Novos modelos de moradia para a terceira idade

A professora Guita Grin Debert selecionou alguns trechos nos quais trata da questão da moradia do idoso no capítulo “Família, Integração e Segregação Espacial do Idoso” de seu livro “A reinvenção da Velhice”. Entusiasta dos novos modelos de moradia para a terceira idade, a professora Guita, professora titular do Departamento de Antropologia da Unicamp (SP), foi uma das primeiras incentivadoras dos trabalhos do GTMoradia/ADunicamp para o projeto da Vila ConViver.

Redação Longevidade Adunicamp *

 

novos-modelos-de-moradia-para-a-terceira-idadeEntusiasta dos novos modelos de moradia para a terceira idade, a professora Guita Grin Debert, professora titular do Departamento de Antropologia da Unicamp (SP), foi uma das primeiras incentivadoras dos trabalhos do GTMoradia da Associação de Docentes da Unicamp e garante que vai estar já no primeiro grupo a ser formado para a realização de projeto de cohousing da Vila ConViver, recém lançado na Instituição.

O projeto Vila ConViver propõe novo olhar sobre as formas de habitar a cidade, ofertando opções de moradia baseadas no modelo de “comunidades intencionais” para docentes aposentados ou em vias de se aposentar da Unicamp. Vila ConViver abre espaço para importantes reflexões sobre os padrões de moradia e convivência que estão estabelecidos hoje nos centros urbanos.

Guita é autora de um dos livros de referência nos estudos da moderna gerontologia, “A Reinvenção da Velhice” (Fapesp e Edusp, 1999), no qual dedica um capítulo especial à questão das novas formas de moradia de idosos – incluindo dados de países europeus, entre eles a Dinamarca, onde o conceito de cohousing surgiu.

A pedido do site Longevidade Adunicamp (Acesse Aqui ) e do GTMoradia, a professora Guita selecionou alguns trechos nos quais trata da questão da moradia do idoso no capítulo “Família, Integração e Segregação Espacial do Idoso” de seu livro “A reinvenção da Velhice”.

(Nota da Edição – Os intertítulos entre os trechos abaixo são de autoria da editoria do site Longevidade ADunicamp e não constam no livro pela professora Guita)

Condição de moradia dos idosos nos anos 1960. Início da mudança

As pesquisas sobre a relação entre os idosos e seus familiares, desenvolvidas no final dos anos 1960, mostram que os estereótipos de isolamento e de abandono não expressam a condição da totalidade dos idosos, nem mesmo nos países de capitalismo avançado. A pesquisa comparativa de Shanas et alli (1968), feita na Inglaterra, Dinamarca e Estados Unidos, era bastante reveladora nesse sentido. Conclui que, se para os idosos há uma retração das “relações periféricas” – colegas de profissão e outros contatos –, há poucas modificações no que diz respeito às relações com filhos adultos.

Uma proporção expressiva de idosos vive com pelo menos um deles (20% na Dinamarca, 28% nos Estados Unidos e 42% na Inglaterra). Entre os que não moram com os filhos, boa parte reside a uma distância de cerca de 30 minutos da casa deles (40% na Inglaterra, 49% nos Estados Unidos e 55% na Dinamarca).

Cresce o número de idosos que moram separados dos filhos

Pesquisas recentes mostram que a proporção de idosos morando com os filhos tende a diminuir nos Estados Unidos e nos países europeu; entretanto essa tendência deve ser tratada com cuidado.

Wall (1989), analisando arranjos de moradia entre os idosos, na Europa dos anos 1980, ressalta a diversidade de arranjos ainda presentes. Mostra que, na Europa Ocidental, a tendência geral é de que os idosos passem cada vez mais a morar em unidades domésticas separadas das dos filhos.

Idosos morando sós. Um novo tipo de arranjo

Outros estudos sugerem que a tendência de os idosos morarem sós não tem de ser, necessariamente, percebida como reflexo de um abandono por parte de seus familiares. Ela pode significar um novo tipo de arranjo, uma nova forma da família extensa, na qual a troca e a assistência ocorrem de maneira intensa. Para Rosenmayr e Koeckeis (1963), trata-se de uma “intimidade à distância”. Esse novo tipo de relação, facilitado pelo aumento da mobilidade e pelo aperfeiçoamento das formas de comunicação à distância, que beneficiaram as diferentes classes sociais, não implicaria uma mudança qualitativa nas relações entre as gerações na família.

Além disso, o fato de os idosos viverem com os filhos não é garantia da presença do respeito e prestígio nem da ausência de maus-tratos. As denúncias de violência física contra idosos aparecem nos casos em que diferentes gerações convivem na mesma unidade doméstica. Assim sendo, a persistência de unidades domésticas plurigeracionais não pode ser necessariamente vista como garantia de uma velhice bem-sucedida, nem o fato de moraram juntos um sinal de relações mais amistosas entre os idosos e seus filhos (Evandrou e Victor, 1989).

