O cinema nos ensina a envelhecer

A palavra cinema, segundo a Wikipédia, vem do grego: κίνημα – kinema “movimento”, ou seja, é a técnica e a arte de fixar e de reproduzir imagens que suscitam impressão de movimento.

Cláudio Hissashi Hara, Denise A. P. de Araujo e Leonice Martins Sapucaia *

 

o-cinema-nos-ensina-a-envelhecerA principal função é o entretenimento, seja de qual gênero for, como a comédia, drama, aventura, horror, romance, entre outros. Mais do que isto, seus roteiros cada vez mais elaborados, aliados às inovações tecnológicas e efeitos especiais desenvolvidos nas últimas décadas, possibilitam o desenvolvimento de produções que aproximam cada vez mais a ficção ao cotidiano, fazendo aflorar os mais diversos sentimentos em seus milhões de expectadores.

A influência é tão intensa que o cinema se torna base para estudo e análise dos mais diversificados temas sobre nossa sociedade. O cinema é cada vez mais utilizado como ferramenta de formação e reflexão por pesquisadores e educadores. Turner (1988, p. 48), destaca o cinema como prática social apontando que “a teoria do cinema torna-se um campo mais amplo de disciplinas e abordagens chamado estudos culturais”. Neste sentido, Meirelles (2004, p. 79) assinala que por meio do filme podemos observar nos seus personagens a distribuição dos papéis sociais e os esquemas culturais que identificam os seus lugares na sociedade: as lutas, reivindicações e desafios no enredo e os diversos grupos envolvidos nessas ações, assim como aparece representada a organização social, as hierarquias e as classes sociais. E ainda, como são percebidos e mostrados pelos cineastas os lugares, fatos, eventos, tipos sociais, relações entre campo e cidade, rico e pobre, periferia e centro.

Esta temática foi tema recente do evento chamado “Cinema para envelhecer”, promovido pelo Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Sob a direção das Profas. Dras. Beltrina Côrte e Vera Brandão e orquestrado pelas intérpretes Fiama Alicia Zanini, Luciana Helena Mussi e o grupo Grupo de Estudos da Memória – GEM), e produzido por Leonice Sapucaia e Denise Araujo.

o-cinema-nos-ensina-a-envelhecerO cinema se insere como meio prazeroso de desencadear discussões relevantes quanto à temática do envelhecimento, isto porque o que é reproduzido pode ser relacionado com a experiência de vida que cada indivíduo traz consigo, podendo direcionar as reflexões e discussões sobre diversos assuntos como finitude, relação intergeracional, sexualidade, dependência, aposentadoria, desafios, sonhos e angústias na medida que o corpo e mente se adaptam e em grande parte por não querer perder o controle sobre suas vidas. Enfim, o cinema nos assinala que devemos aprender a cuidar dos afetos e a expressar a vulnerabilidade.

Cada filme e documentário apresentado foi uma experiência sem igual, por possuir temas particulares, explorados de maneira única e pessoal. Foram exibidos sinopse de filmes como: “O Sétimo Selo”, “O Tempo e o Vento“, “Lições para toda a Vida”, “UP – Altas Aventuras“, “O Exótico Hotel Marigold”, “Madadayo”, entre outros. Os comentários referentes a cada filme ou apresentam os assuntos relacionados de uma população de sexagenários, como parte integrante de uma nova necessidade e demanda mundial como testemunhado pelos membros do grupo GEM, coordenado por Vera Brandão, que relatou diversas atividades e dinâmicas realizadas por eles, utilizando o cinema como recurso didático para trabalhar a questão do envelhecimento, intervindo de forma educativa na percepção dos membros do grupo nos contextos familiar ou social.

o-cinema-nos-ensina-a-envelhecerComo exemplo, citamos o trabalho desenvolvido pela articulista do Portal do Envelhecimento e pesquisadora da PUC-SP, Luciana Helena Mussi, que pesquisou o tema referente à morte retratada nos filmes de Ingmar Bergman. Sua análise de alguns filmes possibilitou uma reflexão sobre a angústia existencial do cinema de Ingmar Bergman no envelhecer diante da ameaça eminente de morte e do desejo de vida. A análise por meio de filmes foi alternativa, tornando-se um recurso audiovisual que viabiliza e enriquece a discussão sobre um tema que possui dificuldades de abordagem, assunto que só é falado quando se torna inevitável.

Siedler (2013, p. 102) destaca que os filmes têm a capacidade de mobilizar o ser humano de forma efetiva pela imagem, música e temática do enredo. Essa mobilização promove, facilita e reforça reflexões posteriores quando encontra eco em reuniões grupais, para discutir eventos da vida que o filme sugere, contribuindo para o desenvolvimento da compreensão, tolerância, respeito mútuo, solidariedade e cooperação na busca por soluções de problemas do cotidiano.

Outro trabalho apresentado foi a pesquisa de iniciação cientifica desenvolvida por Fiama Alicia Zanini, que por meio de filmes contemporâneos norte-americanos apresentou a temática da intergeracionalidade e suas diversas relações. Siedler (2013, p. 102) destaca que a percepção e a intenção do filme depende do olhar do espectador, o qual é essencialmente influenciado pelas práticas, valores e normas da cultura na qual ele está imerso.

o-cinema-nos-ensina-a-envelhecerVale destacar ainda o trabalho desenvolvido pelo grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação – LEC, da PUC-SP, que utiliza os filmes para discussão e reflexão do envelhecimento da população, constituindo um rico material para compreensão das transformações sociais.

As apresentações foram enriquecedoras e possibilitaram aos convidados conhecer e refletir sobre o tema de uma forma mais lúdica. O direcionamento da palestra favoreceu a autoanálise e pontuou como a Gerontologia Social, por meio de filmes e documentários, pode propiciar uma reflexão sobre a velhice, o processo de envelhecer, e longeviver.

Referências

MEIRELLES, W. R. O cinema na história: o uso do filme como recurso didático no ensino de história. Revista História & Ensino, Londrina, v.10, p. 77-88, out 2010.

SIEDLLER, M. J. Cinema e percepção do envelhecimento. Revista Eletrônica de Extensão, Santa Catarina, v. 10, n. 15, p. 101-109, 2013.

TURNER. G. Cinema como prática social. São Paulo: Summus, 1993.

* Claudio Hissashi Hara – Mestrando no Programa de Estudos de Pós-Graduados em Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Coordenador na Empresa Angels4U – Cuidador de Idosos e Desenvolve trabalho de orientação profissional para cuidadores de idosos no núcleo Tiãozinho. Email: claudio@angels4u.com.br

Denise A. P. de Araujo – Administradora de Empresas, Mestranda em Gerontologia Social – PUC SP, Professora de Informática Adultos e Idosos e colaboradora da ONG Envelhecer Sorrindo. Email: denisearaujo@ig.com.br

Leonice Martins Sapucaia – Enfermeira. Mestranda no Programa de Estudos de Pós-Graduados em Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Especialista em Gestão de Serviços de Saúde – SENAC e em Enfermagem Gerontológica e Geriátrica – UNIFESP. Desenvolve trabalho de orientações para cuidadores de idosos das casas de acolhimento da Missão Belém. Email: lenisapucaia@uol.com.br

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