O excesso de medicação em uma sociedade que precisa ser feliz

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O maior consumo de remédios é considerado um ponto comum na comparação com o soma, droga descrita no livro Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, administrada em doses diárias para manter as pessoas dóceis e felizes. Mas ao contrário da soma, os antidepressivos não produzem uma sensação positiva de prazer, apenas tiram um tanto significativo da dor de existir, como uma espécie de acolchoamento permanente para os choques e desencontros da vida, diz Christian Dunker.

Cassiana Purcino Perez e Juliana Passos *

 

o-excesso-de-medicacao-em-uma-sociedade-que-precisa-ser-felizA indústria farmacêutica nunca vendeu tanto no Brasil. Em balanço divulgado na primeira semana de setembro a Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais registrou a superioridade das fabricantes nacionais diante das estrangeiras. As companhias brasileiras registraram faturamento de R$15,7 bilhões entre janeiro e junho de 2014, ou 51% do montante comercializado. O uso de antidepressivos e reguladores de humor está entre os cinco principais responsáveis por essa alta. Uma projeção do instituto de pesquisa IMS Health aponta que em 2017 o Brasil será o quarto país que mais consome remédios no mundo. Entre 2007 e 2012 a posição brasileira subiu da décima posição para a sexta.

Um dos grandes crescimentos é a comercialização da ritalina. Em tese defendida em maio na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual do Rio Janeiro a psicóloga Denise Barros constatou um aumento de 775% no consumo na última década. A venda de antidepressivos e estabilizadores do humor cresceu 48% no Brasil entre 2008 e 2011 de acordo com o último relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O maior consumo de remédios é considerado pelo psicanalista e pesquisador da Universidade de São Paulo Christian Dunker um ponto comum na comparação com o soma, droga descrita no livro Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, administrada em doses diárias para manter as pessoas dóceis e felizes. “Ele era livremente autoadministrado, o que combina com a tendência crescente da medicalização por não especialistas, por não psiquiatras e sem grande regulação pelo Estado. Por outro lado, ao contrário da soma, os antidepressivos não produzem uma sensação positiva de prazer, apenas tiram um tanto significativo da dor de existir, como uma espécie de acolchoamento permanente para os choques e desencontros da vida”, diz.

Na visão da pesquisadora em política da indústria farmacêutica na Universidade de British Columbia, Barbara Mintzes, parte do crescimento excessivo do uso de antidepressivos está sendo redefinido pelo marketing. A pesquisadora exemplifica mostrando chamadas publicitárias de remédios para a reposição de testosterona que utilizam sensações genéricas e fazem apelo a estereótipos de gênero, como “Não se sente mais o homem que costumava ser? Você pode estar com baixos níveis de testosterona”. “Se as mulheres estão em desvantagem econômica no local de trabalho ou se sentem inábeis para lidar com uma relação infeliz ou abusiva, a resposta será uma pílula? A linguagem das propagandas reforça a ideia de que não é normal estar triste em resposta a algo que acontece na vida pessoal”, diz. E completa: “O problema com o marketing e com as recomendações clínicas e guias médicos financiados pela indústria farmacêutica é que eles redefinem o que é normal, a tristeza é vista como uma condição de ‘depressão’, em contraposição à falta de atenção com o indivíduo para avaliar se está triste ou estressado em resposta a algo que aconteceu em sua vida, ou se há um grave distúrbio depressivo”, diz.

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* Cassiana Purcino Perez e Juliana Passos, reportagem escrita para o ComCiencia – Revista Eletrônica de Jornalismo Eletrônico, Labjor/SBPC, publicada em 10/09/2014.

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