O amor e o pé de jasmim

Sabe que o longeviver não combina com solidão, definitivamente e eu te mostrei isso. Imponha-se como velha, sempre que precisar e não se acanhe se necessitar de ajuda para os passeios diários. Lembre-se do meu amor.


Sou capaz de me enxergar andando neste gramado que, no meu tempo, não tinha cerca para limitar minha perseguição aos passarinhos. Eu corria para longe e logo voltava para seu lado. Aliás, foi ao seu lado que vivi minha vida e ao seu lado que vivo a eternidade.

Você bem sabe disso e por este motivo não compreendo as inúmeras lágrimas que insiste em derramar todo santo dia. Não é capaz de me perceber em você? Ou é exatamente por esta emoção que chora? Quantos abraços não imagina me dar sem se dar conta que estamos verdadeiramente abraçadas?

A vida tem dessas coisas. Fui apenas uma cachorra e agora sou apenas um pé de jasmim. Apenas? Tudo me parece imenso para ser apenas.
Hoje, olhando este azul do céu de inverno e sentindo o calor aquecer minhas folhas geladas pela noite fria, reflito sobre este viver que se findou mas que jamais chegou ao fim.

Por que tanta dificuldade em compreender a eternidade e a morte como parte da vida?

Foi ao seu lado que vivi todas as fases deste viver da melhor maneira possível e foi ao seu lado que pude fazer da minha velhice o momento ideal para validar todo afeto sentido ao longo desses quase 18 anos de existência.
Então me diga, por que chora se tudo aconteceu exatamente como previsto e foi no seu colo que pude morrer no amor ao me despedir da vida?

Veja esse céu azul, os pássaros, a paisagem, esta casa, o tanto de ternura que existe por aqui e essas duas ao seu lado para continuar a brincadeira deste viver que precisa ser suavizado por nós, apenas cachorros, experts no amor incondicional. Portanto, pare de chorar e prossiga na construção da sua própria velhice. Tenho certeza que, o que vivemos juntas será de grande valia.

Você será a velha humana que carrega em si os inúmeros aprendizados que minha velhice canina te ensinou.

Sabe que o longeviver não combina com solidão, definitivamente e eu te mostrei isso. Quando for preciso, um latido bem estridente poderá te ajudar a te dar voz e vez. Imponha-se como velha, sempre que precisar e não se acanhe se necessitar de ajuda para os passeios diários. Lembre-se do quanto você gostava da lentidão dos meus passos que te asseguravam a importância de desacelerar a vida. Foram tantos os passeios repletos de calmaria que te asseguravam beleza por todo resto do dia. Impossível esquecer.

Os afetos construídos serão teu porto seguro. Saiba disso. Foi assim comigo e será assim com você. Portanto não se envergonhe em ser quem é e tente perdoar quem não sabe viver afetuosamente a vida. Nem todos conseguem. Nem todos.

Hoje ao findar o dia, ao me regar, saiba que a eternidade nos cobre com o amor cultivado durante nossa existência.

A vida tem dessas coisas. Vivemos para morrer e para prosseguir no sentimento que eternamente nos fará viver.

Sou a imensidão em um pé de jasmim.  

Escuta? Os pássaros anunciam o nascer do dia e eu aqui, plantado neste amor imenso continuo a perceber a vida na sua eternidade. Vida que segue nas velhices que se constroem.

Aurora e Estrela, que focinho gelado vocês duas têm. Sinto cócegas e amor. Vocês não são apenas cachorras, saibam disso. Que doce papel vocês têm nesta vida, mas é preciso latir tanto? Parem de cheirar minhas folhas e vão perseguir passarinhos. Brincadeira garantida e divertida. Corram, pulem e aproveitem o viver até esgotar as possibilidades e quando a velha Estrela e a velha Aurora chegarem, estarão prontas para usufruir todo amor cultivado, na vida e na eternidade. Estejam certas, mas por favor, precisam latir tanto?


Inscrições: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/literatura-resistencia/

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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