O inferno são os outros?

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A peça “Entre Quatro Paredes”, de Sartre, nos coloca no lugar dos velhos durante a pandemia. Será que também estamos à mercê daqueles pequenos incômodos que causa a convivência tão intensa com o outro e que não somos, de alguma forma, dependentes dele?

Macarena Sfeir (*)


Em sua peça de teatro existencialista “Entre Quatro Paredes”, escrita em 1944, Jean-Paul Sartre (1905-1980) imagina o que, segundo ele, poderia ser o inferno, ao trazer três personagens condenados após sua morte a viverem juntos para sempre. As três personagens principais, Garcin, Inês e Estelle, são admitidos no inferno que mostra ser um quarto com quatro paredes e três sofás-canapés no qual não se pode apagar a luz. Um por um, eles são introduzidos ao quarto por um criado e ficam surpreendidos ao perceber que o inferno é apenas aquilo.

Ao irem percebendo que estão destinados a passarem o resto da eternidade juntos e que os seus laços com os vivos se enfraquecem, eles começam se irritar um com o outro. Inês se mostra incomodada com um tique que Garcin tem na boca, Estelle com o fato de que os canapés não combinam com sua roupa e de que não há espelhos para que ela se olhe e Garcin com as suas companheiras que, segundo ele, falam mais da conta. Além disso, cria-se um triângulo amoroso e Inês começa a demostrar interesse por Estelle, enquanto esta parece gostar de Garcin. Juntos, tentam entender o motivo do inferno ser do jeito que é, além de descobrir o motivo pelo qual cada um dos respectivos outros se encontra lá:

Estelle: Olho para vocês dois e fico pensando que a gente vai ficar junto… eu estava esperando encontrar meus amigos, minha família. (…) Por que nos colocaram juntos?” (SARTRE, Jean-Paul, Entre Quatro Paredes, 1944, p. 54)

Podemos considerar, a partir disto, o olhar do velho institucionalizado. Muitos são colocados em instituições, onde têm que enfrentar o que provavelmente será o resto de suas vidas, dividindo um quarto com outros velhos que geralmente são, inicialmente, desconhecidos. Entram em jogo, então, as pequenas coisas que o outro faz que incomodam e os interesses de cada um que muitas vezes não podem ser realizados, por conta de falta de privacidade e da possibilidade de foco no indivíduo. A institucionalização muitas vezes significa que os familiares e outros conhecidos visitam pouco e há uma experiência de falta de contato com o mundo exterior à instituição. Nestas condições, aguardar o resto da vida e, ao mesmo tempo, não saber quanto tempo de vida ainda se tem pode parecer, como é na peça, uma eternidade.

Na peça, há um momento específico em que Estelle se queixa de que não há espelhos no quarto e ela não tem como saber se o batom que está aplicando, está do jeito que deveria. Inês traz a ideia de que Estelle olhe para dentro de seus olhos e enxergue a própria imagem nas suas pupilas. Mas Estelle diz que sua imagem fica pequena demais para conseguir enxergar a linha de sua boca e Inês diz que então ela será o espelho de Inês e dirá a ela se está bom ou não; se ela está bonita ou não. De uma forma ou outra, Inês possui um poder muito grande sobre Estelle naquela situação.

Estelle não é mais dona de sua imagem, não tem mais como saber se está satisfeita com a sua aparência. Ela se questiona se Inês têm um gosto bom o suficiente para desempenhar aquele papel. Este aspecto pode muito bem ser elaborado em relação à velhice, momento no qual o velho se vê diminuído nas suas capacidades físicas, muitas vezes não vê ou não escuta tão bem quanto antes. Em alguns casos, é algum outro que o veste, que escolhe a sua roupa e a sua aparência. Saindo do âmbito da imagem, podemos dizer que o velho depende do outro em muitos aspectos que o definem. É o outro que escolhe a sua moradia, o que come, como são organizadas as suas finanças, onde ele vai e quem o visita. De uma forma ou outra, a velhice força o indivíduo a depender dos outros em muitos sentidos. É por isso que é tão valioso ter alguém de confiança que possa, em algum momento, começar a tomar certas decisões pelo velho.

A dependência, muitas vezes, ainda se estende para outro aspecto. Quando se trata de pensar no seu passado, muitas vezes surgem questionamentos sobre se viveram a sua vida da forma certa, se machucaram alguém, e muitas vezes surgem remorsos. Garcin, após contar dos atos que o levaram a acabar no inferno, pergunta a Estelle se ela acha que ele é um covarde, ao que ela responde que é ele o único que pode decidir isso, já que apenas ele sabe dos motivos pelos quais fez o que fez (p. 108-109). Assim, também não é incomum ouvir de velhos: Eu fiz tudo certo?

Finalmente, podemos também considerar o anterior, sob o olhar de pandemia e quarentena. O quanto não estamos também entre quatro paredes? Será que também estamos à mercê daqueles pequenos incômodos que causa a convivência tão intensa e ininterrompida com o outro e que não somos, de alguma forma, dependentes dele? Poderíamos utilizar este momento para aprender a sermos mais empáticos com aqueles velhos que conhecemos? Como diz Sartre:

Então é isto o inferno. Eu não poderia acreditar…. Vocês se lembram: enxofre, fornalhas, grelhas… Ah! Que piada. Não precisa de nada disso: O inferno são os Outros.” (SARTRE, Jean-Paul, Entre Quatro Paredes, 1944, p. 125)

(*)Macarena Sfeir – Aluna do 5º período da graduação do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Trabalho escrito na disciplina “Velhos nas peças de teatro”, ministrada pela profa. Ruth Gelehrter da Costa Lopes, que teve como proposta analisar como o teatro oferece farto material sobre o processo de envelhecimento contemporâneo. E-mail: maca.sfeir.2602@gmail.com

Foto destaque de cena da peça “Entre quatro paredes”, uma adaptação da obra “Huis Clos”/2018. Divulgação


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