalhar. Eu me formei no ginásio com 15 anos. Depois fiz um curso técnico de administração. Em 1946 comecei a trabalhar. Papai queria que eu fizesse curso de farmácia ou enfermagem, e eu não tinha nada a ver com essas profissões. Queria uma máquina de escrever. Hoje eu tenho o meu computador. Já gostava da máquina desde criança. Penso que a gente tem que fazer alguma coisa que goste. Quando você gosta sai bem feito. Papai e mamãe trabalhavam muito porque nossa situação financeira era difícil. Meus pais tiveram uma chapelaria no bairro do Paraíso. Papai e mamãe ficavam o dia inteiro na loja. Eu ficava com a Pierina, minha avó paterna que morava com a gente e faleceu de repente.

Meus avós foram maravilhosos para mim. Feliz da criança e do jovem que tem avós por perto.Meu avô (materno) Ferdinando, também morou com a gente. Meu avô era sapateiro, e eu sentia muito orgulho disso. Estamos no mundo da informática. Falar em sapataria hoje é estranho. Ter uma sapataria é uma coisa. Fazer um sapato é outra coisa. É uma obra de arte. Era isso que meu avô fazia. Uma obra de arte. Ele sentava, punha os preguinhos na boca e assim ele trabalhava. Quando meu avô ficou doente eu cuidei muito dele. Quando eu chegava perto, ele dizia: “minha enfermeira já chegou”. Ele, como todos os italianos, tinha muitas histórias para contar. Eu conversava muito com ele e aprendi muito. Meu avô sofreu muito, mas a firmeza dele em levar tudo adiante foi fundamental. Ele era pai da minha mãe. A minha avó que me criou era a mãe do meu pai. Não era um casal. Quem não conhece a alegria de viver, acha que as pessoas alegres foram mimadas, que tiveram tudo. Eu comecei a trabalhar cedo, sempre lutei muito e fiz de tudo para ajudar meus pais. Eles me deixaram um legado. Deixaram uma casa. Com a venda da casa comprei este apartamento onde moro. Meus filhos nunca quiseram nada. Sempre cuidaram sozinhos da vida deles. Eu, na medida do possível, ajudei um pouco.

Sofri muito com a perda de meus pais. Minha mãe era muito minha amiga e sempre me orientou em tudo. Mas com meu pai era diferente. Ele foi meu pai, meu amigo, meu irmão, meu tudo. Era com ele que eu desabafava. Quando dei o primeiro beijo da minha vida foi para ele que contei. Fico feliz porque pude passar todo amor deles para os meus filhos. E muito feliz porque meus filhos conseguiram passar para os meus netos. A gente vive muita coisa. Penso que quando eu parar de trabalhar vou escrever um livro sobre minha vida. Acho muito interessante conhecer a vida dos outros. Para os filhos também é importante conhecer a origem, a história da família, e nunca ter vergonha de nada.

O casamento… as alegrias… as perdas

O meu casamento com o meu primeiro marido, Renato, pai dos meus filhos, durou 34 anos. Casei em 1949 com 19 anos, e enviuvei em 1983. Ele era uma pessoa muito diferente de mim, mas a gente se dava muito bem. Fui feliz e se eu tivesse que voltar atrás faria tudo igual. Tenho certeza. Em 1951, com 21 anos, tive meu primeiro filho e depois com 24 anos o segundo.Meus filhos casaram, tiveram filhos e constituíam famílias maravilhosas. Minhas amigas me perguntavam se eu gostaria de ter filha mulher. Eu acho que mais amigo do que os meus filhos são, seria impossível. Eles participam da minha vida, gosto muito de conversar com eles. Consegui passar para eles tudo de bom que eu recebi dos meus pais. Cada um tem um casal de filhos. Uma das minhas noras é descendente de japoneses. Tenho dois netos mestiços, muito lindos. Tenho dois netos morando comigo, porque estão estudando em São Paulo. O rapaz está na Faculdade de Engenharia e a menina fazendo cursinho para medicina. É uma alegria eles aqui comigo. Não me dão trabalho nenhum. O menino está comigo há mais ou menos 4 anos. Eles são muito independentes. Respeitam muito a mim e ao Hélio. Preocupam-se conosco. Ë bom ter um relacionamento bom com os filhos e com os netos, porque você aprende com eles. Sempre tive abertura com meus filhos. Dizia para eles que se eu fizesse alguma coisa que eles achassem errado, poderiam falar. E eles são realmente bons. Sou uma pessoa muito feliz. Deus me deu muita coisa boa na vida. Sofri muito, com a perda de todos os meus entes queridos. Perdi meus pais, meus avós e meu marido. Ele faleceu em 1983. Nunca imaginei que ficaria viúva. E tinha ainda muita ânsia de viver, de aproveitar a vida. Sofri como todo mundo sofre. Não poderia querer só coisa boa. Tudo faz parte da vida. Só tenho que agradecer tudo que tive e tenho. Fui filha única, muito amada pela família e por todos. Adoro minha família. Adoro meus amigos.

