O centenário que saiu pela janela e desapareceu

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É o que acontece com o centenário que está presente em praticamente um século de história, envolve-se com Mao, Stalin, Truman, Franco, Hitler… É de morrer de rir.    


Lançado no Brasil em 2013, este livro traz na capa a informação de ter vendido quase cinco milhões de exemplares mundo afora, mas só me contaram agora. E, pasmem, a partir do livro foram lançados dois filmes, que estão na Netflix, o primeiro, com uma pequena variação no título, chama-se O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu, o segundo, a continuação, é O Centenário Que Saiu Sem Pagar a Conta e Sumiu. Bom, se você prefere ver filmes, vá direto para eles, esqueça a história do livro, porque depois ficará sem sentido, se fizer como eu, pegar o livro para ler e depois os filmes para assistir, vai se decepcionar um bocadinho, porque o livro tem outra pegada, é muito mais hilário, embora os filmes façam um esforço enorme para ser fiel ao conteúdo apresentado pelo autor. Por que indicar este livro/filmes? Porque vivemos em uma época do ano em que a leveza deve prevalecer.

Bom, vamos ao livro. Começo a ler e não consigo parar. Podemos chamar de gênio um autor que descaradamente copia uma receita pronta? Por que não? O cara faz de um jeito tão legal que fica parecendo melhor do que o original. Refiro-me, logicamente, ao filme Forrest Gump – O Contador de História, de 1994, no qual um cidadão, enquanto espera por um ônibus, se é que espera, conta lorotas para quem se sentar ao seu lado. Não viu o filme ou não lembra? Veja, reveja, vale muito a pena.

São lorotas tão bem contadas que os ônibus passam e ninguém embarca. São histórias surpreendentes, absurdas, malucas. Acima de tudo, hilárias. Forrest Gump é o herói improvável, presente em todos os momentos cruciais da história americana, da Guerra do Vietnã, salvando companheiros embaixo de bala, à queda de Nixon, delatado o caso Watergate. Tem por volta de 40 anos, logo não pode estar presente em tantos acontecimentos assim, imagine se ele tivesse 100! E imagine se sua atuação não se limitasse apenas aos Estados Unidos. É o que acontece com o centenário que protagoniza a história contada por Jonas Jonasson. O cara está presente em praticamente um século de história, envolve-se diretamente com Mao, Stalin, Truman, Franco, Hitler… É de morrer de rir. 

O melhor é que não se trata de um velho de 100 anos, capenga, passivamente contando histórias para os netinhos, ele vive a história, se mete em uma aventura absurda no dia em que todos o aguardam no salão de festas da casa de repouso para comemorar seu centenário.

Pois bem, nesse dia, em vez de se reunir com prefeito, juiz e demais autoridades, resolve sair pela janela. O que ele quer é trocar o refrigerante por uma dose de vodca, afinal, 100 anos não é para qualquer um, ele merece.

O fato de ter esquecido os sapatos e saído só de chinelos na gelada Suécia não o desanima. Acaba chegando à rodoviária e aí tem a ideia de ir tomar sua vodca em um lugar que ninguém o conheça, um município vizinho ou até onde suas 50 coroas possam levá-lo. Enquanto o velho Forrest Gump nórdico espera o ônibus, um rapaz pede que ele olhe sua mala enquanto vai ao banheiro rapidinho. Pede, o coitado, para um velho com aparência inofensiva, esquece que cobra também envelhece. Nesse momento, chega o ônibus. O velho embarca e o motorista, gentilmente, o ajuda com a mala, só que verdadeiro dono da mala ainda está no banheiro. E não se trata de uma mala qualquer, mas uma mala recheada com 50 milhões, fruto de uma negociação de cocaína entre traficantes suecos e máfia russa.

Enquanto isso, na casa de repouso, descobrem o sumiço do aniversariante. A cidade se mobiliza na busca por Allan Karlsson, inclusive a polícia quando surge a suspeita que pode ter sido sequestrado. Ao mesmo tempo, os traficantes da organização Never Again procuram pela mala extraviada. Aqui temos uma história nada edificante, pois o idoso tem consciência que está cometendo um crime e se junta a um ladrão pé de chinelo, na faixa dos 80 anos, para ajudá-lo a fugir e se manterem vivos para gastar a dinheirama. Personagens bizarros vão se juntar aos dois, um vendedor falido de cachorro-quente e uma mulher que tem como mascote uma elefanta.

Mas onde entra o Forrest Gump? Nos flashbacks. Nas histórias que o protagonista nos conta sobre sua vida. A exemplo do personagem de Tom Hanks, este também tem um QI reduzido. Em Gump, qualquer aluno do primeiro ano de psicologia mata a charada, o protagonista tem Síndrome de Asperger. Já o centenário, o autor não complica muito, descreve um homem sem caráter, capaz de fazer qualquer coisa por dinheiro ou pelo simples fato de agradar aos poderosos. Conhece alguém assim? Político não vale, pois Allan não entende de política… embora não faça outra coisa.

Sobre o livro, o autor erra a mão por não saber quando parar de fazer graça. Como a receita é a mesma para todos os acontecimentos, lá pela página 300 começa a perder a graça, pois quem tem mais de um neurônio já descobriu o truque. A sorte é que o livro já está quase no fim. Já os filmes, dois nesse caso é demais… No Forrest Gump original também tem excesso, especialmente quando o protagonista diz que investiu em ações de uma companhia de frutas e mostra um folheto com a logomarca da Apple. Também não precisava… Mas tira o brilhantismo das obras? Não! Então, bora nos divertir!

Fotos: divulgação


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Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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