O envelhecer para a mulher negra

Ao se analisar o processo histórico que o povo negro enfrentou ao longo da história, é possível entender o motivo pelo qual a mulher negra sofre e sofrerá muito mais em seu processo de envelhecimento do que as mulheres não negras. Pois, ao envelhecer, as mulheres negras continuam sofrendo machismo por ser mulher, continuam sofrendo racismo, e nessa nova fase de sua vida, sofre também gerontofobia.

Sheila Souza (*)

 

A mulher sofre diversas violências que causam danos durante toda a sua vida. A sociedade machista “assina uma carta de permissão” para que isso ocorra, e “apesar das lutas constantes e incansáveis das feministas, assim como de várias organizações, pelos direitos universais, infelizmente (1) ainda são muito presentes as violências sofridas pelas mulheres: mutilações genitais, femicídios, agressões psicológicas e morais, financeira, e várias outras” (SANTOS, 2017, p. 34).

E, além de toda essa barbárie, está presente na sociedade o racismo. Que perpassa por todos os âmbitos sociais, tentando anular um povo, uma raça. Qualificando-os como inferiores. Portanto, quando dizemos que a mulher sofre grandes violências dentro dessa sociedade machista, temos que voltar o nosso olhar para o duplo sofrimento da mulher negra, pois, ela sofrerá por ser mulher, e por ser negra. E ao envelhecer, essa violência, logicamente, só aumentará, pois, sabemos como o envelhecimento ainda é estigmatizado na sociedade. E para entender o racismo que a mulher negra sofre, é importante entender como esta mulher é inserida na nossa sociedade:

“O sistema escravista definia o povo negro como propriedade. Já que as mulheres eram vistas, não menos do que os homens, como unidades de trabalho lucrativas, para os proprietários de escravos elas poderiam ser desprovidas de gênero. Nas palavras de um acadêmico, ‘a mulher escrava era, antes de tudo, uma trabalhadora em tempo integral para seu proprietário, e apenas ocasionalmente esposa, mãe e dona de casa’. A julgar pela crescente ideologia da feminilidade do século XIX, que enfatiza o papel das mulheres como mães protetoras, parceiras e donas de casa amáveis para seus maridos, as mulheres negras eram praticamente anomalias” (DAVIS, 2016, p. 17- 18).

“Ou seja, a ideologia da feminilidade não funcionava para as (2) mulheres negras. Elas eram vistas como instrumentos de reprodução. Existiam para aumentar a renda econômica do seu proprietário. Eram obrigadas a trabalhar tanto quanto os homens negros, no mesmo peso de força, com isso elas adquiriram ‘características consideradas tabus pela ideologia da feminilidade do século XIX’ (DAVIS, 2016, p. 24). Com isso, criou- se a ideia de que ‘mulheres negras são fortes e aguentam tudo’, mas na verdade, mulheres negras são sobreviventes, e que lutavam ‘por si mesmas, suas famílias e seu povo’ (DAVIS, 2016, p. 24). E é claro que elas resistiam as barbaridades sofridas na escravidão. Segundo Davis ‘em muitos casos, a resistência envolvia ações mais sutis do que revoltas, fugas e sabotagens. Incluía, por exemplo, aprender a ler e a escrever de forma clandestina…’” (DAVIS, 2016, p. 34), (SANTOS, 2017, p. 35 apud Davis, 2016, p. 24,34)

Portanto, quando se analisa o processo histórico – como o apontado por Santos e principalmente Davis -, e há um real entendimento sobre a perversidade que o povo negro enfrentou ao longo da história, é possível entender o motivo pelo qual a mulher negra sofre e sofrerá muito mais em seu processo de envelhecimento do que as mulheres não negras. Pois, ao envelhecer, as mulheres negras continuam sofrendo machismo por ser mulher, continuam sofrendo racismo, e nessa nova fase de sua vida, sofre também  gerontofobia . E essa mulher negra, (3) que é categorizada como uma mulher “forte e [que] aguenta tudo”, passa a sofrer uma gerontofobia muito intensa, pois, ela terá que enfrentar o seu processo de envelhecimento como uma mulher que continua sendo “forte e [que] aguenta tudo”.

Porém, já há o entendimento de que “há várias formas de se envelhecer , e (4)o que se espera é que o envelhecimento da população seja com qualidade. Entendendo o envelhecimento com qualidade, que tem um olhar para o todo, ou seja: o social, o psíquico, e o biológico” (SANTOS, 2017, p. 21-22). Mas, mesmo que haja resignificação sobre envelhecimento, não há como negar que o envelhecimento da mulher negra será com muito menos qualidade do que as mulheres não negras. E é importante entender que, “quando se fala em envelhecimento com qualidade temos que ter em mente que não estamos falando somente do processo saúde-doença, mas sim de toda uma configuração” (SANTOS, 2017, p.22).

