Neurociências da música aplicadas à saúde, educação e performance

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No campo da saúde, os estudos das neurociências têm demostrado que a música e a musicoterapia alteram a estrutura e conectividade cerebral, com efeitos benéficos.

Carina Freitas (*)


A “Década do Cérebro” proclamada no início dos anos 90, pelo presidente americano George Bush (1924-2018), estimulou o financiamento, e o interesse, em investigação neurocientífica, elevando-a a patamares inimagináveis. As neurociências, uma área interdisciplinar que congrega conhecimentos de vários domínios (psicologia, biologia, medicina, etc.), fascinam não só os investigadores, como também o público leigo, pela possibilidade de compreensão dos mecanismos cerebrais subjacentes às patologias neurológicas e ao processamento dos pensamentos, emoções e ações.

A música nos seus inúmeros papéis como: arte, forma de entretenimento, meio de comunicação, domínio cognitivo e intervenção terapêutica, tem sido alvo das mais variadas pesquisas neurocientíficas. Cientistas investigam os principais comportamentos musicais (audição, aprendizagem, composição e performance); a aplicação terapêutica da música e dos seus constituintes (ritmo, melodia, harmonia, etc.), assim como a relevância biológica e evolutiva da música para a espécie humana.

Os estudos mais populares em neuromúsica, nos anos 90, foram no âmbito da educação musical. Exploraram-se as relações entre audição e aprendizagem de música clássica e o desempenho cognitivo e académico. Esta linha de investigação mantém-se relevante e, atualmente, o médico e neurocientista António Damásio, diretor do Brain & Creativity Institute (localizado na University Southern California, EUA), e a sua equipa, exploram os efeitos do ensino formal da música no neurodesenvolvimento.

O cérebro dos músicos é, de facto, um modelo de plasticidade. Em relação à performance musical, a improvisação (execução de forma livre) ativa uma área cerebral responsável pelas nossas memórias pessoais, e relacionadas com a construção da nossa identidade, a mesma zona que também está ativa quando narramos, com emoção, a nossa história de vida. De salientar, que é graças ao progresso tecnológico das técnicas de imagiologia cerebral (como a ressonância magnética funcional- fMRI), que conseguimos visualizar o cérebro durante a execução de diferentes tarefas, incluindo a audição e, até mesmo, a performance musical.

No campo da saúde, os estudos neurocientíficos têm demostrado que a música e a musicoterapia alteram a estrutura e conectividade cerebral, com efeitos benéficos. Nos EUA, o National Institutes of Health (NIH) investiu 20 milhões (entre 2017-2022) no programa “Sound Health Initiative” que visa compreender como o cérebro reage à música e como a musicoterapia pode ser uma técnica complementar na reabilitação de lesões e patologias do foro neurológico (doença de Alzheimer, doença de Parkinson, AVC, traumatismos cranianos) e do neurodesenvolvimento (prematuridade, autismo, dislexia). As centenas de milhões de pessoas que sofrem destas enfermidades em todo o mundo justificam este esforço de investimento nas neurociências da música.

Em Portugal esta área do conhecimento está ainda pouco desenvolvida, mas recebe agora um grande impulso com a criação da 1ª edição da pós-graduação na Universidade Católica Portuguesa. A utilidade é preparar os profissionais para a translação e aplicação destes conhecimentos nas suas áreas específicas de intervenção (saúde, educação e performance musical); clarificar neuromitos musicais (conceitos erróneos em torno do cérebro e música) como o “Efeito Mozart” (aumento permanente da inteligência após audição de música clássica); oferecer uma compreensão do papel biológico da música, e estimular o gosto pela investigação neuromusical.

(*) Carina Freitas – Médica psiquiatra de crianças e adolescentes, doutora em Neurociências. Interesse especial na aplicação das Artes na Saúde. Articulista  do JM Madeira onde este artigo foi inicialmente publicado.

Foto destaque de Anna Shvets no Pexels


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