Comunidades de idosos ampliam a satisfação na velhice

Em outra direção caminha uma série de estudos sobre novas formas de arranjos residenciais, que tendem a dissolver a ideia de que o bem-estar na velhice estaria ligado à intensidade das relações familiares ou ao convívio intergeracional. Mais do que a convivência num espaço heterogêneo, do ponto de vista da idade cronológica, é a segregação espacial dos idosos que permite a ampliação de sua rede de relações sociais, o aumento do número de atividades desenvolvidas e a satisfação na velhice.

É essa, em geral, a conclusão a que chegam os estudos sobre idosos vivendo em conjuntos residenciais segregados ou em condomínios fechados com serviços e outras facilidades ou, ainda, em hotéis ou congregate housings. Os títulos das obras sobre o tema, que envolvem tanto pesquisas quantitativas quanto qualitativas com entrevistas em profundidade e observação participante, deixam claro o que o conjunto de dados levantados revela: The Unexpected Community: Old People, New Lifes; Retirement Communities; Networks as Adaptation; Living Together; If I live to Be 100…

Novas comunidades ampliam redes de solidariedade e de trocas de afeto

Novas comunidades são criadas, o conjunto de papéis sociais anteriormente perdidos são reencontrados, redes de solidariedade, de trocas e de afeto são desenvolvidas de maneira intensa e gratificante, promovendo uma experiência de envelhecimento positiva, mesmo para aqueles cujos vínculos com os filhos e parentes são tênues. As diferenças de gênero são apagadas ou, quando mantidas, ganham outros significados. Relações interétnicas tornam-se mais harmônicas, uns ajudam outros, de modo que a independência de cada um posse ser mantida a institucionalização evitada. Enfim, a segregação espacial do idoso é defendida como a solução mais adequada a um envelhecimento bem-sucedido.

O papel ativo dos idosos na criação das novas mudanças

Ao fazer um balanço dos trabalhos de cunho antropológico sobre as novas comunidades dos idosos, Keith (1980) mostra, com razão, que eles redirecionam a reflexão sobre a velhice. Por um lado, oferecem elementos para uma revisão da ideia dos idosos como sendo sujeitos passivos de um conjunto de mudanças sociais, apontando, ao contrário, o seu papel ativo como criador dessas mudanças, fazendo novos arranjos sociais em resposta às transformações da sociedade.

A família e as novas formas de sociabilidade na velhice

Os motivos que conduzem à criação das comunidades de idosos são os mesmos que levam à formação de comunidades de outros grupos em diferentes faixas etárias, como, por exemplo, a ameaça exterior, a homogeneidade, a interdependência. As identidades criadas no interior dessas comunidades, como em outras de faixas etárias distintas, são uma forma ativa de rejeição a um conjunto de valores que acabam por colocar certos setores nos degraus mais baixos da hierarquia social. Se no caso dos idosos é a unidade cronológica que estabelece um ele entre os residentes, ela passa a ser irrelevante para definir o status da pessoa na experiência comunitária. Há uma reciclagem das identidades anteriores e a criação de uma nova comunidade. Além disso, esses estudos alertam para o fato de que a família não é um mundo social total adequado para os idosos nem para qualquer um depois da infância. As novas formas de sociabilidade na velhice não deveriam, assim, ser pensadas como substitutas das relações familiares, mas como esferas distintas de relações.

No entanto, se nesses trabalhos a tendência é relativizar a importância das relações familiares para o bem-estar na velhice, outras pesquisas enfatizam que as relações familiares ainda são fundamentais na assistência ao idoso e nas expectativas em relação ao processo de envelhecimento.

Interação entre idosos e criatividade grupal

Pensar na relação entre o idoso e a família é ora fazer um retrato trágico da experiência de envelhecimento, ora minimizar o conjunto de transformações ocorridas nas relações familiares. Pensar na interação entre idosos é, pelo contrário, traçar um quadro em que um conjunto de mudanças e a criatividade grupal seriam capazes de minimizar ou mesmo negar os inconvenientes trazidos pelo avanço da idade.

(*) O site Longevidade ADunicamp é desenvolvido pela Associação de Docentes da Unicamp, que se propõe a divulgar e debater informações sobre os fatores relacionados ao aumento na expectativa de vida no século 21, fenômeno conhecido como Revolução da Longevidade, assim como o impacto da Revolução Digital, nas áreas de trabalho, saúde, educação, acesso à informação, e lazer: Acesse o site Aqui

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