“Não é só problema de velhice, é problema de internet também”

Tempo de Leitura: 6 minutos

O tempo que passamos navegando pela internet caminha para beirar o insustentável, mas, por outro lado, seria igualmente (ou mais) insustentável manter-me ausente de tudo aquilo que o isolamento afastou.

Beatriz Souza Bittar (*)


A crônica(1) que escrevo é, do começo ao fim, permeada por desafios. Desafios acadêmicos, pessoais, geracionais, virtuais. O primeiro deles é datar quando as questões evocadas pelas interfaces entre tecnologia e idosos passou a me inquietar, pois não acredito que algo que me mobilizou tanto tenha começado apenas no meu primeiro contato com a experiência de estágio.

Levanto aqui uma hipótese: vivemos no presente momento o isolamento social, devido a pandemia da COVID 19, o qual aumentou drasticamente nosso contato com o meio virtual. Mesmo sendo uma jovem universitária de 23 anos, tem sido extremamente desafiador viver essa nova dinâmica. Acredito que para muitos outros, o tempo que passamos em frente às telas, navegando pela internet caminha para beirar o insustentável. Por outro lado, seria igualmente (ou mais) insustentável manter-me ausente de tudo aquilo que o isolamento afastou, de tantos momentos, experiências e contatos que constroem uma vida que, por sinal, parece não poder parar.

Nesse sentido, me peguei pensando: “Como seria viver esse momento sem as facilidades que a internet promove?”. Acho que essas indagações foram gatilhos para a busca de uma nova vivência que sanasse, mesmo que parcialmente, a dúvida: “Como será que as pessoas que não conseguem acessar a internet com facilidade, clicar aqui, clicar ali e fazer uma vídeo chamada, estão lidando com esse momento?”. Foi aí que, graças a minha professora de Estágio Básico II, pude iniciar uma trajetória carregada de afetos e descobertas.

O grupo “Saberes e Sabores” é uma iniciativa da Unidade de Referência à Saúde do Idoso – URSI Geraldo de Paula Souza que visa promover um espaço de escuta e acolhimento grupal para idosos frequentadores dos diversos serviços componentes da Unidade.  O grupo em questão é formado por uma psicóloga, uma fisioterapeuta, uma terapeuta ocupacional, duas estagiárias (eu e minha companheira de classe) e em média cinco mulheres idosas. Nos encontramos às quintas-feiras pela manhã por aproximadamente uma hora por vídeo chamada no aplicativo WhatsApp.

No dia da minha primeira reunião, acordei antes do despertador tocar. Eu durmo muito e acordar antes do despertador é um claro sinal de ansiedade para mim. Fiquei contando os minutos para a hora de levantar e encarar esse desafio: me tornar participante de um grupo novo.

Desde que me tornei integrante do grupo, a questão da conexão virtual mostrou-se central na dinâmica grupal. Em primeiro lugar, porque anteriormente o grupo acontecia de maneira presencial. Essa transição para o ambiente virtual não se mostrou inteiramente ruim. Algumas das participantes revelaram que a possibilidade de nos encontrarmos de maneira remota removia alguns empecilhos, como deslocamento até a Unidade. Além disso, possibilitou que outras pessoas, como nós estagiárias, tivéssemos acesso ao grupo devido a conflitos de horário com as diferentes rotinas. Apesar disso, é importante ressaltar o que foi desafiador.

As dificuldades de acesso ao grupo eram muitas, algumas partindo das idosas, outras do próprio meio virtual, dinâmica muito bem sintetizada na fala de uma das integrantes do grupo, a qual uso como título para essa crônica. Os limites de integrantes permitidos pelo aplicativo impediam o acesso de mais integrantes ao grupo, na medida que, no momento que atingimos oito participantes, não seria possível o acolhimento de novos membros ou até reuniões em que todas estaríamos presentes.

Nesse momento, pensei na possibilidade de migrarmos para outra plataforma que comportasse mais pessoas. A partir disso, perguntei às integrantes quais as dificuldades que enfrentavam no acesso à internet e seus dispositivos, sendo eles: o número de etapas para ingresso nas chamadas, a possibilidade de enxergar todas as participantes ao mesmo tempo e a qualidade da estrutura da internet solicitada para que o site funcionasse. Levando tais aspectos em consideração, comecei a pesquisar possibilidades. Após algumas pesquisas e consultas a uma colega pós-graduanda em Gerontologia, o site WhereBy mostrou-se o mais adequado por cumprir todos esses requisitos.

Mobilizada e tocada pelas dificuldades das idosas, que nesse momento já me referi como amigas e companheiras, desenvolvi um tutorial de acesso ao site em questão, pensando em como deixar mais fácil essa nova transição. No tutorial, busquei me comunicar de modo acessível, tanto em termos de linguagem, quanto em termos de recursos visuais através de legendas. Mesmo tomando diversos cuidados, fiquei muito insegura. Muito mesmo. Daquele jeito que o coração acelera e os questionamentos tornam-se incontáveis: “Será que o conteúdo está adequado? Será que elas vão entender? Será que, na minha fala, infantilizei elas buscando deixar tudo mais fácil?”.

