Nonnina, o Tesouro de Anna Silveira

Foi na casa da avó materna, Anna Maria DelliSantiCarrer, que Anna Silveira, então recém-saída da adolescência, procurou refúgio quando viu estremecer a relação com pai, com quem morava. O convívio intenso – quase 10 anos dividindo o mesmo teto com nonnina, como se refere à avó nascida em Trieste (Itália) – fortaleceu a relação entre ambas e despertou em Anna um novo olhar para a velhice.

Maria Lígia Mathias Pagenotto / Fotos de Anna Silveira

 

nonnina-o-tesouro-de-anna-silveiraAos 26 anos, quando concluiu seu curso de graduação em fotografia, pelo Senac-SP, Anna prestou uma homenagem à nonnina, então com 86 anos. Seu trabalho final, que data de 2010, traz um sensível texto sobre o vínculo afetivo estabelecido com a avó e belíssimas fotos, fragmentos do cotidiano.

Escreve Anna em “O meu tesouro”, o título que dá a seu trabalho:

“Utilizo-me da fotografia como ferramenta para evitar ainda que ilusoriamente o inevitável: o passar do tempo. … antes de mais nada, uma fotografia é não só uma imagem (como o é a pintura), uma interpretação do real, mas também um vestígio, diretamente calcado sobre o real, como uma pegada […].”

A fotografia foi o suporte escolhido – mas não aleatoriamente. Citando Susan Sontag, Anna mostra o quanto a fotografia transcende a imagem. “A fotografia não retrata apenas um determinado tema, é também uma homenagem a ele. É parte do tema e um prolongamento dele; como também um meio potente de possui-lo e controlá-lo.”

Sobre a convivência com a avó, relata:

“Engraçado como os papéis se invertem a cada momento. ‘Leva um casaco que está frio lá fora.’ ‘Comendo chocolate a essa hora?´; ‘Vê se arruma a cama quando sair.’; ‘Já jantou?´; ‘De quem são aquelas roupas sujas no chão do banheiro?´ ; ‘Vai se deitar na cama!´; ‘Vai sair sem tomar café?´; ‘Não está sentindo calor com essa malha?´; ‘Tem dinheiro?´; ‘Comeu direito?’; etc, etc, etc. Broncas e conselhos percorrem vias de mão dupla. É difícil cair no marasmo pois até aquelas tardes de domingo sentadas no sofá da sala ao som das agulhas de tricô tornam –se aulas de história, geografia e idiomas, intercaladas de oficinas de gerenciamento de controle remoto da TV a cabo, iniciação à web e workshops de fotografia digital. Um aprendizado constante.”

Anna diz que é uma privilegiada em poder partilhar do convívio com a avó. Em seu texto de apresentação do trabalho, afirma que o estudo, com retratos, “tem o intuito de relatar o dia-a-dia e preservar a memória de minha avó materna”.

Organizadas em uma espécie de álbum digital, as fotografias selecionadas buscam mostrar os aprendizados adquiridos pela autora nesta convivência.

Anna também tem formação em Letras – espanhol e português, pela Universidade de São Paulo – e, um pouco antes de falar sobre seu projeto para o Senac, estava de malas já prontas para viajar para o Nepal, Índia e Tailândia com algumas amigas. Hoje é fotojornalista e editora do site sobre viagens. Disponível Aqui.

“Meu convívio com minha avó não era muito próximo antes da gente morar junto”, contou. Foi no dia-a-dia que criaram uma intimidade jamais pensada. “A vontade de fotografar anda junto com o desejo de eternizar o momento. Enfrentar a finitude para mim é muito difícil”, disse.

Para Anna, as fotografias e o relato sobre nonnina adquiriram também o contorno de uma “missão”, mas levada adiante com muito amor. “Sinto-me responsável por dar a conhecer, na família, quem é essa mulher. Estou tendo uma oportunidade e não posso deixar passar.”

Ao falar do começo da relação, ela descreve a chegada na casa da avós após uma discussão com o pai:

“Toquei a campainha de mochila nas costas e muitas lágrimas por secar. Pedia apenas um dia pois achava que um diálogo resolveria tudo na manhã seguinte. Após uma boa noite de sono e a cabeça descansada, percebi que sem querer já havia tomado minha decisão. Eu precisava dela, e ela de mim.”

Interessante é acompanhar a imersão no mundo de nonnina a partir daquele momento. Sem se dar conta, ela já fazia parte daquele universo. A casa era sua conhecida de infância, mas nunca havia reparado nos detalhes, com acontece com todo mundo. São esses pequenos fragmentos amorosos que Anna mostra em seus retratos.

