Nivalda, os olhos castanhos de Clara Nunes

Tempo de Leitura: 7 minutos

A primeira narrativa da velhice que trago para os leitores do Portal é de Nivalda, 84 anos, mulher que não desistiu dos seus sonhos


Eu me chamo Nivalda, eu tenho 84 anos e hoje eu decidi que a minha história deve ser contada ao mundo. Na minha geração, lá nos Anos Dourados, enquanto o Juscelino Kubitschek ainda era presidente, a minha maior figura de inspiração era a Marilyn Monroe. Eu era obcecada por me tornar uma mulher formosa como ela, cheia de sexualidade em um tempo em que nós tínhamos um manual de “boa moça”, tínhamos várias regras sobre como se comportar e ser a esposa perfeita.

Eu nunca quis me casar, isso quase matou os meus pais. Quando eu dizia que seria uma mulher livre, eles me riam, pois não acreditavam que eu seria uma artista, como eu prometia que seria. Nós viemos de uma família simples, mas não pobre, papai nunca deixou que o pão na mesa faltasse, mas nunca tivemos nenhum luxo e só isso já bastava para me incomodar.

A minha mãe nunca entendeu de onde veio meu desejo pelo luxo, afinal, todos eram muito simples na nossa casa, mas em 1945 eu ganhei uma pequena televisão do melhor amigo do meu pai. Ele era encantado pelo meu jeito e pelos meus olhos castanhos, o que deixava meus dois irmãos mortos de ciúmes, assim como papai, mas por tanto carinho resolveu me dar um dos melhores presentes que já ganhei na minha vida.

Passei toda a minha infância e adolescência assistindo telenovelas, na até então TV Tupi, nunca me esqueço da primeira telenovela que se chamava “Sua Vida me Pertence” e falava sobre uma vida de casal bem comum para os padrões da época, lembro até hoje da minha reação ao ver o beijo dado entre o Wálter Forster e Vida Alves, fiquei extasiada!

Com 18 anos eu decidi que seria atriz e que trabalharia na TV Tupi, seria uma artista como a maravilhosa Eva Wilma, mas meus pais não aceitaram a ideia e disseram que se eu não me comportasse para ser uma boa esposa, que eles me deserdariam. Um ano de diversas discussões, muitas brigas, eu decidi sair de casa para ir morar com um tio meu, fiz as minhas malas e mesmo com minha mãe chorando muito, meu pai não voltou atrás da decisão de não me deixar mais pisar naquela casa. Nunca vou me esquecer daquele dia em que eu parei na soleira da porta com a minha pequena mala com pouquíssimas roupas, meus irmãos me olhando com cara de reprovação, minha mãe aos prantos e meu pai me disse: “se você quer ser uma mulher do mundo, vulgar e se prostituir, você vai fazer isso bem longe da minha casa, bem longe da nossa família”.

Eu queria ser atriz, nunca quis ser prostituta e nunca fui mesmo, mas quando cheguei na casa do tio Jorge, descobri que ele estava se separando de sua esposa e que estava planejando uma nova vida no continente asiático e me convidou para ir junto com ele. Eu não tinha outra opção, eu não tinha nenhum outro familiar vivo e meu pai não suportava seu irmão, o meu tio Jorge, então decidi que a minha única escolha era aceitar essa viagem e nós fomos.

Quando chegamos lá, passei os piores meses da minha vida, tio Jorge bebia todas as noites para se esquecer da sua separação com a minha tia, ele só sabia trabalhar e beber e não queria me ajudar financeiramente, eu não sabia nada de mandarim, demorei muito tempo para conseguir me comunicar e para conseguir um emprego. Passei muita fome, pois ele comia na rua e não me trazia nada para comer, dizia que só o fato de me dar um lugar para morar já era muita coisa, foram tempos muito difíceis.

Depois de longos meses trabalhando como garçonete, um belo dia saindo do trabalho fui convidada para ir em um clube noturno de homens, a fim de conhecer as mulheres que trabalhavam lá, uma amiga minha me levou lá para conhecer o gerente do lugar, eles estavam precisando de uma dançarina naquela noite, pois a menina estava doente e eu fui. Eles queriam que eu interpretasse alguma artista brasileira, estávamos em 1968 e eu era uma mulher de 30 anos, fiquei me perguntando que artista eu poderia representar? Eu decidi então representar o samba, com a Clara Nunes que na época fazia muito sucesso a música do seu LP “Você Passa e Eu Acho Graça”, foi um sucesso só! Os chineses ficaram malucos com a minha performance e com o meu gingado brasileiro.

Naquela noite, eu fui contratada como dançarina da Boate Lánguang que significa “luz azul” em português, pois na porta tinha sempre uma luz azul acesa para informar que a casa estava aberta. Não era exatamente o meu sonho, mas afinal, eu havia me tornado uma artista e isso era tudo o que importava, por isso fui correndo para casa com aquele contrato todo em chinês, em que muitas coisas eu não entendia, mas havia assinado mesmo assim, para mostrar ao tio Jorge.

Ele ficou tão insultado com a minha ousadia que me bateu, ele deu um tapão no meu rosto e disse que não iria abrigar uma mulher vulgar que dança na noite e vende seu corpo para os homens, mas não me abalei, pedi abrigo para essa amiga que me apresentou o clube. Não foi fácil, pois de início não ganhava muito bem e fiquei devendo para ela até conseguir ter dinheiro suficiente para pagá-la e me sustentar.