Portanto, nesta configuração está presente os preconceitos, que causam grandes estresses, principalmente às mulheres, dentro desta sociedade capitalista, machista e racista. E no que tange ao racismo, “verifica-se, portanto, que [ele] impossibilita ou dificulta a mobilidade social das mulheres negras. Elas são praticamente invisíveis nos postos mais privilegiados da sociedade. Há uma desigualdade quando o assunto é educação, mídia, postos de trabalho. As mulheres negras ocupam os espaços mais subalternos e mais precários da sociedade brasileira: não correspondem ao padrão de beleza, não gozam de recursos para se alfabetizarem, estão dentre os grupos menos qualificados para os postos de trabalho etc. (SANTOS, 2017, p. 42)(5)

“Ao examinar essas injustiças sociais, Santos (2017) afirma a importância de estudar as “diferentes formas de envelhecimento na sociedade brasileira”, pois, ao se fazer esse movimento de pesquisa, há uma contribuição “tanto para problematizar a discussão e compreensão do processo de envelhecimento humano em suas múltiplas e relacionadas dimensões, mas também pode contribuir para promover as políticas adequadas a determinados grupos sociais com vistas ao fim das desigualdades, sejam elas de gênero, de raça ou de classe” (SANTOS, 2017, p. 45).

Por ainda haver tantos preconceitos e injustiças presentes na nossa sociedade, não podemos descansar por nenhum minuto. O movimento tem que ser de luta e resistência sempre. Examinar a todo momento possibilidades de mudanças, tanto em nossa sociabilidade pessoal, quanto em ações que atingirão a sociedade como um todo. É claro que mudanças, e ainda mais, lutar por mudanças, é algo difícil e que por vezes, nos faz pensar em desistir. Por isso, que é muito importante lutar junto, ter pessoas, grupos, que acreditem em uma sociedade mais justa e emancipada, e livre de racismo. E que as nossas velhas, e nós, quando velhas, sejamos mais respeitadas no futuro do que nos dias atuais. A luta se faz presente!

Notas

(1) Na pesquisa realizada pela Doutora em Ciência da Informação, Maria Salet Ferreira Novellino, “As Organizações Não-Governamentais (ONGs) Feministas Brasileiras”, apresentada no VII Seminário.

(2) Segundo DAVIS, “A julgar pela crescente ideologia da feminilidade do século XIX, que enfatizava o papel das mulheres como protetoras, parceiras e donas de casa amáveis para seus maridos, as mulheres negras eram praticamente anomalias” (DAVIS, 2016, p. 18).

(3) “Termo utilizado por uma considerável parte dos especialistas e pesquisadores quando querem tratar do medo e rejeição que muitas pessoas têm em relação ao envelhecimento. Esse processo, que para muitos trata-se de algo natural da vida, pode trazer para outros uma angústia, ansiedade, infelicidade e, principalmente, medo das mudanças que a velhice acarreta em nossas vidas. (“E você, qual velho quer ser?” – Portal do envelhecimento). Internacional fazendo Gênero consta que “Segundo o banco de dados da Associação Brasileira de ONGs (ABONG), há, no Brasil, 35 ONGs feministas” (NOVELLINO, 2006, p. 10).

(4) “…nos encontramos agora em face de múltiplos “processos” de envelhecimento, uma vez que a figura da velhice se desdobrou efetivamente em diversas possibilidades de ser e de existir, multiplicando pois suas formas de presença no campo do discurso” (BIRMAN, 2015, p. 1268)

(5) “No Brasil existem cerca 6 milhões de empregadas domésticas. Dentro desse número 79,6% são de mulheres pretas. E esse não pode ser o único lugar reservado para nós” (Nossa Voz Ecoa – EP 05 – Eu Empregada Doméstica)

 

(*)Sheila Souza – Pedagoga Especialista em Envelhecimento. Possui Pós-graduação lato sensu em Saúde do Idoso: Abordagem Interdisciplinar pela Universidade Federal de São Paulo, Campus Baixada Santista (2016) e Graduação em Pedagogia, Licenciatura Plena, pela Universidade Guarulhos, UnG (2011). É Bacharela em Serviço Social, pela Universidade Federal de São Paulo, Campus Baixada Santista (2017). Foi aluna do Curso de Extensão “Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento”, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2017). E Extensionista do PET Educação Popular “Criando e Recriando a Realidade Social” na Universidade Federal de São Paulo. É integrante do Núcleo de Estudos Reflexos de Palmares e do Núcleo de Estudos Heleieth Saffioti, na mesma universidade. É Pedagoga Especialista em Envelhecimento, e idealizadora do Projeto Memorar (2017).

Imagens:  Vinícius Carvalho / Jornalistas Livres

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