Nadando contra a corrente: transições familiares não normativas e a solidão na velhice

O nível de solidão na velhice difere na Europa, mas em todos os países pesquisados aqueles que nunca tiveram um parceiro ou um filho sentiam mais solidão na velhice do que os que vivenciaram esses eventos.

 

A edição de novembro de 2018 da the Gerontologist traz um artigo interessante sobre a solidão na velhice, apontando uma lacuna nas pesquisas sobre a solidão. O artigo assinala que a maioria da literatura não olha para as experiências tidas no início da vida adulta e suas consequências na velhice. Assim, o artigo procura saber se desvios de roteiros, ou seja, desvios do que a sociedade espera representam fatores de risco para a solidão na velhice. Além disso a pesquisa também procura analisar essa relação em diferentes nações com diferentes culturas.

Os dados da pesquisa vieram do Generations and Gender Programme (GGP) e foram coletados entre os anos de 2004 e 2009. Os dados ainda oferecem informações sobre gravidez, histórico de relacionamento e níveis de solidão. Dado o foco da pesquisa, foram selecionados aqueles maiores de 50 anos de 12 países diferentes. Isso resultou em uma amostra de 61.082 indivíduos com idade entre 50 e 85 anos.

O nível de solidão foi determinado pela versão curta (de 6 itens) da escala de solidão desenvolvida por Jong Gierveld e Van Tilburg. As notas finais estavam entre 0 (não sente solidão) e 6 (muita solidão). Os 6 itens eram: “eu sinto uma sensação de vazio generalizada”, “Eu sinto falta de ter pessoas por perto”, “eu frequentemente me sinto rejeitada(o)”, “Existem muitas pessoas com as quais eu posso contar se acontecer algo”, “Existem muitas pessoas que eu posso contar completamente” e “tem pessoas suficientes com as quais eu me sinto próxima”.

Os resultados mostram que o nível de solidão na velhice difere na Europa, a média mais baixa se encontra na Noruega (1.0) e a mais alta na Georgia (3.5). De forma geral o Leste Europeu mostra níveis mais altos que o Norte e o Oeste.

Quanto a relação entre ter um parceiro e criar filhos os resultados apontaram para uma imagem clara da situação. Em todos os países pesquisados aqueles que nunca tiveram um parceiro ou aqueles que nunca criaram um filho sentiam mais solidão na velhice do que aqueles que experienciaram esses eventos.

Outro achado interessante da pesquisa mostra que idosos que experienciaram a vida com um parceiro ou a criação de um filho relativamente tarde em sua vida adulta sentiam mais solidão do que aqueles que vivenciaram esses eventos “na hora certa”. Entretanto, as consequências para a solidão em passar por esses eventos mais tarde eram muito menos severas do que não passar por esses eventos. Por fim, absolutamente nenhuma consequência desse tipo foi encontrada para o caso oposto, ou seja, aqueles que têm filhos e se casam muito cedo.

Carolina Lucena

Carolina Lucena

Graduada em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Colabora com artigos sobre o envelhecimento populacional mundial e traduções.

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