O Mestre e suas estrelas

O jovem Ishaan tem muita dificuldade para se concentrar nos estudos, e mal consegue escrever o alfabeto. Depois de diversas reclamações da escola, o pai, que acredita que Ishaan não faz as tarefas por falta de compromisso, decide levá-lo a um internato, o que leva o menino a entrar em depressão. Mas, um professor substituto de artes, o MESTRE, Nikumbh, logo percebe o problema de Ishaan, e entra em ação com seu plano para devolver a ele a vontade de aprender e, sobretudo, viver.


Era uma vez um MESTRE, era uma vez um garoto… Era uma vez “Como estrelas na Terra – Toda criança é especial” (Taare Zameen), filme dirigido e protagonizado por Aamir Khan Par. Você poderia pensar, seria ficção? E eu, imediatamente, responderia: infelizmente não e, ainda pior, vemos situações como essas descritas no filme, todos os dias. Como estamos no mês em que comemoramos o Dia do Professor e, também, o Dia das Crianças, escolhi essa linda história que trata, delicadamente, do encontro de um certo MESTRE com seus alunos, suas estrelas na terra e, em especial, com um menino de oito anos, Ishaan Awasthi.

Incompreendido pelos pais e pelos colegas, o menino fica sem rumo. Imaginem, na escola, ele é um desastre. Quer mais? Então vamos lá: já repetiu o terceiro período e ainda corre o risco de tornar a repetir.

Se você pensa que acabou, desista, o sofrimento do menino continua. Ele não consegue acompanhar as aulas, nem focar sua atenção. E sabe o porquê? Quando começa a ler, as letras insistem em dançar a sua frente, uma desgraça. Algumas vezes, transformam-se em aranhas gigantes prontas para atacá-lo em plena aula.

Nesses momentos, sentindo-se perdido, Ishaan entra em outro mundo, um mundo particular repleto de dragões, foguetes no espaço sideral, águas-vivas, um turbilhão de imagens inundadas por cores vibrantes, formas inusitadas e, tudo em perfeita harmonia ou, melhor, um caos de criatividade artística.

Imerso na mais bela e colorida fantasia, o menino é bruscamente interrompido pela mãe porque, claro, ele tem deveres a fazer, horários a cumprir – bem, as tais obrigações do mundo real. E se não é advertido pelos pais, com certeza será pela rigidez de um sistema escolar que o obriga a se enquadrar.

Para o pai que o trata de forma rude e displicente, Ishaan é preguiçoso, é um tonto, nem um pouco parecido com o filho mais velho, um exemplo. Por acaso tem algo pior que ser comparado com o irmão? A mãe, submissa às ordens de um marido severo.

Considerado esquisito pelos colegas, o garoto não encontra seu próprio espaço. Realmente, as pessoas não o entendem. Uma tristeza só, quando é acusado de fazer algo errado, não o deixam ao menos explicar.

Assim, diante das inúmeros reclamações da escola e de um cenário sem perspectiva, o pai decide levá-lo para um internato. O menino chora, implora, sem êxito. Sua vontade não interessa. Ele precisa de disciplina e isso ele deverá receber, longe da família, no internato. E lá ele só recebe ordens, broncas e penalidades. Aos poucos, Ishaan vai desaparecendo, sumindo, sem vida, sem esperança, até que…

Inesperadamente, um professor substituto de artes entra em cena. Ele e sua flauta, ele e sua dança, ele e sua compreensão, ele e seu olhar atento. Um homem simples e sensível que leciona em outra escola, a “Tulipa”, considerada “especial” para crianças com deficiências mentais.

Esse é o nosso MESTRE, Nikumbh.

Experiente com as chamadas “causas perdidas”, Nikumbh logo compreende a dificuldade do menino em ler e escrever: é a dislexia. A partir daí, esse professor – tão raro de se encontrar – coloca em prática um ambicioso plano para resgatar Ishaan da mais profunda melancolia, do mais triste distanciamento. Sim, foi um esforço apaixonado em  torná-lo pertencente, em ajudá-lo a integrar o mundo da fantasia e o mundo real a partir de seu potencial criativo: a arte, as cores, a imaginação.

Com a palavra, o MESTRE:

“Hoje, irei contar a história de um garoto que não sabia ler e escrever. Ele não conseguia lembrar que o “B” vem depois do “A” para fechar. As palavras eram as suas inimigas, dançavam feito formigas, assustando-o, atormentando-o. Os estudos causavam terror. Mas quem compartilharia da sua dor? Seu cérebro estava cheio, nada fazia sentido no meio, o alfabeto dançava em devaneio. Certo dia, o pobre garoto falhou e nos estudos desmoronou. Todos riram em sua cara, mas sua coragem ninguém arrancara e um dia ele achou o ouro. O mundo ficou maravilhado com a teoria que ele contou. Podem adivinhar quem ele é? Albert Einstein, o homem que sacudiu o mundo com sua teoria da relatividade. Movimento Browniano, o efeito fotoelétrico, pelo qual recebeu o Prêmio Nobel de física em 1921.

Eis outro gênio, o grande artista-inventor Leonardo da Vinci, ele inventou um esboço de helicóptero e sabem quando? No século XV, 400 anos antes do primeiro avião levantar voo. Mas Leonardo da Vinci tinha dificuldade em ler e escrever.

Quem acendeu o mundo com a eletricidade? Thomas Alva Edison. O coitado também não conseguia entender o alfabeto.

Pablo Picasso, famoso pintor cubista. Nunca conseguiu entender o número 7, dizia que era o nariz do tio de ponta cabeça.

