Neto retrata cotidiano da perda da memória da avó

A ideia inicial era apenas fotografar o cotidiano da avó para um trabalho da Faculdade, mas o ensaio transformou-se num vídeo, exemplo de como a Doença de Alzheimer macula as lembranças de seu portador. O vídeo apresenta as fotos do ensaio e também uma conversa entre os dois. O material serve como alerta a todos, não somente aos que têm pessoas com Alzheimer, mas àqueles que têm um(a) idoso(a) em seu convívio.

Tato Villanova *

 

neto-retrata-cotidiano-da-perda-da-memoria-da-avoO Alzheimer conseguiu entrar sorrateiramente na minha vida. Apesar de eu já ter conhecimento da doença que acomete minha avó, sempre reagi muito naturalmente à situação… até o nosso último encontro.
Tive o prazer de tê-la como companhia durante um fim de tarde desta semana. Visitei meus tios – com os quais ela vive desde o falecimento do meu avô – e pude desfrutar de algumas horinhas exclusivas em seu colo, coisa que não acontecia havia anos. Sempre estamos juntos nos encontros de família, nas festas de final de ano, nos aniversários dos primos e tios e nos finais de semana que ela passa na casa dos meus pais, mas não me lembro da última vez em que ficamos somente os dois, como na minha infância, deitados um ao lado do outro, jogando conversa fora. É… finalmente fiz as pazes com o tempo.

Aos poucos, o Alzheimer vem consumindo suas lembranças, a consciência de si mesma, os parentes, a casa, o sítio, o hino que ela adorava cantar na igreja. Restam alguns fragmentos aqui e ali, mas são apenas pedaços desmembrados de momentos que ela não consegue organizar em um fio narrativo. Por mais que sempre estejamos por perto, ela sempre se sente sozinha, pois nunca se lembra do último encontro. É um cativeiro mental onde diariamente ela enfrenta o pior castigo: não se recordar do que já foi vivido.
Por algumas horas fui neto, irmão, tio e filho. Não imaginava que o estágio da doença estivesse tão avançado. Talvez poucos da família saibam realmente disso.

O Alzheimer de minha avó revelou o pior e o melhor de mim. Ela está me esquecendo por conta de sua doença. Já eu… Por onde estive? Qual o motivo da minha ausência? Como diz o ditado: “envelhecer é obrigatório, amadurecer é opcional”, e o envelhecimento de minha avó fez com que eu amadurecesse muitos anos em poucas horas.

O mais lindo de tudo isso é que, mesmo com as lembranças se dissolvendo, um sorriso trespassa o seu rosto a cada novo esquecimento, seguido por aquela risadinha contida que sempre foi a sua marca.
A Doença de Alzheimer é incurável, neurodegenerativa, que provoca o declínio das funções cognitivas, reduzindo as capacidades de trabalho e relação social e interferindo no comportamento e na personalidade.
As pessoas com Alzheimer têm um motivo inquestionável para nos esquecer. Mas, e quanto a nós? Qual é a nossa desculpa para sabotar suas lembranças com o nosso distanciamento? Talvez estejamos mais enfermos que eles.

Essa tarde com a minha avó fez com que os meus olhos se abrissem novamente. A rotina, o ritmo frenético da vida e, principalmente, a ignorância da juventude me cegaram por um tempo. Cercaram-me em torno de mim mesmo, mas o destino sempre se encarrega de recolocar-me nos eixos.

neto-retrata-cotidiano-da-perda-da-memoria-da-avoEsse “afastamento” não aconteceu por descaso, nem por desleixo. Mas, por não conviver com ela – e também por saber que, com os meus tios, ela está em boas mãos –, acabei considerando tudo isso muito normal, me acostumei com a situação. “Ela está com Alzheimer, mas está segura com meus tios e eu a amo!” Ok, mas isso não é tudo. Amar não é relaxar na zona de conforto, e sim estar presente no desconforto. Amar é participar e sorrir junto, mas também é sofrer junto. E eu pequei nisso. Mais um ditado: “quem não é visto, não é lembrado”, ainda mais nestes casos.
Nunca esquecerei dessa tarde ao seu lado. Nunca esquecerei do dia em que fui neto, irmão, tio e até mesmo filho… da minha avó.

Só desejo que nunca esqueçamos dos nossos velhos, afinal, nascer é uma possibilidade, viver é um risco e envelhecer… ah, envelhecer é um privilégio!

Vídeo Disponível Aqui

* Tato Villanova é estudante de Fotografia na Universidade Vila Velha – UVV. No dia 23 de novembro ele postou no seu perfil pessoal este texto e o vídeo.

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