O Burrico e a Ilusão do Status

Esse causo só podia ter ocorrido em alguma cidade do interior de Minas Gerais e foi há muito tempo. Não havia por lá carros ou caminhões, a não ser o fordeco do prefeito. Todo transporte era feito por carroças, por carros de boi, por charretes e troles.

Waldir Bíscaro *

 

O largo da Matriz era o ponto de concentração dos carroceiros. Lá ficavam eles à espera de carretos – pequenas mudanças, transporte de mercadorias, latas de lixo, engradados de frutas e coisas que tais.

Jericó era um dos animais puxadores de carroças. Era um burrico normal, nem melhor, nem pior que os outros, apenas mais jovem.

Nada acontecia naquela cidade, todo dia era igualzim, igualzim que nem. Porém, quando chegou o novo vigário cheio de novas idéias, ele viu que a velha igreja precisava passar por reforma.

Para que os trabalhos pudessem ser realizados com mais segurança e rapidez era preciso retirar as alfaias, as imagens e outros objetos do culto e transferir tudo, inclusive as cerimônias, para a capela, nas proximidades.

O vigário foi até o largo e encomendou a mudança ao primeiro carroceiro da fila, pois não queria privilegiar ninguém. Todos eram seus paroquianos.

Por mera coincidência, a primeira carroça era justamente a puxada por Jericó. As outras bestas olharam Jericó com certa inveja, mas sem maldade. Tião, o carroceiro, levou a carroça até a frente da Matriz e lá o veículo foi carregado com os objetos sagrados.

A carroça ficou lotada com santos, cruzes, tocheiros, paramentos, vasos, castiçais e mais objetos. O tempo estava bom, por isso não ia ser preciso cobrir a mudança. Ficou tudo à vista.

Era por volta das onze, hora em que as pessoas costumavam sair à rua para um bate-papo, antes do almoço e os homens iam pro boteco para o goró regulamentar. Havia muita gente no largo.

Tião fez questão de dar uma volta mais comprida e mais vagarosa em torno do largo, pra que o povo admirasse. O sucesso foi total.

Ao passar a carroça, as mulheres se persignavam, as crianças se ajoelhavam, os homens tiravam o chapéu. Mais orgulhoso que Tião, estava o burrico Jericó. Estava que não se aguentava convencido de que tudo aquilo era homenagem pra ele. Chegou até a ensaiar alguns passos de cavalo adestrado. Ninguém reparou.

Ao final da tarde, Jericó foi juntar-se aos outros animais em um pasto das redondezas. Estava diferente; antes, um burrico simpático que conversava com todo mundo, agora entra no pasto sem cumprimentar ninguém, cabeça levantada, passos estranhos.

Guarani, um burro sênior e que fazia o papel de mentor dos mais jovens, logo percebeu aquele comportamento esquisito e dirigiu-se ao burrico:

– Ô Jericó, o que se passa com você, rapaz? Você nunca foi assim.

– Ah!, seu Guarani, agora sou o cara mais importante daqui; o senhor não sabe, não?

– Saber o que, meu rapaz?

– Ora, seu Guarani. Hoje, o povão me homenageou. O senhor precisava ver. A mulherada chorava, a criançada se ajoelhava, a veiarada tirava o chapéu, os home parava de beber, só pra me ver passar. O senhor precisava ver, mesmo!

Guarani, como bom mentor, ouviu tudo com paciência e arrematou assim a conversa:

– Olha aqui, meu jovem; amanhã, quando você estiver carregando latões de lixo, repare se as pessoas vão se ajoelhar ou tirar o chapéu pra você. Depois, você me conta.

Jericó já começava a se retirar, mas Guarani o chamou:

– Mais uma coisinha, rapaz, nunca se confunda com a carga que você transporta! Seja ela qual for.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O burrico Jericó se confundiu com a carga, mas tem muita gente por aí que se confunde com o cargo!!!!!!!!!!!

*Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP.

E-mail: awbiscaro@uol.com.br

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