O envelhecer diante da ameaça de morte e do desejo de vida: uma reflexão bergmaniana

Neste caminho de vida, tal como Bergman, o envelhecer é ameaçado constantemente pela morte maldita que espreita pelos cantos e se apresenta quando menos esperamos.

 

Que eu, de repente, tenha tido a coragem de dar à Morte a figura de um palhaço branco, personagem essa que conversava, jogava xadrez e não arrastava consigo quaisquer segredos, foi o primeiro passo em minha luta contra o horror que sentia da morte”. (Bergman, 1996, p. 238).

O cinema, entre todas as artes, é o que mais se aproxima da experiência humana e de suas questões existenciais, como a vida e a morte. Edgar Morin (2007), antropólogo, sociólogo e filósofo francês, afirma, lindamente, que o cinema é o recurso através do qual podemos buscar a superação da indiferença. Pensar sobre isso, numa época de tanta intolerância, é, no mínimo fundamental para todos aqueles que têm a humanidade na alma.

O autor ainda ressalta a fascinação que existe num espetáculo cinematográfico em que os espectadores se encontram numa espécie de hipnose e alienação, esquecendo-se de si mesmos, projetando-se nas histórias e nos heróis que aparecem. É nesta situação que acordamos para a compreensão do outro e de nós mesmos.

Esta reflexão me fez mergulhar em um mundo de imagens enigmáticas, especialmente aquelas apresentadas pelo dramaturgo e cineasta sueco Ernst Ingmar Bergman (Uppsala, 1918 – Farö, 2007) que, neste ano, completou 100 anos desde sua chegada a este mundo tão fascinante e, ao mesmo tempo, tão aterrador.

O cineasta é o maestro que conduz a obra “O envelhecer diante da ameaça de morte e do desejo de vida: uma reflexão bergmaniana”, de minha autoria, publicada pela editora Portal Edições.

Devo confessar que o trajeto do livro me envolveu profundamente, um diálogo constante com o processo de seleção, transcrição e análise do documentário “A Ilha de Bergman” – ponto central do trabalho –, dando destaque aos filmes “O Sétimo Selo” e “Morangos Silvestres”.

Vida e arte, implicados numa relação direta. Assim, usar a “Ilha de Farö” como universo das reflexões, fez com que se desvendasse cada um dos eixos contidos no filme, de certa forma, escondidos, não revelados facilmente. Nenhuma cena ou diálogo com Bergman é óbvio. Este era seu método, varrendo os rostos, as expressões aparentemente vazias, percorrendo os espaços preenchidos com a angústia do silêncio da existência diante da ameaça súbita de morte e do desejo ardente de vida.

Observa-se, de maneira geral, que nos filmes do cineasta paira uma certa atmosfera enigmática, quase incompreendida por quem não é familiarizado com a obra. Refiro-me ao “cenário da angústia existencial” construída, tecida e entendida por sensações provocadas por imagens e diálogos dos filmes mencionados.

O que compõe este “cenário da angústia existencial”? Existe cura para o nada?

Num processo introspectivo e cruzando minhas impressões e experiências com o relato de Bergman na Ilha de Farö, cheguei à sua composição. Ela nasce na “Ameaça Iminente de Morte e no Desejo de Vida” como acontecimentos simultâneos.

Diante deste conflito, sem dimensões, procurei respostas em Deus, algo que pudesse me falar sobre os mistérios que provocavam minhas inquietações, o conhecimento do enigma de vida e morte. Mas, de tudo isto, encontrei apenas um “Silêncio de Deus”.

Daí nasceu a percepção da “Finitude como Consciência da Morte”. “O Sétimo Selo” retrata fielmente o Deus que se omite e cede espaço à Morte como fato indiscutível e apavorante.

Se na velhice a probabilidade de morte iminente é maior e a consciência de finitude ainda mais, chegamos ao enfrentamento da perspectiva da própria morte em “Morangos Silvestres”. No rememorar de dois velhos – o personagem e Bergman – nos deparamos com a “Viagem pela Velhice Solitária”. O tempo se esgota e a solidão é sentida, seja pelo cineasta recluso, por opção, em Farö, seja pelo personagem que trilha seu próprio caminho de volta às lembranças.

