O afeto que me afetou! Uma história de intergeracionalidade

Tempo de Leitura: 5 minutos

O afeto manifestou-se sozinho, surgiram então expressões por meio da fala, depois da pele, sorrisos e o rostinho no rostinho.

Silmara Simmelink (*)


Saindo de casa para o início de mais um curso de inglês e já sem grandes expectativas, por ser uma língua que ainda não me agrada muito, jamais imaginaria o que  estaria por vir. Ao chegar à escola, de repente fui fisgada por uma surpresa inesperada, era um pequeno garoto chamado Miguel. Logo se aproximou, sentou-se ao meu lado e, depois disso, não me lembro mais. O afeto manifestou-se sozinho, surgiram então expressões por meio da fala, depois da pele, sorrisos e o rostinho no rostinho. Logo estava tão ligada a esse afeto, que transbordara todo esse sentimento em um simples instante. Sinto a intensidade até hoje.

Não houve meios da racionalidade tomar conta, não teve bloqueio e nem contração, era como se as couraças que se formam por medo de sentir o afeto se desfizessem, logo no primeiro momento. Estaria eu aberta a isso? Sim, eu me abri. Miguel, uma criança de seis anos, veio com toda sua poesia, seu carinho gratuito quebrantar tais couraças.

Na aula seguinte, lá veio Miguel correndo alegre e, ao chegar na sala, afirmou com sua altivez infantil que faria aulas de inglês e não mais de português, só para ficar ao meu lado. O pedido foi atendido, já que a didática da escola não separava turmas por idade e nem por professor.

O encantamento entre mim e Miguel só crescia a cada dia, a amizade sincera se consolidava, sem o menor medo da entrega, e quando os professores perguntavam o porquê dessa ligação, não sabíamos responder. Como explicar uma amizade de uma pessoa da meia idade com uma criança, isso seria possível?

E respondo, sim é possível. Vivi essa experiência, profundamente. Duas gerações, dois mundos ditos diferente. E foi este detalhe, este intercâmbio do tempo, que possibilitou uma rica troca. Ainda acho graça quando relembro que, ao me ver usando um famoso aplicativo de mensagens pelo celular, Miguel sorria e fazia planos para o futuro. “Quando eu crescer, nos falaremos pelo celular”, dizia ele.

Tínhamos realmente muito em comum. O mesmo time de futebol, era agradabilíssimo compartilhar com ele as vitórias e derrotas do nosso time. Descobri também coisas novas, como o Dragon Ball Z, ganhei vários desenhos feitos por ele. Sem mencionar a imersão no mundo lúdico atual, já desconhecida por mim, pois minha filha de 18 anos não assiste mais desenhos animados.

E seguia assim essa amizade verdadeira, um ponto de convergência entre gerações. Eu e o Miguel, amigo fiel e dedicado, trocávamos gentilezas até no momento das premiações das atividades de inglês. Ao sair da aula, Miguel pedia ao professor que aumentasse a quantidade de suas lições de casa, pois percebia que as minhas eram mais volumosas e afinal de contas, éramos amigos e seria injusto que eu fizesse mais lições do que ele. A cada passagem de nível, ele dizia: “Estou torcendo por você, somos amigos Silmara!”

E Miguel também me cobrava a mesma dedicação, como na ocasião em que não pude estar presente no dia de sua promoção de nível no inglês. “Não estive perto, mas estava torcendo por você”, consolei meu amigo. 

Corriam os dias de aulas agradáveis e já não mais desinteressantes de outrora. Até que chegou o momento, tivemos que nos separar em razão de ajustes de horários, compromissos da vida adulta que Miguel um dia conheceria. Só não imaginava a falta que sentiria daqueles momentos com ele. Percebi que já não havia em mim aquela motivação dos tempos em que dividia as aulas com meu amigo Miguel. Aos meus olhos, ele se assemelhava a um impulso renovador.

Na primeira oportunidade que tive, algum tempo depois, passei na escola para visitar o Miguel durante seu horário de aula. Seria uma surpresa e como presente lhe entregaria alguns mimos do nosso time de coração. Ah, que abraço forte recebi! Aquele mesmo afeto que havia quebrado os antigos medos estava ali novamente. Como aquele abraço mexeu comigo, como me senti mais viva! Essa é uma das funções do afeto, conecta a vida nele e a vida em mim.

Concluo que essa amizade me proporcionou viver um encontro com a alegria, entrar em um estágio de felicidade, como diria o autor Spinoza – “viver aquilo que me faz bem” – me dando tempo de respeitar o meu próprio afeto, afinal, afeto é aquilo que nos move. Saber reconhecê-lo e classificá-lo como positivo ou negativo faz parte da subjetividade do eu.

Afetamos e somos afetados quando assim o permitimos.

A psicanálise diria que esse encontro, na verdade, foi um enlaçamento. Miguel me afetou como amigo, deixando uma marca, dele sobre mim. Alguns traços de Miguel, numa captura, foram algo que também tenho em mim e que detectei nele. Isso define identificação. Foi justamente o que ocorreu.

Ele me fez retornar à ingenuidade, à alegria espontânea, a estar aberta ao outro e me permitiu ser afetada sem críticas ou julgamentos pelo simples fato de ter ali o outro – para você e com você, sem nada esperar, mas firmando um laço de amizade.

E após seis meses de amizade mas com solidez de anos a fio, nosso último encontro foi no Natal de 2018. Conheci a mãe de Miguel e pedi a ela para que passasse com ele algumas horinhas em sua companhia, eu queria presenteá-lo e desfrutar daquela boa amizade. Assim aconteceu, por duas encantadoras horas de abraços longos e apertados, desembrulhando presentes que vieram diretamente do Polo Norte, enviados pelo Papai Noel, e sorrisos intermináveis. Depois de ver qual era a surpresa embrulhada, com um sorriso ele pronunciava: “Silmara, eu adorei!”, e que entonação, nunca ouvi igual. Algo que ao recordar, sinto graciosas lágrimas de alegria e gratidão. 

Esse afeto que me afetou foi de sublime importância em minha vida, vida essa imprevisível e inexorável. Em fevereiro de 2019, em uma tarde comum do meio de semana recebi uma notícia que abalaria minhas estruturas. Tão inesperada quanto uma notícia poderia ser – Miguel havia partido, nos deixado subitamente. Qual a explicação? Não havia! Ele estava bem, saudável, foi embora sem qualquer prenúncio. Nesse instante senti a implacável verdade: Não existe combinado para a morte.  

Morte, evitamos sempre falar dela, não nos preparamos, aliás conseguiríamos? Ainda hoje escrever este texto é para mim uma forma de elaboração do luto. E até mais do que isso, espero que essa leitura possa de alguma forma levar a reflexão de quantas e quantas couraças agregamos em nós, em nossa vida, como forma de resistência e de medo da entrega que os afetos podem proporcionar.

Eu me permiti viver esse afeto e posso garantir a vocês que, ainda assim, o efeito dessa expansão de emoções ficou comigo, tornando-me uma pessoa mais empática e sensível. Reforço que o afeto não requer idade e nem explicações concretas dos motivos, ele é de ordem de alma.

Ao Miguel, um amigo eterno!

(*) Silmara Simmelink –  Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Atua em clínica com abordagem psicanalítica e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano. E-mail: ssimmel@gmail.com


Intergeracionalidade

Portal do Envelhecimento

Portal do Envelhecimento

Redação Portal do Envelhecimento

portal-do-envelhecimento escreveu 3209 postsVeja todos os posts de portal-do-envelhecimento