O direito de morrer

O caso de Brittany teve uma grande repercussão nos Estados Unidos e reabriu o debate sobre o suicídio assistido no país, assim como o suicídio de um casal de octogenários em Paris no ano passado que provocou muita polêmica na França sobre o direito à eutanásia. Não cabe a nós discutir o que é controversa ou não, como também tentar mudar a decisão de alguém que sofria com dores imensuráveis de uma doença incurável e progressiva.

Ana Carolina de Freitas e Beltrina Côrte *

 

o-direito-de-morrerO suicídio, um tabu em nossa sociedade, está saindo do armário. Recentemente vimos em todos os veículos de comunicação notícias sobre a jovem Brittany Maynard, que aos 29 anos descobriu um tumor no cérebro em estágio avançado, responsável por tirar sua vida em meses. Ao saber de todo o processo que sofreria em seus últimos dias de vida a jovem decidiu realizar o suicídio assistido no dia 01 de novembro de 2014.

O caso de Brittany teve uma grande repercussão nos Estados Unidos e reabriu o debate sobre o suicídio assistido no país. O suicídio assistido é legal somente em cinco estados americanos, por isso a jovem, que vivia em Oakland, na Califórnia, se mudou junto com sua família para o Oregon para colocar em prática sua decisão de tomar medicamentos que pudessem abreviar a sua vida.

Para quem atua na área da Gerontologia (que estuda os processos do envelhecimento e não as doenças) o caso de Brittany Maynard reacende um outro, ocorrido no final de 2013, o suicídio de um casal de octogenários em Paris que provocou muita polêmica na França sobre o direito à eutanásia.

o-direito-de-morrerO fato foi matéria de destaque na imprensa internacional e repercutiu bastante por aqui também.

Eles não contaram com “assistentes”, e isso foi expressado em uma das tantas cartas explicando o gesto – atribuído a problemas de saúde – que o casal Bernard e Georgette Cazes, ambos de 86 anos, deixaram na suíte do luxuoso hotel Lutetia, em Paris, local onde seus corpos, de mãos dadas, foram encontrados. Em uma das cartas, dirigida ao procurador da República, Georgette se dizia revoltada por não poder “ter partido serenamente”. Assim como no Brasil, a legislação francesa não autoriza uma morte suave como a da jovem Brittany Maynard.

Embora não seja divulgado, o número de suicídios cometidos por idosos muito idosos vem aumentando. Profissionais de saúde, rede de amigos, atestam isso. O fato é que tal ato, aliás o último “ato comunicativo” de alguém está dizendo algo muito importante e isso exige profundas reflexões. A quem interessa manter vivo alguém que não tem mais vida, que já viveu o bastante e deseja partir porque seu quadro de enfermidades o faz sofrer mais pelos tratamentos do que pela doença em si que não tem cura? É isso que queremos para nós? Se temos compaixão pelo nosso animal de estimação bem velhinho que está sofrendo por uma doença fatal, por que não tê-la pelo próximo? São perguntas que devemos começar a responder – já que há resistência em se discutir o assunto – especialmente a Gerontologia Social. Não temos respostas a nenhuma delas. O fato é que vários países no ocidente vêm alterando suas legislações e autorizando práticas para pôr fim à vida, o que não ocorre no Brasil, onde há uma resistência até em se discutir o assunto.

O máximo que se conseguiu dialogar no país sobre esta temática é que “Prolongar a vida com recursos tecnológicos pode significar um afronta aos direitos humanos”, como declarou o presidente da Regional Sudeste da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, Filipe Gusman, à imprensa nacional. No Brasil existe uma resolução do Conselho Federal de Medicina que permite que o paciente escolha como quer ser tratado diante de doenças incapacitantes.

A morte, a antagonista da vida

O psicólogo, escritor e especialista em relacionamentos, Alexandre Bez, explica que “A morte infelizmente existe e assim como o nascimento, configura-se como uma das poucas certezas na vida não seguindo nenhuma fórmula, sendo em alguns casos repentino ou esperado. Esse caso [da jovem Brittany Maynard] dividiu opiniões, pois envolvia algumas crenças religiosas de grupos que acreditam somente em um Deus capaz de tirar a vida do ser humano”.