Talvez este seja o remédio particular para as dores da vida sentidas na velhice particular de cada um.

Nas lembranças existenciais do velho Bergman é possível entender a “geografia bergmaniana da alma”, o porquê da escolha de viver em Farö e o que isto significou numa vida em que enigmas, mistérios e silêncios reinaram como protagonistas da história do cineasta e dos seus personagens.

Num segundo momento, no calar de minha própria madrugada, idealizei um encontro ficcional entre Bergman, Cícero (o pensador) e a pesquisadora que vos fala, denominado “Um Triálogo Existencial na Brecha do Tempo”.

O propósito inicial de tal construção foi driblar o efeito do tempo, anular a soberania dos anos que separavam os três envolvidos. Nascia o encontro, um colóquio entre diversas linguagens, cada qual vindo de seu tempo.

O epílogo descreve a trajetória “Do Silêncio de Deus ao Silêncio do Envelhecer”. A ideia de trajetória fica em evidência porque, mais uma vez, as histórias ou biografias dos protagonistas – Bergman, Cícero e a Pesquisadora – que nortearam este livro, começam no vazio do nada, do silêncio de um Ser em que se espera sabedoria e conhecimento, para os enigmas não decifrados de vida/morte que conduzem a uma angústia incomensurável, a angústia da existência de todos nós.

Neste caminho de vida, tal como Bergman, envelhecemos ameaçados constantemente pela morte maldita que espreita pelos cantos e se apresenta quando menos esperamos.

Ah… o que fazer com um desejo de vida urgente, ávido por todos os segundos concedidos pelo Senhor Tempo? Estas inquietações, perguntas com ou sem respostas, hipóteses comprovadas ou não, fazem parte da reflexão sobre o silêncio do envelhecer.

O fim da história de Bergman, anunciada em 31 de julho de 2007, explica: “O cineasta sueco Ingmar Bergman teve uma morte ‘calma e suave’, aos 89 anos, em sua casa na Ilha sueca de Farö, no mar Báltico, onde vivia sozinho, desde a morte de sua quinta e última mulher, Ingrid Karlebo von Rosen, em 1995”.

Bem, fica minha homenagem a ele, Bergman, um homem brilhante, muito além de seu tempo, sedutor nos olhares, nos gestos, nas palavras.

Quando vi, pela primeira vez, a capa de “O envelhecer diante da ameaça de morte e do desejo de vida: uma reflexão bergmaniana” fiquei muito emocionada: a imagem de uma Morte sem expressão, sem face, uma cara (ou a ausência dela) era exatamente o que se escondia dentro de mim. Senti que minha alma e a de Bergman entraram em perfeita comunhão. Agradeço imensamente à Editora do Portal do Envelhecimento.

Esta obra é dedicada ao meu pai que, na sua ausência, ensinou-me as coisas da morte e o silêncio de Deus. 

Referências
BERGMAN, I. O Sétimo Selo. [Filme-DVD]. Suécia. Versátil Home Video, 1956.
BERGMAN, I. Morangos Silvestres. [Filme-DVD]. Suécia. Versátil Home Video, 1957.
BERGMAN, I. A Ilha de Bergman. [Filme-DVD]. Suécia. Versátil Home Video, 2006.
BERGMAN, I. Imagens. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
MORIN, E. Educação e complexidade. São Paulo: Cortez Editora, 2007.

Trailer dos filmes
A Ilha de Bergman: https://www.youtube.com/watch?v=x4HNmS538_8&t=22s
O Sétimo Selo: https://www.youtube.com/watch?v=YknL-BWzSwY
Morangos Silvestres: https://www.youtube.com/watch?v=Al3T1eaC-ww

Serviço
Livro: O envelhecer diante da ameaça de morte e do desejo de vida: uma reflexão bergmaniana
Autora: Luciana Mussi
Adquira o livro em: www.portaledicoes.com

 

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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