O envelhecimento e os conflitos familiares

Transcrevo a experiência que  me permitiu evidenciar as consequências do prolongamento da vida humana, mais especificamente os conflitos familiares, engatilhado pela falta de informação sobre o processo de envelhecimento e a dificuldade de reconhecer seus limites característicos, como a morte.

Por Silvia Helena Chagas (*)

 

Mesmo com algumas experiências profissionais voltadas aos idosos, foi após o auxílio nos cuidados com meu avô materno, em meio a uma família disfuncional, que fui impelida a revalidar algumas certezas e finalmente trilhar caminhos que estivessem em harmonia com meus valores. Na ocasião me deparei com o curso: Fragilidades na velhice – Gerontologia Social e Atendimento, que possibilitou a expansão do meu conhecimento, um olhar mais abrangente sobre a condição humana, e intensificou meu encantamento pelo tema envelhecimento e todas as questões que o circundam.

O curso abriu espaço para a apropriação de novas ideias, forneceu subsídios importantes para uma futura atuação crítica no meio, mas também evocou as dificuldades e frustrações surgidas em meu caminhar, como a lamentável constatação de que, muito embora o envelhecimento seja um processo natural, não estamos preparados para a sua chegada.

O processo do envelhecimento é uma característica inerente ao ser humano ao longo de toda a vida. Desde os primeiros segundos de vida começa-se a envelhecer e segue-se um processo natural do desenvolvimento humano que se inicia na infância e termina no último ciclo do crescimento, a velhice (PAPALIA; FIELDMAN, 2013).

Transcrevo a experiência que  me permitiu evidenciar as consequências do prolongamento da vida humana, mais especificamente o conflito familiar, engatilhado pela falta de informação sobre o processo de envelhecimento e a dificuldade de reconhecer seus limites característicos.

Muitos anos anunciam o fim, mas como lutar contra o achatamento da nossa racionalidade e aceitar a morte iminente?

Apesar das evidências que o futuro do meu avô se restringia progressivamente, uma cortina de silêncio foi colocada em torno do inevitável, direcionando a atenção de muitos para questões irrelevantes, precipitando-os para uma atividade frenética que talvez extinguisse a ideia e a angústia da mortalidade, e impedindo-os de saborear a preciosidade de cada momento ao seu lado.

É certo que cada um sente a proximidade da morte e os sentimentos aflitivos que ela faz emergir de uma maneira própria, e sem conseguir dominá-los por mais veneráveis que sejam as defesas, muitas vezes esse medo é dissimulado e se expressam através de comportamentos incompreendidos e/ou inaceitáveis.

Quando penso nos meus próprios sentimentos diante da morte, não abstenho-me desse “erro”, pois minha visão foi muitas vezes obstruída pela negação, a ideia de perder para a morte uma pessoa querida e com quem eu tinha uma mágica afinidade era dilacerante.

A idade avançava sem piedade, e alguns meses antes de completar 99 anos de idade, as limitações consumiram a vida do meu avô, que passou a depender de outras pessoas para a realização de tarefas básicas de vida diária, modificando a rotina da família e exigindo tempo e dedicação.

Com duas filhas e viúvo há cinco anos, ele residia em uma casa de dois cômodos amplos, localizado no mesmo terreno onde morava sua filha mais nova (minha tia), que por consequência da proximidade e por entender o cuidar como um dever moral, assumiu maior parte nos cuidados com meu avô, sendo auxiliada diariamente por minha mãe, uma tia (irmã da minha avó falecida) e de uma sobrinha que residia próximo.

Na ocasião eu disponibilizava de tempo e mesmo morando em outra cidade não hesitei em ajudar, diante da idade também avançada dos cuidadores, tomei a frente na resolução de algumas questões práticas, sugeri que usassem suas economias para beneficiá-lo durante o tempo que lhe restava, informei-os sobre a necessidade de modificação do ambiente, tornando-o mais funcional, e a adesão de objetos que facilitassem nos cuidados como: cama articulada, colchão para prevenir úlceras de decúbito e produtos de higiene pessoal menos agressivos, mas percebi que meu posicionamento foi um grande gerador de desconforto, para muitos todo o gasto para proporcionar uma melhor qualidade de vida ao meu avô era desnecessário, é claro que isso não foi verbalizado, mas foi notório no clima pesado que se estabeleceu no ambiente.

O despreparo e a sobrecarga causada pela tarefa árdua de cuidar suscitaram feridas e afloraram sentimentos de irritação, logo potencializaram o processo de vitimização da cuidadora principal que passou a apresentar reações emocionais negativas e dificuldade em aceitar ajuda e sugestões.

Para Andreoli e Erlichman (2008), em casos crônicos, a constância e o longo período de necessidade de suporte, além da inevitabilidade de conviver com os sintomas e sofrimentos, são fatores prejudiciais à manutenção da rede social. Os mesmos autores esclarecem que para evitar conflitos, torna-se imperiosa a manutenção do equilíbrio entre as relações com investimento na qualidade das relações.

Exercitando a tolerância, não recriminando comportamentos e ansiando superar todos os percalços e as divergências, procurei direcionar minha atenção ao que realmente importava, propiciar uma melhor qualidade de vida ao meu avô.

Me empenhei não apenas em atender suas necessidades básicas, mas em retribuir seu amor, construindo um ambiente positivo e seguro em seu entorno, privilegiando sua dignidade e resgatando o sentido da vida.

De acordo com Simonetti (2004, p. 141), em situações-limite, quando não há mais nada a fazer do ponto de vista técnico, ser empático é de grande valia.

Consciente de que a vida deveria ser mantida na melhor qualidade possível, agarrei a oportunidade de estar ao lado do meu avô como um presente, uma oportunidade de crescimento, e através da rica ligação que se estabeleceu entre nós, consegui enfrentar meus medos, minha vulnerabilidade, intensificar minha compaixão e tornar cada momento mais agudo, precioso e vital.

Juntos vivemos momentos mágicos, preenchidos com músicas, fotos e muito carinho, Inevitavelmente eu compreendi o quanto era benéfico a atenção e o contato físico para alterar positivamente as emoções e minimizar a angústia diante do tempo.

Alguns dias depois, meu avô apresentou um decréscimo do nível de consciência, chegando ao estado de semicoma, e em 14 de outubro de 2017, em uma noite fria de primavera, meu avô partiu em meus braços.

Difícil explicar o sentimento que me tomou naquele momento, apenas lembro que minhas palavras silenciaram junto com as batidas do seu coração, meus olhos marejaram, minhas defesas ruíram, porém um forte sentimento de satisfação também se fez presente, satisfação por tê-lo respeitado como um ser humano até o último momento, e tê-lo amado com todas as minhas forças.

“É preciso reaprender a sabedoria sagrada: se há um tempo de nascer, há um tempo de morrer. Que o último momento seja belo como o por-do-sol.” Rubem Alves

Referências

ANDREOLI, P. B. A. e ERLICHMAN, M. R. Psicologia e Humanização: Assistência aos Pacientes Graves. São Paulo, 2008.

PAPALIA, D. E. e FELDMAN, R. D. Desenvolvimento Humano. Porto Alegre, 2013.

SIMONETTI, A. Manual de Psicologia Hospitalar: O Mapa da Doença. São Paulo, 2004.

 

(*) Silvia Helena Chagas – Psicóloga, Capacitada em Estimulação Cognitiva. Texto escrito para o Curso de Extensão Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento – COGEAE – PUC – SP. E-mail: silviachagas.eci@gmail.com

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