Nesse momento chegou o Sr. Hélio, seu segundo marido, muito sorridente e bem humorado, me cumprimentou e me deixou muito à vontade. Eu lhe disse que estava saboreando as histórias da Dona Renê. Ele sentou-se próximo de nós e ela continuou contando normalmente sua história e em nenhum momento se esquivou de algum assunto por causa da presença do Sr. Hélio. Fiquei admirada com a parceria dos dois e achei bonita a cena. Enquanto ela falava, ele a olhava com muita cumplicidade e admiração. Coisa rara entre os casais atualmente, em que se percebe muita competição ou negligência nos cuidados afetivos. Eles me transmitiam uma tranqüilidade e uma alegria que só a maturidade deve permitir aos apaixonados.

D. Renê continuou…

Acho que aproveitei a vida de casada no que era possível. O que a vida permitia. Viveria tudo outra vez. Se eu fui feliz durante um tempo, se fui infeliz durante outro, é porque tinha que ser. Meu marido foi uma pessoa muito boa, sempre me admirou muito. Os filhos têm uma boa recordação dele também. Isso é importante. Quando as pessoas perdem um ente querido, elas falam: O que vou fazer agora? Você vai fazer o que todos fazem. Vai sofrer, vai sentir, vai chorar e depois, guardar essa pessoa na memória. Lembrar com muito carinho e saudade. Não pode ser de uma forma angustiada. Tive muitas mágoas em minha vida, mas nem quero lembrar. Às vezes essas lembranças ainda me cercam. Eu procuro afastar, viver as coisas boas. Ou você lembra como alegria ou com tristeza, mas aconteceu o que tinha que ter acontecido. Como fazendo parte da vida.

Morei na Rua Rio Grande, na Vila Mariana, de 1949 a 1983. Até o falecimento do meu marido. Ele faleceu em março e eu mudei em abril de 1983. Ele queria muito sair da casa e nós já estávamos negociando a venda. Então decidimos vender a casa. Meus filhos já estavam casados. Minha vida foi toda lá. Foi a parte boa e a parte triste da minha vida. Eu casei, tive os filhos, os filhos casaram, perdi os avós, perdi meus pais e enviuvei. Quero que saibam que não foi tudo lindo e maravilhoso na minha vida, eu tive muitas coisas tristes das quais nem quero comentar. De toda forma tudo isso foi bem superado e eu tive muita gente do meu lado e principalmente Deus para me fortalecer.

A profissão

Dona Renê é subsíndica do prédio onde mora e administra mais 28 imóveis.

Em 1946 eu comecei a trabalhar. Hoje eu trabalho por conta própria. Faço a contabilidade, digito os contratos, trabalho com alguns conjuntos de escritórios e residências. Trabalho bastante. Faço o trabalho de contabilista e administradora. Todos os meus clientes são amigos meus. Eu me aposentei, mas continuei trabalhando. Trabalhei muitos anos com escritório de advocacia. Lá eu aprendi muito. Tem figuras que aparecem na vida da gente que não se esquece. Dona Carmita foi uma delas. Não posso deixar de falar dela. Ela já faleceu. Foi uma pessoa maravilhosa na minha vida. Tive uma convivência muito boa com ela e com seu marido, Sr. Hugo. Ela foi uma pessoa que me ajudou muito. Eu trabalhei com ela durante muitos anos. Outras pessoas que eu não posso esquecer no trabalho foram: Sr. Ademar, Dr. João Batista e Dr. Roberto. Aprendi muito com eles. Roberto me falava que eu deveria ter feito advocacia. Acho que tinha uma vocação, e não sabia. Quando meu marido faleceu foi uma época muito difícil na minha vida. Mas eu sempre gostei de trabalhar. Queria ter o gosto de fazer, de produzir. Sempre achei meu trabalho importante e me sentia valorizada. Tinha orgulho do meu trabalho, dava conta de muita coisa, tinha muita responsabilidade. Foi o que me ajudou a superar a dor.

O reencontro com o amor

Conheci Hélio em 1997, ele vai completar 82 anos em agosto deste ano. Eu completei 75, no dia 13 abril. Estamos muito bem.