Alexandre Bez, em entrevista, nos diz que o suicídio é uma questão complicada. Segundo ele, há três elementos que necessitam impreterivelmente constar para a pessoa se suicidar: depressão, ideação suicida e coragem. Ao contrário do que muitos pensam, Bez explica que “o ato não é movido pela covardia, mas sim pelo antagonista dessa”. Para ele as causas podem ser muitas, mas permeando esses três elementos, “a impressão de uma fuga, em função de uma realidade dura e aparente, encabeça a lista”. Diz que, usualmente, um desespero com fundamentos reais pode provocar o suicídio também. Acrescenta que elementos genéticos também contam. Ou seja, pessoas que já tiveram em suas famílias casos de suicídio. Saudades de alguém pode levar o cônjuge a ter uma atitude extrema como esta.

O psicólogo chama a atenção para duas questões: julgamento está fora de questão, assim como condenar. Talvez tentar entender as causas e o sofrimento de alguém que tem uma dor profunda, já se configura como sendo um grande passo, explica Bez. De acordo com o psicólogo, “a mente humana é muito complexa e contém intermináveis labirintos. Nesses residem os principais motivos de nossas angústias, desejos, medos e principalmente nossa personalidade, habitando a umidade dessas paredes, desses labirintos. Sentimentos de fracasso, baixa autoestima também contribuem para a pessoa se suicidar. Em pessoas mais velhas, não, mas em mais novos, uma vergonha muito grande contribui também”.

o-direito-de-morrerAlexandre Bez comenta que entender o motivo da pessoa querer partir é o primeiro passo, impulsioná-la à vida é o passo seguinte. Mostrar de que a vida vale a pena. Citar exemplos de pessoas que poderiam não mais estar aqui por condições físicas, mas ainda estão, como Stephen Hawinkgs, o físico teórico e cosmólogo britânico, um dos mais consagrados cientistas da atualidade, diagnosticado com a pior de todas as doenças, Ela (esclerose lateral amiotrófica), e está vivo, com mais de 70 anos, e sua história foi parar em um filme que está sendo lançado no cinema em janeiro de 2015 (ver trailer abaixo). Talvez sua força de vontade o fez sobreviver a uma doença que mata em seis meses. Promover interações sociais, atividades físicas, aumentar o convívio com a família, são outras ações que se pode realizar, pois além de fazer o idoso se sentir importante pode reverter o quadro de um possível suicídio. “Agora, em diagnósticos terminais, a história é outra, e cada caso é um caso”, explica Bez.

O psicólogo acrescenta que “Não cabe a nós discutir o que é controversa ou não, como também tentar mudar a decisão de uma pessoa que sofria com dores imensuráveis de uma doença incurável e progressiva. As mesmas pessoas que reclamam da sua atitude em adiantar seu processo terminal deveriam reclamar de leis mais severas para assassinos que liquidam a vida de pessoas saudáveis”.

Alexandre Bez afirma ainda que esse assunto não compete à religião e nem deve ser julgado. Brittany, que queria apenas um fim digno, pode morrer em paz cercada de seus familiares e amigos em sua residência e devemos respeitar que cada um tem suas próprias questões, desejos e personalidades próprias, portanto o ingrediente que deve constar sempre em todas as pessoas é o respeito e a compreensão de todos os envolvidos”, conclui Alexandre Bez.

Referências

FERNANDES, Daniela. Suicídio de octogenários reacende debate sobre eutanásia na França. Disponível Aqui. Acesso em 08/11/2013.

ZUGLIANI, Antonella. Brittany Maynard ‘deixou uma marca’ após suicídio assistido. Disponível Aqui. Acesso em 04/11/2014.

Vídeo 

O direito de morrer. Programa Gente Que Fala 30 10 2014. Acesse Aqui

Trailer

A Teoria de Tudo: Acesse Aqui

* Ana Carolina de Freitas – Assessoria Márcia Stival e Beltrina Côrte – editora do Portal do Envelhecimento.

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