Passei anos incríveis como artista e dançarina interpretando Clara Nunes, conheci homens muito ricos, nunca vendi meu corpo por dinheiro, mas também nunca fui feliz de verdade, nunca conheci o amor verdadeiro, nunca conheci uma família que me amasse, nunca quis ter filhos, pois tinha medo de ter que criar uma criança sozinha em outro país.

Durante todos esses anos continuei falando com a minha mãe por cartas, até conseguir mandar dinheiro para que ela comprasse um telefone e se comunicasse comigo, o telefone ficava na casa da vizinha, pois meu pai não podia saber que nós nos comunicávamos. Até que um dia ela me disse que estava com aquela doença terrível que eu não gosto de falar o nome, eu já tinha feito meu nome, já tinha imóveis no Japão e alguns no Brasil, eu poderia cuidar dela e abandonar a minha carreira de dançarina, até porque já estava velha, já tinha 45 anos, e no mundo artístico, isso já é muita coisa, por isso decidi voltar ao Brasil.

Quando cheguei no Brasil, não fui recebida pela minha família e passei dois anos sem conseguir ver a minha mãe, até que meu pai faleceu e finalmente eu pude cuidar dela, já que meus irmãos não queriam cuidar dela. Foram os três melhores anos da minha vida, vivemos juntas, eu cuidei dela até o fim, contei para ela todas as minhas histórias do que eu vivi no exterior e ela sempre me dizia “você tem os olhos castanhos iguais os da Clara Nunes, você é muito parecida com ela”. E eu dançava e performava para minha mãe, enquanto ela batia palma e ria, sempre se divertindo muito, sempre, sem me julgar ou me achar vulgar, pois ela sempre dizia “você fez aquilo que eu nunca tive coragem de fazer, você foi realizar os seus sonhos”.

Em 1988 ela veio a falecer enquanto dormia, como ela sempre quis, sem nenhuma dor e no quarto ao lado do meu, foi o ano em que eu pensei em me matar, pois nada mais no mundo fazia sentido para mim, eu já tinha 47 anos e a vida parecia não ter mais a menor graça, nada mais fazia sentido.

Eu passei longos 15 anos lutando contra algo que eu não sabia o que era, eu vivia sozinha na minha casa, eu não tinha amigos, eu vendi todos os meus imóveis e guardei o dinheiro em uma poupança, sem saber exatamente o que fazer com aquilo, mas com um desejo enorme de gastar cada centavo para que nada daquilo ficasse para os meus irmãos e os meus sobrinhos, até que no ano da virada do milênio, em 2000, eu achei que o mundo iria acabar e eu finalmente teria paz, comprei diversas bugigangas para a minha casa, só para gastar boa parte do dinheiro, mas infelizmente o mundo não acabou e eu conversei com uma vizinha sobre o meu desejo de encerrar a minha vida.

Ela me perguntou se eu já havia pensado em viver em um asilo, eu disse que não, fiquei muito irritada quando ela me disse isso, porque eu me senti uma velha inútil, mas eu não era inútil e sabia muito bem cuidar de mim mesma, mas ela disse que o mais importante do espaço era a convivência com outras pessoas.  Mas eu recusei, eu disse que não tinha perfil para esses espaços, porém durante aproximadamente dois anos, vários serviços de saúde me visitavam, eu conversava com psicólogos, assistentes sociais e técnicos de enfermagem, todos eles me diziam dos benefícios de morar nesse lugar, até que um belo dia, em 2003 eu decidi aceitar o convite para conhecer esse local, não era mais agradável do que a paz da minha casa, mas era mais movimentado. Com certeza, decidi então que pelo menos eu teria menos trabalho, afinal, já estava com 65 anos e uma ajuda com as tarefas domésticas seria bom, de forma que entrei em um asilo que não era tão caro.

Hoje já estou nessa Instituição de Longa Permanência faz quase 20 anos, não posso dizer que é o lugar onde eu queria estar, pois, afinal, eu queria mesmo era estar no aconchego da minha casa rodeada da minha família, mas a vida foi muito dura comigo. Apesar disso, não me arrependo de nada do que eu fiz, pois eu corri atrás dos meus sonhos e, afinal, eu tenho os olhos castanhos da Clara Nunes. Ainda busco encontrar o grande amor da minha vida aqui dentro, quem sabe? Posso até fazer uma dança da Clara Nunes para ele, agora com menos gingado de antes, claro.

O recado que eu deixo para as novas gerações que vão ler esse meu relato é que não desistam dos seus sonhos por nada, por mais difícil que seja, vocês vão ver que vai valer a pena.

E viva Clara Nunes!

Com amor,
Nivalda

Foto: reprodução


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Thaís Teixeira Carvalho

Formada em Serviço Social, especialista em Gerontologia. Atuou durante 4 anos em uma ILPI filantrópica e desenvolve conteúdos nas redes sociais sobre serviço social e envelhecimento. E-mail: [email protected] Instagram: @longevamente. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/tha%C3%ADs-teixeira-carvalho-b64aa945/. Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCH9LmmAkYe1uicMQZ1L0W1Q

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