“Navillera” nos ensina a voar como borboleta em busca de nossos sonhos

Tempo de Leitura: 5 minutos

Navillera retrata o encontro de um idoso, 70 anos, com um sonho e um jovem de 23 anos com um dom que aprendem a se cuidar mutuamente e enfrentam o desafio de perseguir seus sonhos, apesar dos preconceitos da sociedade.


Shim Deok-Chool, 70 anos, tinha um sonho desde menino, que era fazer balé. Mas a vida traçou outro destino para ele que se tornou funcionário público de uma agência de correios, emprego que o ajudou a sustentar a família e a criar seus três filhos.  Até que se aposentou e, todos, família e amigos, esperavam que ele, como a maioria dos aposentados, acompanhasse os demais reformados, ou seja, fizesse caminhadas, assistisse tevê junto com a esposa, ficasse em casa, enfim, “comportar-se” como aposentado.

Mas a frase “Eu nunca fiz o que quis…” do Sr. Shim logo no início do k-drama sul-coreano Navillera (Netflix) já aponta ao que a série quer retratar, ao trazer à tona a relação da sociedade coreana com pessoas idosas e que é exposta na trama do começo ao fim. Quantos velhos espalhados pelos quatros cantos do mundo se identificam com o Sr. Shim e em coro poderiam repetir a mesma fala: – Eu nunca fiz o que quis… E por que não fazer nesta etapa da vida?

A série também representa como a sociedade oriental enxerga as pessoas idosas, muitas abandonadas, e que são vistas como fardos pelas gerações mais novas. Retrata ainda como as instituições de longa permanência para idosos é percebida. Culturalmente percebe-se que não há muita diferença entre o mundo ocidental e oriental.

Em Navillera, dirigido por Han Dong Hwa, o Sr. Shim resolve ser um velho contemporâneo e lutar pelo seu desejo e faz de tudo para mudar esse destino de “aposentado” que a sociedade o tenta impor, desconstruindo a ideia de que a velhice seria o fim, sem possibilidades de gerar novas experiências e anseios.  Afinal, percebe que não existe idade correta para correr atrás daquilo que lhe faz feliz, expressando situações onde pessoas vivem amarguradas ao chegar à velhice sem ter conseguido realizar seus desejos, como seu grande amigo que vivia em uma casa de repouso e que acaba morrendo só.

– “Nós só vivemos uma vez, por isso, cada segundo é importante para mim” é outra frase do Sr. Shim que lhe dá força para se juntar a uma companhia de balé para finalmente poder realizar o que tanto deseja e deixou para trás. Lá, ele conhece Lee Chae-Rok, um jovem dançarino de 23 anos, que antes de se encontrar no balé, praticou diversos esportes como beisebol, natação e futebol. Sua mãe era dançarina de balé, mas morreu quando Lee Chae-Rok era criança. Seu pai, treinador de futebol, faliu e o jovem para se sustentar financeiramente tem que trabalhar em um restaurante, o que não o permite se dedicar ao balé como seu professor Ki Seung Joo (Kim Tae Hoon) deseja e por causa disso pensa em desistir. O encontro entre os dois homens separados por gerações se dá na academia, onde cada um busca realizar seu sonho.

Inicialmente, Shim Deok-Chool não contou para ninguém de seu sonho nem que se matriculou na academia de dança. Fez isso às escondidas, desde comprar roupa adequada, lavá-la, sair para os ensaios…, até que sua mulher descobre, conta para os filhos e aí todos os preconceitos que uma sociedade tem em relação aos velhos surgem violentamente, primeiro na família, incluindo sua esposa e filhos adultos, estendendo-se para a roda de amigos e vizinhança.

Linda relação intergeracional

A relação de amizade entre Shim Deok Chool (Park In Hwan) e Chae Rok (Song Kang) que é construída ao longo do seriado é muito linda, embora inicialmente tenha sido imposta e cercada por muitos preconceitos: o que um velho está fazendo em uma academia de dança? Mas um vai aprendendo com o outro, um vai incentivando o outro, um vai cuidando do outro, cujo crivo idade desaparece e o que fica é a relação dos dois. Relação que também expõe os conflitos familiares, as ausências dos filhos na vida dos pais idosos e até a imposição de um controle dos filhos sobre o que os pais idosos deveriam fazer. Parece bem familiar esse assunto, não?

A conexão entre os dois, o velho e o jovem, com trajetórias opostas, mas com desejos a serem alcançados, leva a uma quebra de preconceitos impostos pela sociedade, demonstrando que qualquer um, independente da idade, pode voar como uma borboleta, daí o título da série. Juntos, eles tecem uma bela história de amizade, pertencimento e perseverança. Uma amizade baseada no cuidado e na relação.

“Navillera”, uma palavra nativamente coreana e não latino-americana como se pensa, significa “belo como uma borboleta” ou apenas “como uma borboleta”. Trata-se de um k-dramas, dramas sul-coreanos feitos para tevê, parecidos com as séries norte-americanas que tanto conhecemos, com episódios semanais. Mas como o termo “dorama”, produção dramatizada da televisão japonesa se tornou mais popular no mundo, assim é chamada a série, que é baseada em um Webtoon, termo usado para descrever histórias em quadrinhos sul-coreanas publicadas online e totalmente gratuitos para leitores comuns. Nos últimos anos os webtoons, que normalmente tem duas pessoas responsáveis (escritor e ilustrador), vêm ganhando popularidade nos mercados.

Sinopse
Navillera acompanha Shim Deok-chul (Park In-hwan), um carteiro aposentado de 70 anos que decide realizar seu sonho de aprender balé. Sua família, incluindo sua esposa e filhos adultos, não está feliz com sua escolha, mas Deok-chul não parece inclinado a desistir. Na academia de dança, ele conhece Lee Chae-rok (Song Kang), um bailarino de 23 anos que se interessou pela modalidade depois de experimentar diferentes esportes – desde beisebol até natação, passando por futebol. Chae-rok também não foi talentoso em nenhuma dessas atividades e acabou seguindo os passos da falecida mãe, que também era bailarina. Agora enfrentando dificuldades financeiras e completamente afastado do pai, o jovem pensa em abandonar o balé, até que seu caminho se cruza com o de Deok-chul. Um encontro que vai mudar a vida dos dois para sempre.

Serviço
Título: Navillera

Criado por Lee Eun-Mi

Desde 2021 / 60min / Drama

Elenco: In-hwan ParkSong KangMun-hee Na

Nacionalidade Coreia Do Sul

Fotos: Divulgação/Netflix


Nossa conversa no próximo sábado, dia 11/09/2021, das 15h30 às 16h30. Não perca!

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. Estudiosa do Envelhecimento e Longevidade desde 2000. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação, e é pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE), ambos da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Latinoamericana de Psicogerontologia (REDIP). E-mail: [email protected]

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