Negação do desejo na velhice como forma de violência

Tempo de Leitura: 7 minutos

Partimos da premissa básica de que é necessário encarar o desejo como um direito da velhice, no sentido de fazer planos, de criar rumos para a própria vida, de se interessar pelo próprio futuro. A vida humana é extremamente dinâmica, um processo contínuo de mudanças e de transformações. Portanto, para viver é preciso envelhecer.

Ana Carolina Lopes SilvaDivina de Fátima dos Santos, Janaína da Silva Aguiar, Jane Blanco Teixeira Ruth Gelehrter da Costa Lopes *

 

A velhice na sociedade moderna é concebida de tal modo que reduz o velho a um mundo restrito e limitado, em constante oposição ao mundo amplo e público vivido durante a juventude. De modo genérico a velhice é encarada como sendo uma negação do futuro e o espírito do velho é associado a um corpo em decadência.

Da maneira como em geral a velhice é vista, ela passa a definir prioritária, mas não exclusivamente, todo indivíduo que atinge certas faixas etárias. A velhice, portanto, nunca é um fato total. Os indivíduos não se sentem velhos em todas as situações e nem se definem como velhos em todos os contextos. Para muitos, velho é sempre o outro.

Não é de se espantar que as pessoas sempre se assustem quando são chamadas de velhas pela primeira vez (Beauvoir, 2003). A vivência da velhice se dá primeiro fisiologicamente, no corpo, estigmatizando e incomodando o idoso. A imagem de um corpo imperfeito, em declínio, enrugado e enfraquecido, amplia-se para a personalidade e a conseqüente sociabilidade do idoso (Mercadante, 1997).

A identidade cronológica é útil para classificar as pessoas reconhecidas como idosas, mas não informa sobre a existência de um sujeito pleno de desejos e vontades, que freqüentemente procura reinventar-se. O rompimento com o modelo reprodutor de estigmas relacionados aos idosos está produzindo uma desconstrução das categorias de velhice e de velho, pois elas não propiciam que os sujeitos se pensem e se inventem de acordo com diferentes e novas possibilidades de produção de suas vidas futuras.

O desejo atua de modo subterrâneo, em outro plano da realidade, atravessando hierarquias e categorias de raça, sexo, idade e classe social, mediado pelo inconsciente humano, um ser que deseja (Guattari, 1993). O desejo é intrinsecamente revolucionário e as suas invenções ocorrem incessantemente no próprio cotidiano. Daí nosso interesse em analisar como as diferentes formas pelas quais a negação do desejo durante a velhice influencia a qualidade de vida dos idosos.

Análise do desejo na velhice

Cada etapa da vida possui sua prescrição e suas características fundamentais: a debilidade da infância, a audácia da juventude, a responsabilidade da vida adulta e a maturidade da velhice. Cada uma destas etapas evolui ao seu tempo, possui valores (suas alegrias, suas realizações, suas frustrações, seus sonhos) e deve ser respeitada pela sociedade. Cada etapa da vida possui significado próprio e reside na necessidade de cada indivíduo perseguir seus sonhos e os objetivos que os norteiam. A vida constantemente adquire novos significados e propõe novas realizações que tragam a cada uma dessas etapas a felicidade plena, bem como um sentido para continuar vivendo.

Com a pessoa idosa não deveria ser diferente, mas o que notamos em nossa sociedade é que quando uma pessoa chega à terceira idade, é como se ela deixasse de sonhar, de desejar. Parece que a única saída ao idoso é retirar-se de “campo”, pois o que ele fala, suas opiniões e comentários já não fazem mais sentido e nem tem importância. É como se o velho representasse apenas o passado e como o passado já passou, perdeu o sentido. A sabedoria que ele traz consigo já é conhecida por todos e a sociedade moderna está sedenta por novidades que são erroneamente atribuídas como sendo exclusividade dos jovens. Então por que esperar que um “velho” ainda deseje?

O envelhecimento inicia-se assim que nascemos: o envelhecimento é certo para todos. A referência do que é ser velho depende do referencial de cada pessoa e do contexto no qual se encontra.

O idoso também tem os seus objetivos de vida. Os seus espaços, os seus prazeres, a sua autonomia, as suas roupas e os seus penteados devem ser respeitados, assim como o seu desejo de construir, reconstruir e experimentar o novo e as novidades que o mundo contemporâneo oferece. O idoso busca liberdade para poder agir, pôr em prática suas ações, já que também ele possui desejos insatisfeitos e deseja, como todos as outras pessoas, satisfazer estes desejos.

O desejo se dá dentro de coordenadas históricas e sociais e é extremamente explorado dentro da sociedade de consumo atual (Novaes, 1990). Vale dizer também que o desejo está sempre ativamente presente nos processos de transformação do mundo e de sua história.

O idoso, além de desejar alguma coisa ou pessoa, também quer ser desejado pelo outro. Esse desejo pode ser representado por alguma coisa cuja lembrança foi significativa e conservada, sendo único e singular. O desejo é a própria essência humana concebida como determinada a fazer algo por uma afeição existente. Pelo nome do desejo explicam-se todos os esforços, os impulsos e os apetites do homem.