Eles são um exemplo de que o amor na idade madura pode ser até melhor que o da juventude. É ela quem diz:

Na idade madura, o amor é mais tranqüilo; sobra mais tempo para passear, você tem menos preocupação, os filhos já estão casados, e o tempo é só nosso. Fazemos dele o que bem quisermos. Quando eu conheci o Hélio, ele já estava viúvo há uns 3 anos, e eu há 15 anos. Durante esses 15 anos trabalhei bastante e fiquei muito tempo sozinha. Embora eu seja católica de formação eu gosto do espiritismo, onde eu tenho encontrado conforto espiritual. Nesse tempo o Hélio também freqüentava.

Eu brinquei com ela e disse:
– Então vocês ainda estão em Lua de mel?
Ela me respondeu:

É verdade! Essa idade é muito boa. Às vezes a gente sai e ele me diz: será que vamos demorar? Eu digo para ele: Nós temos todo o tempo. Não temos horários. Você não tem que voltar cedo. É um sossego. Quando a gente chega nessa idade merece isso. Espero que todas as pessoas saibam envelhecer. Acho que eu sei. Levo a vida quase como uma brincadeira. Aparece um problema, aparece outro, mas depois passa. Na realidade não dá para a gente estar atenta a tudo que acontece. Você não dá conta. Meu filho costuma dizer que tem certos acontecimentos na vida que já não são mais do meu departamento. São deles. Ele tem razão. Não adianta ficar me amargurando. Eu vivo.

O início do romance

A gente se via toda quinta-feira. Participávamos das sessões espirituais, nos olhávamos e saíamos. Só isso. Não trocávamos nenhuma palavra. Só nos cumprimentávamos. O espaço era para as reuniões e lá não tinha cafezinho, não ficávamos batendo papo. Terminava e todos iam embora. Sempre ia de carro. Teve uma época que meu carro ficou na oficina e eu ia a pé. Um dia cheguei lá e disse brincando: – Nossa, não estou agüentando mais. Vim a pé, mas tudo bem, agora eu descanso e volto! Hélio fazia um caminho de volta para casa dele e quase que obrigatoriamente passava próximo da minha casa. Eu morava na V. Mariana e Aclimação e ele no Ipiranga. Nesse dia que eu estava sem carro, ele ofereceu carona para eu voltar com ele. Agradeci e disse que não precisava. Na outra semana ele ofereceu carona outra vez e insistiu para que eu fosse com ele alegando que não iria atrapalhar o caminho. O tempo foi passando. Algumas vezes eu voltava com ele porque meu carro demorou em ficar pronto. A orquestra de Ray Conniff ia se apresentar no Brasil e eu queria muito assistir. Pensei em convidá-lo. No dia que pensei em fazer o convite, no centro, ele estava com a filha. E estava tão entusiasmado com a filha, apresentando-a a todos, que eu não tive coragem de fazer o convite. Quando ele nos apresentou, ela disse: “Pai, com tantas mulheres interessantes e você continua sozinho?”. E completou: “em vez do senhor ficar em casa sozinho, por que não convida alguém para passear, tomar um chá, ir ao cinema?”. Foi o que precisava para me dar coragem. Chegando em casa, da sessão, eu liguei convidando-o. Ele ficou indeciso. Disse que talvez fosse, que iria pensar. Eu falei: – Olha, senhor Hélio, se não der, tudo bem, eu convido outra pessoa. Lembrei do senhor e achei que poderia gostar.

No dia seguinte ele me ligou. Aceitou o convite, mas disse que estaria sem carro. Respondi que poderíamos ir com o meu. A partir desse dia ele começou a me telefonar. Ligava-me toda quinta-feira, passava na minha casa, íamos juntos para o centro e ele me levava de volta para minha casa. Isso foi antes do show, não tínhamos ido ao show ainda. Fomos ao show e ele até guardou os ingressos de recordação. Depois do show ele ficou preocupado que eu voltasse sozinha para casa. Então ele me acompanhou até minha casa no meu carro, descemos na garagem e eu nem convidei ele para subir, nem para um café. Depois de alguns dias ele me contou que seu filho lhe dissera que seria de “bom tom” que ele retribuísse o convite.
– Uma vez que você me convidou, agora eu tenho que te convidar para um jantar ou para um cinema. Respondi que aceitava. Que para mim estava ótimo, um jantar ou cinema. No dia seguinte o filho ligou para ele e disse:
– E aí pai, saiu com a namorada?
– Não é minha namorada.
– Saiu com ela, com sua amiga? Foi bom o passeio? Onde vocês foram?
– Sim, eu saí, foi muito bom. Fomos ao show e depois fomos tomar um café.
– Poderiam ter ido jantar…

Nesse momento Dona Renê se emociona, e fala da admiração que tem pelos filhos do Hélio.