E tem outros, muitos outros. Quem é o pai de Mickey Mouse? Walt Disney. Perturbado com as letras, deu vida aos desenhos animados. Neil Diamond, cantor famoso, afogou sua vergonha em suas canções. Agatha Christie, famosa escritora de mistérios. Imaginam uma escritora que não conseguia escrever quando criança?

Mas, porque, assim de repente, estou contando isso? Para mostrar que entre nós existem essas pedras preciosas que desafiaram os caminhos do mundo, pois podiam ver com olhos diferentes. Seu pensamento era distinto e nem todos os entendiam. Eles enfrentaram oposição. E ainda assim eles venceram e o mundo ficou maravilhado.”

Assim, esse MESTRE confessa a Ishaan que partilha da mesma dificuldade, esses são os anônimos, os não famosos, os incompreendidos… aqueles com problemas de qualquer coisa que seja – uma criança travessa que só inventa desculpas para não estudar. Afinal, o que pode um idiota, um tonto conseguir, perguntam os ignorantes com pedras de gelo no coração.

No filme, transcrevo um diálogo entre o MESTRE e o Diretor da escola que, julgo, fundamental para compreendermos um pouco sobre a rigidez de um sistema educacional e o importantíssimo papel que um professor pode ter nesse cenário muitas vezes impiedoso e cruel.

MESTRE: – Senhor, preciso falar sobre um aluno, Ishaan Awasthi, terceiro D, aluno novo.

Diretor: – Ah, os outros professores também reclamaram. Não acho que ele vá durar o ano.

MESTRE: – Não senhor, ele é um garoto brilhante. Apenas tem um problema com a leitura e a escrita. Você deve ter ouvido falar de dislexia?

Diretor: – Você facilitou minha vida. Estava me perguntando o que diria ao seu pai. Ele foi indicado por um conhecido. Então uma escola especial é o seu lugar.

MESTRE: – Não senhor, ele é uma criança com inteligência acima da média. Ele tem todo o direito de estar numa escola normal. Tudo o que ele precisa é de nossa ajuda. E no mundo todo as crianças, não importa o problema que tenham, estudam juntas. Na verdade, até meus alunos do “Tulipa” têm direito a estar em qualquer escola. Estou apenas repetindo o que diz a lei do nosso país, “Educação para todos” lhes dá esse direito. O problema é que poucas escolas a seguem.

Diretor: – Diga-me, como esse garoto poderá se virar aqui? Matemática, história, geografia, ciências, idiomas!

MESTRE: – Ele conseguirá. Com ajuda dos professores.

Diretor: E como eles teriam tempo para tal? Atender a um numa classe de quarenta? Isso é impossível Nikumbh.

MESTRE: – Senhor, não é tão difícil assim. Duas a três horas por semana. Eu me disponibilizo. Além do mais ele apenas precisa passar nessas matérias. Suas habilidades estão em outro ramo.

Diretor: – Então todas as matérias que ensinamos, exceto a sua, artes, são inúteis?

MESTRE: – Não senhor. Mas toda criança tem seu talento. E Oscar Wilde já dizia: “Quem quer um cínico que sabe o preço de tudo e não conhece o valor de nada?” Senhor, por favor, olhe as pinturas do garoto. Criatividade para oito anos de idade! Poucos dentre nós conseguem enxergar fora da moldura. Tudo que ele precisa é uma chance ou se perderá. Por enquanto deixemos que sua letra e sua ortografia sejam ignoradas. E que ele seja testado oralmente. Conhecimento é conhecimento, escrita ou oralmente. Enquanto isso trabalharei com sua leitura e escrita. Gradualmente ele terá melhoras.

Com o envolvimento de um MESTRE que faz a completa diferença, começa a trajetória de aprendizado do garoto: letras, ou aranhas assassinas, se transformam, adquirem contorno, sequência, sentimento, cores vivas, as massinhas viram aliados na compreensão do impossível.

Ah, finalmente o número 8 se torna 8 mesmo, certinho, alinhado, como se deve, não é? E a amarelinha vira uma lição de matemática com as temidas quatro operações, mas agora são combinações boazinhas, divertidas e, principalmente com sentido e significado. Aos poucos a caligrafia toma forma e se ajeita suavemente nas rígidas linhas do caderno.

Até  Van Gogh e seus mistérios entram na vida de Ishaan…

E para celebrar… nada mais sensível que uma competição de pintura onde todos participam,  alunos, professores e quem mais quiser. E o MESTRE pergunta: “Qual o propósito da arte? Expressar emoções. Se você está feliz, automaticamente vai atrás de cores alegres. O almoço foi ruim? Lá vem as cores chatas e tristes”.

Chega o dia, o momento da vitória pelos caminhos das cores, da arte, da genialidade de Ishaan e do trabalho competente e carinhoso do MESTRE.

Agora vemos um garotinho que consegue se vestir sem ajuda de ninguém. Agora ele sabe quem realmente é. Dá um sorrisinho de orgulho e de prazer e segue rumo a sua criatividade.

“Existem pedras preciosas entre nós que desafiaram os caminhos do mundo, pois podiam olhá-lo com olhos distintos, sua forma única de pensar que nem todos compreenderam. Sofrerão oposição. E ainda assim foram vencedores e o mundo ficou maravilhado.” Uma vida de imagens e cores o espera. Toda imensidão…

Professores como Nikumbh sabem, numa linguagem acessível e generosa explicar, até para os pequenos, as três leis do astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630). Em resumo, o movimento planetário e a compreensão de como o universo é estruturado. Eu tenho o prazer de conhecer um desses professores.

E para o verdadeiro MESTRE, o discípulo vem sempre antes – Ishaan, o vencedor.

Dedicado a todos os MESTRES da vida e, em especial, a “Você”, meu amor… sempre, com carinho.

  

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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