URSI: crônica dos encontros na Unidade de Referência da Saúde do Idoso

Tempo de Leitura: 4 minutos

Escrevo essa carta intitulada “no barco, pintando e bordando, para que saibam o que levo dos encontros. Ao longo deles conheci um grupo de mulheres que logo descobri que guardam dentro de si uma força gigante.

Vanessa Martines Cepellos (*)


Já estou há alguns dias tentando escrever uma crônica sobre minha experiência(1) como estagiária de Psicologia no Grupo “Saberes e Sabores” na Unidade de Referência da Saúde do Idoso, URSI-Geraldo de Paula Souza, em São Paulo, capital. Minha dificuldade está relacionada, exclusivamente, ao fato de que seria injusto escrever um texto que não contemple toda a riqueza que vivenciei às quintas-feiras de manhã, quando me reuni virtualmente com as participantes do grupo e profissionais do serviço, ao longo de 6 semanas. Seria injusto não dar o melhor de mim, se o que recebi foi o melhor de cada uma das participantes durante a 1:00 hora dos encontros. Sou grata pela oportunidade em conhecê-las e, mais grata ainda, pelos aprendizados que me proporcionaram. Escrevo esta carta-artigo de agradecimento; quero que recebam com todo meu carinho. 

Bom dia, meninas! (É dessa forma que vocês se referem umas às outras no grupo de WhatsApp)
Espero que estejam bem. Escrevo essa carta para que saibam o que levo dos encontros. Ao longo deles conheci um grupo de mulheres que eram, aparentemente, frágeis, mas que logo descobri que guardam dentro de si uma força gigante. Essas mulheres são vocês. Apesar das lesões, doenças, sessões de fisioterapia, exames, tratamentos, tombos e perda de equilíbrio, vocês são firmes e cheias de vida. Apesar de tudo isso, estão presentes e são presentes quando estão. Presentes para mim, para quem puder ouvi-las. Presentes de corpo e alma. 
Vocês me ensinaram que as dores fazem parte do processo de envelhecimento. Chegam de variadas formas, sejam físicas ou emocionais, estarão por ali para tirar um pouco da paz, mas não são suficientes para tirar a esperança. Entendi também que ao longo da velhice é importante aprender coisas novas, escrever um livro, tocar violino e dançar no Tik Tok. Vocês me ensinaram que reclamar é ‘andar para trás’, é “ré-clamar” e, portanto, não vale a pena. Nos encontros também conversaram sobre sogras, filhos, netos, genros e maridos. Surgiram recordações. Recordar me parece uma forma interessante de terapia. Lembrei então, de uma passagem que gosto muito: “Recordar vem de um radical latino cor-cordis, que significa coração. Re-cordar soa como: colocar o coração de novo (POMPÉIA; SAPIENZA, 2018)”. O coração de vocês apareceu em vários momentos. Me parece que isso fez muito bem a todas, afinal de contas os encontros eram sempre muito leves e possibilitaram que suas histórias de vida fossem contadas e recontadas diversas vezes. 
Aprendi, também, sobre a luta e o luto. A luta para cuidar de outro velho. O luto pelo velho pelo qual vocês lutaram. O cuidado do outro deve ser considerado, mas vocês reforçaram a importância do cuidado de si (SAPIENZA, 2015) e do conhecimento acerca dos próprios limites. Mulheres que cuidaram de tantos e agora se cuidam. Vi em vocês um grupo de mulheres sábias, que conhecem o potencial que possuem, mas que também se entendem vulneráveis e pedem suporte quando é necessário. O que me admirou ainda mais é que vocês, individualmente, se ajudam e, coletivamente, constroem uma rede imbatível. Falando nisso, me parece que, juntas, vocês superaram uma grande barreira para poderem se encontrar, não é mesmo? A tecnologia, o celular, o microfone, a câmera. Eles são pequenos desafios perto do tamanho de cada uma de vocês. Com o medo superado, agora estão dominando os encontros virtuais. Ouvi que manejar o celular parecia um sonho impossível. Entendi a importância de se adaptar, mesmo exigindo grandes esforços. 
Precisamos, mesmo, estar abertos ao que o mundo nos oferece, basta coragem para enfrentar!
Não tenho dúvidas de que o apoio das profissionais da Unidade de Referência da Saúde do Idoso é fundamental nessa jornada. A cada encontro ficava mais evidente a sua importância. Por meio dos estímulos fornecidos, via florescer as reflexões, revisitações e elaborações. A meu ver, uma das belezas do grupo é que ele incentiva que vocês tenham possibilidades de atuação e de autonomia ampliadas, com a consciência de quem vocês foram, de quem são e de quem ainda podem vir a ser (SAPIENZA, 2015). Esse último ponto é o que mais me chamou a atenção; essa vontade de vir a ser. Dos projetos que ainda possuem. Da disponibilidade para participarem de novas atividades, seja um curso da Terceira Idade ou uma aula de Pilates. Vejo potencial em cada uma para que continuem construindo, articulando e se vinculando na vida. Vocês transbordam alegria, bom humor e sabedoria. Por esta razão, são tão bem-vindas. 
O mundo precisa de um devir velhices como a apresentada por vocês.
Já no primeiro encontro vocês me deram a principal lição de vida. Ao som de Cartola, cantamos “a sorrir eu pretendo levar a vida, pois chorando eu vi a mocidade, perdida…” (CARTOLA; 1961).
Me despeço e, como vocês mesmas me ensinaram, encerro um ciclo para que o Novo possa surgir. Obrigada pela oportunidade, vocês já fazem parte da minha história. Desejo que sigam, no mesmo barco (como se definiram), pintando e bordado por aí e espero que possam promover mais navegações a novos passageiros e que sejam tão incríveis como esta que percorri junto. 

Notas
(1) A produção retrata minha experiência enquanto aluna cursando o 6o semestre do Curso de Psicologia, FACHS, PUCSP, da Disciplina Estágio Básico II, Supervisora Ruth G. Da C. Lopes/2o semestre de 2021 no Grupo “Saberes e Sabores” na Unidade de Referência da Saúde do idoso, URSI Geraldo de Paula Souza. O Grupo “Saberes e Sabores” tem como objetivo trabalhar limitações decorrentes do envelhecimento, procurando adaptação de atividades já realizadas e ampliação do repertório. É coordenado por Ana Carolina Savani, Terapeuta Ocupacional, Ana Paula Moreira, Enfermeira e Flávia Horta Hungria, psicóloga.

Referências
CARTOLA. O sol nascerá. 1961.
POMPÉIA, João Augusto; SAPIENZA, Bilê Tatit. Na presença do sentido uma aproximação fenomenológica a questões existenciais básicas. 2. ed. São Paulo: EDUC; ABD.2018.
SAPIENZA, Bilê Tatit. Conversa sobre terapia. São Paulo; Escuta. 2ª ed. 2015.

(*) Vanessa Martines Cepellos – Aluna cursando o 6o semestre do Curso de Psicologia, FACHS, PUCSP, da Disciplina Estágio Básico II, Supervisora Ruth G. Da C. Lopes/2o semestre de 2021 no Grupo “Saberes e Sabores” na Unidade de Referência da Saúde do idoso, URSI Geraldo de Paula Souza (SP). E-mail: [email protected].

Foto de destaque: Trabalho produzido pelas participantes do Grupo “Saberes e Sabores” da URSI, formado atualmente por Maria Aparecida Dutra Victoretti, Irene Aparecida Santille, Magnólia Bezerra, Virgínia Piva, Jocelina Trindade Braga, Aldaíza de Aguiar Bravo.


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