No movimento da libido não há velho nem jovem, uma vez que o desejo não tem idade. Os símbolos da libido interagem de forma circular, pois não há início nem fim. O desejo é eterno e não é marcado pelo tempo cronológico, já que em qualquer época o que se deseja é Ser.

O velho não quer que seu desejo seja confundido com necessidades e carências fisiológicas. Se assim o for, seu desejo jamais será plenamente satisfeito, haja vista não existir um objeto específico que o satisfaça, implicando no seu infindável retorno a uma carência, uma falta ou um vazio sempre provocador de sofrimento. O que o velho deseja é poder viver plenamente numa sociedade em que todos sejam realmente iguais, que cada idade seja respeitadas em seus direitos e obrigações, sonhos e realizações, que dão significado e sentido a cada etapa da vida vivida. O objeto do desejo não é algo concreto e que possa ser oferecido ao sujeito; ele não está no reino das coisas materiais, mas sim no reino de tudo que é simbólico.

O objeto de desejo é aquilo que faz o ser se mover diante da vida (ser desejante) e é uma resultante do objeto de desejo de um outro ao qual o sujeito está identificado. O desejo tem sua raiz na falta deixada pelo objeto perdido primordialmente, o desejo da mãe (Freud, 1996). O idoso traz consigo toda sua história de vida – desde o nascimento até o momento presente – uma história também impregnada por desejos vividos. Todos estão em igualdade de condições na busca do objeto de desejo, pois sua origem acompanha o ser humano em sua trajetória, da infância à velhice. O desejo portanto independe da idade cronológica, pois é constitutivo do ser humano.

Algumas considerações

Embora a nossa sociedade ainda seja composta por uma maioria de pessoas jovens, os dados estatísticos têm mostrando que a população idosa está em crescimento. Mas independentemente disso não se vê na sociedade de modo geral um olhar positivo para a “envelhescência”. O que normalmente se vê é um desrespeito velado aos idosos por boa parte das pessoas que não se consideram velhas, e que não se vêem ocupando, um dia no futuro, o lugar de velho (Osório, 2007).

A velhice é normalmente vista como algo triste e o velho como alguém que já viveu tudo o que tinha para ser vivido. O corpo, na velhice, é visto como o lugar privilegiado de desilusão narcísica, destinado somente à decadência e à morte, palco do adoecer. É vital para os seres humanos a interação com o seu ambiente e com outros seres humanos, encontrando respostas nos olhares alheios. A violência implícita no envelhecimento está justamente no fato de que quando as pessoas envelhecem, elas tornam-se transparentes socialmente, no sentido de que não são mais notadas pelos outros, não são mais relevantes, não são mais desejadas. Em muitos casos, como reação, tudo se aceita para não ser rejeitado. A velhice, portanto, não é uma espera pelo fim da jornada. Ao contrário, ela pode representar o momento do resgate, da re-significação da história de vida.

Cabe ao velho abrir-se para novos aprendizados, fazer concessões e buscar inteirar-se como um novo mundo cheio de oportunidade e inovações. Mas é imprescindível que pessoas independentemente da idade aceitem uns aos outros bem como os diferentes conhecimentos que cada geração possui. E até mesmo as possíveis provocações e desafios que possam vir. É preciso garantir a qualquer pessoa – independentemente da idade – a possibilidade de viver plenamente os sonhos e os desejos presentes em cada fase da vida como os prazeres possíveis a cada ser humano. Cada fase é única e singular.

O idoso é capaz de aprender e de adaptar-se às novas exigências da vida no mundo moderno tanto quanto os jovens. Ele também deseja viver, amar, ser amado, ser útil, ser notado, ser admirado seja no meio familiar ou na sociedade em geral.

O envelhecimento assusta pela rapidez com que surpreende as pessoas que não estão preparadas para essa etapa da vida. No entanto, na questão do desejo, a velhice em nada se difere das outras etapas a que todos nós somos submetidos. Cabe à sociedade ver que nessa etapa também é possível viver plenamente e realizar sonhos que não foram possíveis de serem feitos nas etapas anteriores.

Referências

BEAUVOIR, Simone. A velhice. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2003.
FREUD, Sigmund. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
GOLDFARB, Delia Catullo. Violência, subjetividade e envelhecimento. São Paulo: PUC-SP – Portal do envelhecimento, s/d.
GUATTARI, F. As três Ecologias. Campinas: Papirus. 1993.
LACAN, Jacques. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1985.
LAPLANCHE, J. e PORTALIS, J.B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1967.
LEITE, J. C. T. O desejo na velhice: notas sobre a relação entre verdade e gozo. In: RINALDI, D. e JORGE, M. A. C. (Org). Saber, Verdade e Gozo. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2002.
MERCADANTE, E. F. A construção da identidade e subjetividade do idoso. São Paulo: PUC-SP / Mimeo, 1997.
NOVAES, Adauto. O Desejo. São Paulo: Companhia das letras, 1990
OSÓRIO, A. R. e PINTO, F.C. As pessoas idosas. Lisboa: Instituto Piaget, 2007.
ROLNIK, S. Cartografia Sentimental: transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.
ROUDINESCO, E. e PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

Portal do Envelhecimento

Redação Portal do Envelhecimento

portal-do-envelhecimento escreveu 3845 postsVeja todos os posts de portal-do-envelhecimento