O filho dele é um amor de pessoa. Os dois: a filha e o filho. Eu quero muito bem eles. Meus filhos e os dele aceitarem tão bem a nossa união. Hélio já tem uma bisneta. Ë uma gracinha. Vai fazer um ano no mês que vem. Certa vez o filho dele me perguntou:
– René, se nós tivéssemos sido contra o envolvimento de vocês ou os seus filhos, o que você faria?
Eu disse que se ele também quisesse, eu jamais desistiria. Iria atrapalhar porque nós não poderíamos fazer visita de família juntos. Só isso. Se ele quisesse e eu também, nós continuaríamos juntos. Nós estamos sempre juntos.Minha família e a família dele. Em 1999 fomos fazer uma viagem à Europa. Só eu e Hélio. Viajamos 21 dias. A viagem foi maravilhosa. Fomos para a Itália, França, Inglaterra, Suíça e Bélgica. Para viajar, é gostoso levar alguém que você se dá bem. No meio a viagem ele falou para mim: “Porque você não me disse que ir ser tão bom? Respondi que também não sabia. Foi nossa Lua-de-mel.

A vida a dois

Eu perguntei como foi a decisão de morar junto. Se houve algum receio…

Hélio morava sozinho e eu também. Às vezes ele ficava um em casa e depois ia embora. A gente conversava sempre sobre nossa situação. Eu viajava algumas vezes com ele para a casa dos meus filhos. Meus filhos sempre respeitaram muito o Hélio. Nós ainda não tínhamos decidido o que fazer. Existia a preocupação de alguém ter que se desfazer de um imóvel. Tínhamos dois apartamentos e alguém teria que se desfazer de um. E se não der certo? Ou se acontece de um dos dois morrer, o que faz aquele que ficou? Um dia meu filho veio me visitar e na despedida eu falei para ele:

– Não demore muito, acho que vai ter bastante novidade quando você voltar. Hélio e eu decidimos curtir o resto das nossas vidas junto. Não sabemos ainda quanto tempo temos de vida, então eu acho que nós podíamos continuar o restinho ou o restão do nosso tempo juntos e não sozinhos.

Resolvemos morar no meu apartamento e ele alugou o dele. Eu fiquei 15 anos sozinha, mas sempre achei que ia encontrar um grande amor. Na idade que a gente está, é bom ter um companheiro. O carinho é tudo. Não tem nada que substitui. Gostamos de caminhar; dia sim, dia não. Na 4a e na 6a feira eu tenho fisioterapia. Tenho fibromialgia, mas já melhorei muito. Ele vai comigo na fisioterapia, assim caminhamos juntos. A nossa rotina é tranqüila. Levantamos tarde. Ele levanta mais tarde do que eu. Antes ele levantava e tomava café comigo. Agora eu liberei o café dele e ele fica um pouco mais na cama. Ele me ajuda na rotina da casa: tira todos os lixinhos, lava a louça. Eu faço a comida. Mas não é um encargo muito grande. A faxineira também prepara alguma coisa. Os meninos só jantam. Eles trazem a comida pronta congelada da sua casa. Acho que os pais não querem me dar trabalho.

A paixão nessa idade é diferente?

É diferente sim. Sabe que é muito bom? É bom demais. Porque você não tem compromissos, não tem mais filhos para cuidar, não tem que sair correndo e deixar uma comida pronta, não tem que fazer tudo correndo. Quando se é mais jovem, não se pode ficar 5 minutos a mais no emprego. Tem que chegar em casa logo e fritar aquele bife que você deixou preparado.Tem que esperar o feijão cozinhar, passar roupa. Se você tem o molho pronto, tem que cozinhar o macarrão. Quando você envelhece, você tem mais tempo para tudo. Hoje, quando eu sinto canseira, eu paro. Por isso que o casamento, ou uma união, nessa idade dá para aproveitar mais, vamos dizer assim, é melhor. É bom de você ter um companheiro. Mesmo que ele esteja do lado de fora você abre a porta e diz: Bom dia! É muito bom esquentar o pezinho à noite. A cama fica mais quentinha, é mais gostosa.

