Mulheres Negras

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A condição de mulher negra, em meados de 1950, atraía preconceitos tanto de homens e mulheres brancas, como de homens negros, que se sentiam superiores por serem homens.


“É na minha disponibilidade permanente à vida a que me entrego de corpo inteiro, pensar crítico, emoção, curiosidade, desejo, que vou aprendendo a ser eu mesmo em minha relação com o contrário de mim. E quanto mais me dou à experiência de lidar sem medo, sem preconceito, com as diferenças, tanto melhor me conheço e construo meu perfil.” (FREIRE, 2010, p.134)

por Barão de Lavapés


Com a citação de Paulo Freire, abro esse texto com a história de vida de três grandes mulheres, retratadas no filme “Estrelas além do tempo” ou, pelo título original, Hidden Figures, traduzindo, figuras escondidas. Escondidas porque poucas pessoas têm conhecimento de que mulheres negras trabalharam tão ativamente para a conquista espacial, inclusive as atrizes que as interpretaram. O Prof. Dr. da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação e Coordenador do Núcleo Negro da Unesp Juarez Tadeu de Paula Xavier argumenta que a adaptação para o português, com a tradução Estrelas Além do Tempo “esvazia o sentido crítico do filme. Mais uma vez, o mito da democracia racial presente no Brasil mascara o problema”.

Antes de entrarmos na trajetória dessas heroínas, é importante que se faça uma correta contextualização das questões sociais, raciais, históricas e políticas que reinavam nos Estados Unidos em meados da década de 1950 até o começo da década de 1960. Ironicamente, problemas ainda tão presentes atualmente no nosso Brasil.

Naquela época, os Estados Unidos viviam em plena Guerra Fria, numa Corrida Espacial com a então União Soviética. A segregação racial imperava no país, e nos estados do Sul e do Sudeste, era ainda mais revoltante.

A violência era indecente: escolas e faculdades na Virgínia eram majoritariamente segregadas, e os banheiros públicos e bebedouros eram separados, assim como os assentos dos ônibus (pessoas negras deveriam se sentar na parte de trás). Difícil conceber e imaginar que uma situação dessas realmente aconteceu.

Ainda nos primeiros anos da década de 1940, no auge da 2ª Guerra Mundial e décadas antes do acirramento da Corrida Espacial, a NASA começou a recrutar mulheres para exercer a função de computadores ou, como eram chamadas, “calculadoras”, mulheres negras que checavam manualmente as equações que possibilitavam o trabalho dos engenheiros, matemáticos e físicos (que eram, em sua grande maioria, homens brancos).

Nesse cenário de corrida espacial, segregação racial e luta das mulheres, começa a trajetória de Katherine, Dorothy e Mary na NACA (National Advisory Committee for Aeronautics; traduzindo, Comitê Nacional para Aconselhamento sobre Aeronáutica), atual NASA.

Katherine Johnson, interpretada por Taraji P. Henson, é uma matemática negra brilhante. É escolhida para trabalhar no Grupo de Missão Espacial, que pretende enviar o primeiro homem ao espaço (e, posteriormente, à Lua).

Computadores ainda não eram utilizados para realizar cálculos complexos, por isso, ela realiza e confere as contas que vão garantir que os astronautas consigam ir e voltar do espaço em segurança. Katherine é a única mulher e a única pessoa negra nesse grupo e sofre com a desconfiança e desvalorização. Ela tem seu trabalho dificultado e é impedida de assinar os relatórios que realiza. Além disso, ela precisa andar quase um quilômetro para usar o banheiro destinado a pessoas negras e os colegas não aceitam dividir a mesma cafeteira com ela.

Katherine se aposentou em 1986 depois de 33 anos de serviço no Centro Langley, e em 2015 recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade – a maior condecoração civil concedida nos Estados Unidos – das mãos do então presidente Barack Obama. Faleceu em 24 de fevereiro de 2020, aos 101 anos.

Dorothy Vaughan, interpretada por Octavia Spencer, trabalha como supervisora dos “computadores negros” (equipe que realizava cálculos), mas sem receber formalmente esse título, pois é mulher e negra. Ao saber que a Nasa comprou um novo e potente computador, o IBM, ela descobre que ele é capaz de realizar 24 mil cálculos por segundo, o que pode colocar em risco seu emprego e de outras colegas. Para evitar que elas sejam dispensadas, depois de a máquina começar a funcionar, Dorothy resolve aprender e ensinar as mulheres como programar.

Dorothy se aposentou da NASA em 1971 e continuou a incentivar a inserção das mulheres nas carreiras de ciência, tecnologia, engenharia e matemática até seu falecimento, em novembro de 2008, aos 98 anos.

Mary Jackson, interpretada por Janelle Monáe, sonha em atuar como engenheira, mas tem seu pedido para entrar no programa de treinamento de engenheiros da Nasa negado, aliás, requisitos alterados para que ela não pudesse concorrer. Determinada, ela resolve apelar para a justiça com o objetivo de se tornar a primeira mulher negra a estudar na Universidade da Virgínia. Ela consegue, vira a primeira engenheira da NASA e trabalha na construção da cápsula que lançaria o homem ao espaço.

Mary aposentou-se da NASA em 1985, após ter recebido diversas honrarias, como o Apollo Group Achievement Award e o reconhecimento de Voluntária do Ano em 1976 no Centro Langley. Mary Jackson sempre apoiou jovens cientistas e buscou acolher aquelas e aqueles que chegavam a Hampton para trabalhar no Langley. Faleceu em 2005 pouco antes de completar 84 anos.

A condição de mulher negra, especialmente naquela época, atraía preconceitos de todos os lados, tanto de homens e mulheres brancas, como de homens negros, que se sentiam superiores por serem homens.

Juarez Xavier lembra que “o Estado soviético recrutou cérebros em todos os lugares. Além de trazer essa diversidade para o projeto de desenvolvimento do país, na época, eles estavam na frente na questão do preconceito em relação a mulher”.

O cinema é assim. Brinda-nos com histórias reais e conhecimento daquelas e daqueles “escondidos”, desconhecidos que brilharam ao longo do tempo, lutaram pelos seus ideais e conquistas.

Muito suor e infinitas lágrimas queimavam nos rostos negros que imploravam pelos mesmos direitos e olhares.

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Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: [email protected]

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