Essa última pergunta instaura um segundo desafio, se mostrando central na minha insegurança na dinâmica grupal, na insegurança de não ser apenas uma observadora, mas sim, uma participante ativa. Me lembrei do final do primeiro encontro, quando recebi uma mensagem da psicóloga coordenadora me aconselhando a participar mais. Pensei “Meu deus, mas o que eu falo? Como eu falo? E se algo que eu falar ofender alguém, mesmo sem a intenção?”. Esse medo se mantém até o presente momento e, apesar de menos intenso, percebo que permeia todas as minhas atitudes perante o grupo.

Apesar disso, decidi compartilhar minhas inseguranças com a psicóloga coordenadora, que empaticamente me disse algo como: “Bia, você está falando com pessoas. Pessoas diferentes com limitações, mas também pessoas diferentes com potencialidades. Não se apega tanto às limitações. Dá espaço para construirmos juntas novos caminhos e novas possibilidades.”

Eu me emocionei. Paralisei por alguns segundos, pensando como eram bobos aqueles pensamentos. Depois, entendi que eles faziam parte do desafio de penetrar no desconhecido. Do desafio de ser, mesmo que um pouco, responsável pelo bem-estar de alguém.

Desde então, pude estar mais ativa no grupo, me colocando mais à disposição com um pouco de confiança. No dia 01 de novembro, recebi um áudio de 7 minutos de uma das integrantes do grupo, no qual ela me contava sobre seu final de semana e sobre questões que a emocionaram. Recebi também algumas fotos dela com as novas amigas que havia feito nos dias passados. Me senti privilegiada, escolhida. Me senti parte de um lugar que antes não pertencia.

Senti o afeto que havia sido construído ao longo dos meses. Me senti como um porto-seguro, mesmo que momentâneo. Me senti amiguinha, como essa senhora gosta de me chamar. Logo que ouvi o áudio, contei para todos que estavam em casa o que havia acontecido comigo. Era uma alegria perante a concretização da fala da psicóloga coordenadora de que, me abrindo para novas experiências, caminhos e laços poderiam ser construídos.

Nesse momento, passadas algumas semanas do meu ingresso no grupo Saberes e Sabores, percebo que o desafio maior, para mim, não era entender e explorar a relação dos idosos com a tecnologia. Era, na verdade, ser integrante ativa de um grupo desconhecido composto por uma geração que, no meu quotidiano, é institucionalmente invisibilizada. De um grupo composto por pessoas que não convivo de modo próximo no dia a dia. De explorar minhas inseguranças, de entrar em contato com as minhas vulnerabilidades enquanto futura psicóloga, enquanto futura ouvinte-falante.

Acredito que aprendi muito com quem, surpreendentemente, não esperava aprender tanto. Me senti acolhida por pessoas que não imaginava fazerem questão de me acolher. Mas, sobretudo, me senti humanamente potente.

Notas
(1) Segundo Broide (2015): “O cronista, esse que escuta para escrever, vive de se expor nas palavras ora cadentes, ora insípidas que escolhe. Dispor-se essa tarefa é um desafio constante, mas irrecusável. Nosso desejo pela questão da escrita está à flor da pele, e precisa estar, para suportar os novos desafios de um lugar em construção, outro espaço de circulação da palavra – e dos desejos. (Miranda et. al., 2006)”

Referências
Broide, J., & Broide, E. E. (2015). A psicanálise em situações sociais críticas: metodologia clínica e intervenções. São Paulo: Escuta.
Miranda, A. B. et al. (2013). Cronista: um lugar em construção: a escuta inscrita e escrita em uma função. Porto Alegre: Correio APPOA.

(*) Beatriz Souza Bittar – A produção a seguir retrata a minha experiência, enquanto aluna da disciplina de Estágio Básico II (6º período) do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com a profa.  Ruth G. da C. Lopes. Refere-se a minha proposta de intervenção via a internet, fruto da vivência como cronista.(1) e estagiária do grupo “Saberes e Sabores” organizado pela Unidade de Referência à Saúde do Idoso (URSI) Geraldo de Paula Souza, no segundo semestre de 2020. E-mail: beatrizsbittar@gmail.com

Foto destaque de Tima Miroshnichenko no Pexels


Ruth G. da Costa Lopes

Ruth G. da Costa Lopes

Psicóloga, mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP e doutorado em Saúde Pública pela USP. Atualmente é professora Associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo na Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Gerontologia e Psicogerontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: processo de envelhecimento, psicoterapia em grupo para idosos, velhice e família. E-mail: ruthgclopes@gmail.com

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