A sabedoria…

As mulheres que ficam decepcionadas com o primeiro casamento às vezes se isolam e não querem saber de mais ninguém. Elas acham que se o primeiro casamento foi ruim, o outro também será. Isso é besteira. Se ele foi muito bom, quem sabe se o próximo vai ser também? E se não for bom, vai cada um para o seu lado. Eu fui feliz em todas as fases da minha vida. É possível ser feliz mesmo com mais idade. É uma obrigação passar isso adiante. Essa alegria, essa paz interna. Quero aproveitar muito ainda a vida. Estou com 75 anos. Quero fazer uma viagem não muito grande, mas tem que ser de navio. Uma viagem no Brasil mesmo. Quando eu saio de casa eu esqueço tudo. Esqueço os problemas. Vivo a viagem no dia a dia. Quando eu volto, eu paro e penso: por onde vou recomeçar?

A importância dos amigos…

Os amigos são muito importantes na vida da gente. E muito do que eu sou eu devo aos meus amigos. Tenho uma coisa muito importante na vida que poucas pessoas têm. Tenho quatro amigas desde a época do ginásio. Uma delas é a Gema. Ela fez o primário e depois o ginásio comigo. Quando fui me matricular no Ginásio Minerva eu encontrei Gema, Eliana, Nilze, e Eva. E somos amigas até hoje. Eva atualmente está morando em Israel. Ela vem para cá muito pouco. Nilze está morando em Santos. Nós temos idades parecidas, gostamos das mesmas coisas. A gente sempre se encontra no aniversário de cada uma de nós. A gente se visita durante o ano e também fazemos o nosso almoço do Natal, em que cada uma paga o seu. No aniversário, a aniversariante nunca paga. As outras oferecem. A gente não se dá presente. Só uma lembrancinha. Elas ficam muito bravas quando eu digo: Ai meu Deus! Quem de nós será que vai primeiro? Algumas não gostam de receber os amigos em casa no dia do aniversário. Eu gosto de receber, e não saio de casa nesse dia. Acho que tenho obrigação de receber as pessoas que vêm me cumprimentar. Recebo telefonemas e fico muito feliz. Se as pessoas lembram de mim, não está certo eu sair de casa. Todos os meus amigos me querem bem e eu adoro todos eles.

Envelhecer

Tenho 75 anos e nunca fiz segredo da minha idade. Você tem a idade que tem; não a idade que aparenta. A cabeça falha, a cabeça não falha, você tem dor no joelho, todo mundo que vai envelhecendo tem. Eu me orgulho da minha idade. Eu trabalho, tenho várias atividades e me sinto bem assim. A gente sempre tem alguma coisinha que dói, mas faz parte da vida. Ninguém envelhece sem dor nenhuma. Eu duvido que isso exista. Em cada etapa da sua vida você tem aquelas doenças pelas quais você passa. É semelhante com a época em que a gente era criança. Tínhamos doenças de crianças. Tinha catapora. Quando é velho, tem doença de velho.

Quando estou triste vou ver minhas fotos antigas, quando eu era pequena. Eu acho que envelhecer é isso. É você viver no presente, o passado. Lembrar de todos os entes queridos que você amou e que te amaram. Se hoje você está mais velha, daqui a pouco vai encontrar eles todos novamente. E quando eu chegar “lá em cima”, vou dizer: “Valeu, Papai do céu, eu vivi”. Penso que a vida é assim. Acredito que a gente pode ter tudo que busca. É lutar para conseguir, batalhar pelo que acredita. Quero deixar uma mensagem de amor para os meus filhos, minhas noras, meus netos, que são todos maravilhosos. Foi muito bom tudo que a gente viveu junto e que ainda estamos vivendo. Espero viver com eles ainda muitos anos. Quero ver meus netos casarem. Quem sabe se ainda chego a ser bisavó. A todos que passaram pela minha vida e todos que ainda estão na minha vida obrigada por tudo e um beijo a todos. Para o Hélio, um amor muito grande e um beijo especial. Eu gostei muito de contar minha história.

Percebo, sempre, um fato interessante ao colher estes depoimentos. As pessoas se preparam e preparam a casa para me receber. O clima é sempre muito acolhedor. A casa parece que se transforma num templo sagrado. Simbolicamente isto parece mesmo acontecer. Talvez pela emoção e cumplicidade que se instala na relação entre o relator e o pesquisador.Falar de reminiscências é difícil. Evoca recordações nem sempre prazerosas. Não é fácil falar de si mesmo. É uma retrospectiva de vida. É um momento em que as lembranças, assim como os significados que são atribuídos a elas, podem ser revistas, relembradas, ressignificadas. Muita coisa não é dita oralmente. A expressão do rosto, das mãos, do olhar; completam muitas histórias que são interrompidas, quando a emoção machuca e a palavra não vem.

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