“Bibelôs de viagens, a marca de zorro no teto (vestígio das traquinagens do meu tio , o lustre em forma de candelabro ,a vitrola disfarçada de móvel, uma escrivaninha abarrotada de papéis e documentos já sem validade, as gavetas e estantes transbordando livros, desenhos, rascunhos, caderninhos de anotação – tudo empilhado como uma extensão da memória.”

Exemplos de força e beleza nas duas avós

Segundo Anna, o contato com a avó abriu-lhe a possibilidade de conhecer detalhes de sua própria história. Não fosse por isso, é provável que jamais teria acesso a eles.
“A correria e fugacidade do cotidiano nos afastam uns dos outros e nos privam de querer conhecer um pouco mais de nós mesmos através das histórias do passado. Hoje entendo a importância do resgate das raízes, fundamental para o autoconhecimento.”

nonnina-o-tesouro-de-anna-silveiraAo lado da avó, Anna também descobriu o encanto de fotografar pessoas velhas. “Gosto das expressões marcadas, reais. As rugas expressam toda uma vida, experiências, histórias. Acho que não existe nenhum velho que não tenha uma história legal para contar.”

Anna sempre viajou muito e, por diversas ocasiões, sozinha. “Converso muito com as pessoas e sempre paro para falar com os velhos, ouvir suas histórias.” Em suas andanças, detectou muitos preconceitos com a velhice. “Há discriminação, isolamento, especialmente nas sociedades ocidentais. Acho que entre os orientais isso é um pouco diferente”, explicou.

Sobre sua velhice, diz que tem em ambas as avós exemplos de força e beleza. E muita energia. “Se eu tiver metade do fôlego delas quando chegar aos 80, está ótimo!”. Com nonnina, parece ter também aprendido a lidar com um dos seus maiores temores: a fugacidade da vida, a morte.

Escreve Anna:

“Uma manhã, acordei com a pergunta: ‘Já está acordada? Preciso te dizer uma coisa…´. A mão encostada na cabeceira da cama, e a sobrancelha arregalada me deram a notícia. Era a morte de nossa passarinha, um presente de aniversário dos 83 anos que enchia a casa de assobios. Senti-me triste, mas a delicadeza com que me contou me fez querer abraçá-la e morder sua bochecha. Tento não pensar que tudo isso acabará um dia mas é inevitável sentir a pré-nostalgia a cada pequeno detalhe. Nós todos temos medo da morte. Mas nós já morremos. Olhe sua fotografia de formatura do ginásio, ‘ele’ está morto. Olhe a foto do seu casamento, ‘ela’ está morta. Precisamente agora você morreu.’ “(Michals,1976)

No trabalho, feito com cuidado e muito bem argumentado dentro do contexto da fotografia, Anna Silveira explica cada detalhe: o suporte, o equipamento utilizado, as cores, as expressões registradas, o close, os objetos retratados. A maior parte das fotos, afirmou a autora, não foram posadas. Muitas vezes ela utilizou câmeras escondidas para retratar nonnina.

Duas citações me chamaram especial atenção no trabalho “O meu tesouro”. A do final, reproduzo aqui primeiro, com comentário de Anna:

“ ‘As coisas que não podem ser vistas são as mais significativas. Elas não podem ser fotografadas, apenas sugeridas.´ (Michals, 1976) Com a frase de Duane Michals encerro este trabalho. A tentativa utópica de representar minhas experiências se materializou em partes. Com algumas frustrações por não alcançar exatamente o que havia imaginado e também algumas surpresas por ordenar muitas ideias no papel, pude perceber o meu tesouro mais valioso: minha família.”

Disse ainda a autora que o resultado final deste projeto foi feito principalmente para ela mesma.

Na abertura de seu trabalho, ela explicita seu temor diante da morte, conforme já dito. E atesta que fotografa nonnina nesta tentativa – sabidamente vã – de retê-la para sempre.

“Fotografamos para reforçar a felicidade destes momentos. Para afirmar aquilo que nos dá prazer, para cobrir ausências, para deter o tempo e, ao menos ilusoriamente, adiar a inevitabilidade da morte. Fotografamos para preservar a estrutura da nossa mitologia pessoal.” (Joan Fontcubert, artista espanhol nascido em 1955 – Link Disponível Aqui).

Para conhecer mais sobre Anna Silveira e seu trabalho, acesse Aqui. As fotos sobre nonnina podem ser vistas Aqui

Referências

MICHALS, Duane. Real Dreams. 1976.
SONTAG, Susan. Sobre a Fotografia. Tradução: Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Portal do Envelhecimento

Portal do Envelhecimento

Redação Portal do Envelhecimento

portal-do-envelhecimento escreveu 2102 postsVeja todos os posts de portal-do-envelhecimento