O machismo faz muito mal ao homem

O aumento da expectativa de vida, isto é, o tempo que homens e mulheres podem esperar viver, aumentou muito no Brasil, graças à melhoria das condições de vida da população. Por isso, quem hoje se aposenta, aos 60 ou 65 anos de vida, tem pelo menos 10, 15, 20 anos a sua frente, diferente do que ocorria até há pouco, quando aposentadoria significava fim de vida para muitos.

Tomiko Born *

 

o-machismo-faz-muito-mal-ao-homemMuitos sonham com o dia de aposentar-se, esperando que seja um momento de libertação da rotina cansativa e de um ambiente opressor, para enfim, dormir até tarde, dedicar-se ao ócio e ao projeto que ficou abandonado.

Geralmente, as mulheres costumam ser mais bem sucedidas em organizar essa fase da vida, pois elas tem muitas atividades para ocupar o seu tempo: serviços domésticos, cuidados com os netos, trabalhos manuais, uma receita nova para experimentar. Tem mostrado, também, maior predisposição para participar de atividades que são oferecidas nos grupos de terceira idade; ingressam em universidades abertas para a terceira idade, nos quais realizam, finalmente, o sonho de estudar, que lhes fora negado pela sua família, sob a alegação de que mulher não precisa estudar.

Quanto aos homens, os problemas começam na sua casa, pois, ao se aposentarem passam a sofrer da neurose do lar, explicava um participante do curso de criatividade para aposentados, no Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Descobrem que quem manda em casa é a mulher e que o homem atrapalha a rotina diária. O jeito é ir para a rua, encontrar-se com os amigos, ficar nos bancos da praça ou nos bares.

Idosos que participaram em sindicatos, ou partidos políticos, tendem a manter-se ativos mesmo depois de aposentados e hoje encontram oportunidades de se engajarem nos movimentos em defesa dos direitos da pessoa idosa.

No entanto, por que os homens não se interessam por programas da terceira idade, que se espera, propõem-se a discutir problemas relacionados à aposentadoria, ao envelhecimento ativo, além proporcionar oportunidades para socialização? Há anos, numa reunião preparatória da Universidade para a Terceira Idade, da Universidade Metodista de Piracicaba, um professor comentou O machismo faz muito mal ao homem, expressando em poucas palavras, o que acontecia com os homens: obrigados a sustentar a imagem de superioridade masculina, que desde pequenos, puseram na sua cabeça, os homens acham que já sabem tudo, não sabem se cuidar, detestam ir ao médico e muitos até se orgulham de nunca terem ido ao médico. Até hoje, muitos acham vexatório fazer exame periódico de próstata e descobrem, com atraso, que suas vidas poderiam ter sido salvas se tivessem se cuidado.

Uma outra explicação é que os programas dos grupos da terceira idade são considerados muito femininos, pois, organizados por mulheres acabam tendo características femininas. Maria Júlia Kovacs, psicóloga, professora da Universidade de São Paulo, que participou no Seminário sobre Envelhecimento Masculino promovido pelo SESC SP em outubro de 2009, abordando o tema Doença e Morte no Imaginário Masculino, assinala que os homens não se reconhecem nesses grupos, apesar de necessitarem de cuidados e atenção que poderiam receber. A autora observa que talvez seja necessário constituir grupos só de homens (pelo menos inicialmente) para abordar problemas que atendam a suas necessidades especiais: preparação para a aposentadoria; resgate de história de vida e biografias; sexualidade no processo do envelhecimento; cuidados com o corpo; cuidados psicológicos; processo de luto. Acreditamos que se forem oferecidos, também, atividades esportivas/ recreativas como bocha, malha e jogos de truco, oficinas para o aprendizado de novas habilidades artísticas – artesanais, o público masculino idoso poderá ser atraído.

Para concluir, vejamos o que revelam os estudos demográficos no Brasil: a expectativa de vida das mulheres é cerca de sete anos maior do que a masculina. A violência social, que mata maior número de homens desde a juventude, os acidentes de trabalho e a falta de cuidados adequados ao homem que envelhece, explica essa situação. É só observar o número de viúvas. Algumas ações urgentes deveriam ser planejadas para reverter esse quadro, começando com programas de saúde do homem.

* Assistente Social – foi professora do curso de Gerontologia Social do Instituto Sedes Sapientiae; organizadora de “Cuidar Melhor e Evitar a Viole^ncia: Manual do Cuidador da Pessoa Idosa”. Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Brasi´lia, 2008. E-mail: tmkborn3@gmail.com

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